Estudante premiada no XV Seminário de Iniciação Científica da UEFS

Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

A estudante Regiane integra o Projeto de Pesquisa “Feira de Santana real, possível, imaginaria ou invisível: As Imagens, olhar e os discursos da Saúde Pública, do Urbanismo e da Cultura sobre a cidade e a identidade ‘feirense’ (1900-2012)” dos professores doutores Nádia Virgínia Barbosa Carneiro (DCHF), Juarez Duarte Bomfim (DCHF) e Suzi de Almeida Vasconcelos Barboni (DCBio), do Grupo de Pesquisa Observatório das Cidades, vinculado ao Núcleo de Estudos da Contemporaneidade — NUC-DCHF-UEFS.

A Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Estadual de Feira de Santana — PPPG-UEFS — premiou os estudantes bolsistas que apresentaram trabalhos no XV Seminário de Iniciação Científica (SEMIC). A estudante Regiane Barreto Conceição, orientada pelo Prof. Dr. Juarez Duarte Bomfim, recebeu o Prêmio “Bolsistas PIBIC/FAPESB” para a Grande Área Ciências Humanas, Letras e Sociais Aplicadas, em 3º lugar. Registro aqui a importante coorientação da Profa. Dra. Suzi de Almeida Vasconcelos Barboni ao trabalho de Regiane.

A estudante Regiane integra o Projeto de Pesquisa “Feira de Santana real, possível, imaginaria ou invisível: As Imagens, olhar e os discursos da Saúde Pública, do Urbanismo e da Cultura sobre a cidade e a identidade ‘feirense’ (1900-2012)” dos professores doutores Nádia Virgínia Barbosa Carneiro (DCHF), Juarez Duarte Bomfim (DCHF) e Suzi de Almeida Vasconcelos Barboni (DCBio), do Grupo de Pesquisa Observatório das Cidades, vinculado ao Núcleo de Estudos da Contemporaneidade — NUC-DCHF-UEFS.

A seguir, uma breve apresentação de resultados parciais do Grupo de Pesquisa Observatório das Cidades, na forma de um relato para este Blog, sem o rigor metodológico exigido pela academia.

A mudança da feira-livre de Feira de Santana

e os impactos na paisagem urbana a partir da década de 1970

Por Regiane Barreto Conceição e Juarez Duarte Bomfim

Parte 1 

De Santana dos Olhos d’água à Feira de Santana 

A transitoriedade, a impermanência e a multiplicidade caracterizam a cena urbana contemporânea de Feira de Santana. O novo e o antigo, a ordem e o caos, o ontem e o que só viria depois de depois de amanhã convivem no aqui e agora de uma cidade que nasceu do trânsito de gente e de mercadorias.

A história de Feira de Santana-BA remonta ao séc. XVIII, e está relacionada com a antiga estrada de boiadeiro que servia de passagem obrigatória para o deslocamento do gado entre as regiões Norte e Sul do Brasil.

No século anterior (Séc. XVII), o Recôncavo dedicava-se com tamanha exclusividade à produção de cana de açúcar que os criadores de gado eram obrigados por lei a procurar pastagens no interior para os animais de sua propriedade, formando os apelidados “ranchos” de gado.

O desenvolvimento do comércio de gado em Feira de Santana teve como causa a posição geográfica da urbe, que facilitava o deslocamento da boiada, as grandes áreas de pastagens que esta possuía e a localização de dois rios no município, além dos seus inúmeros riachos. A feira que se originou em volta da capela da fazenda de Santana dos Olhos d’água nessa ocasião (Séc. XVIII) pertencia ao casal português Domingos Barbosa de Araújo e à sua esposa Ana Brandoa.

Em 13 de novembro de 1832, o arraial de Feira de Santana pertencente à comarca de Cachoeira, a segunda maior do Estado da Bahia, foi elevado à categoria de vila por decreto imperial com uma extensa área territorial maior que 12.000 km2, se desmembrando da comarca de Cachoeira.

Nesse período quase toda a produção agrícola e pastoril dessa região da Bahia passava pela feira em Feira de Santana, no seu caminho para um mercado maior, o da Cidade do Salvador. Feira de Santana pouco a pouco se tornava a porta do sertão, o seu entreposto comercial e seu canal de comunicações. Ao emancipar o próspero arraial, o decreto imperial de 13 de novembro de 1832 oficialmente reconhecerá esse fato.

Batizada no início como Cidade comercial de Feira de Santana pela lei imperial n°1.320; décadas depois teve o nome simplificado para Feira (Decreto 7.470 de 08 de julho de 1931), e o novo decreto estadual nº 11.089 instituído em 30 de novembro de 1938 oficializou o nome da cidade como Feira de Santana.

A grande feira 

O processo de ocupação de Feira de Santana foi incentivado pela rudimentar feira do gado e do comércio de produtos originados pela passagem dos vaqueiros, visando atender as necessidades tanto da população local, como dos passantes.

Foram construídos os currais modelos na atual região central da cidade, separando o comércio de gado do comércio de mercadorias. A construção dos currais proporcionou a Feira de Santana uma certa aura de modernidade. Sem o gado na rua, e a organização durante sua venda que exigia a fiscalização e exame nas reses para sua distribuição em pequenos lotes, efetuou-se esta modernidade, coordenado por uma estrutura imponente e inovadora — os currais modelos — que proporcionava condições de limpeza, melhorando a aparência da cidade.

Mesmo sendo realizada nas segundas feiras, a feira-livre movimentava outros dias da semana. Visto que já na sexta-feira começavam a chegar pessoas de regiões mais distantes para comprar ou vender na mesma. Esses traziam produtos da sua província como esteiras, frutos da terra e artesanatos locais. Geralmente eram pessoas da região da Chapada Diamantina e do Sertão. Conhecidos como “tabaréus”, por serem indivíduos pobres e moradores da zona rural, traziam seus produtos na cabeça ou através de lombos de animais, e aos sábados acontecia a chegada dos primeiros caminhões carregados de produtos, para atacado e varejo, intensificando a movimentação nas ruas.

Na década de 1950, o movimento dos feirantes não se limitava à praça do comércio (atual Praça da Bandeira) e à Praça João Pedreira; os negócios haviam-se expandido pelas ruas Marechal Deodoro, Conselheiro Franco, Sales Barbosa, Libânio de Morais, Benjamim Constant, e parte da Avenida Senhor dos Passos, além da Avenida Maria Quitéria (atual Avenida Getúlio Vargas).

O desenvolvimento do comércio de Feira de Santana aumentava década após década, transformando-se em fonte de prestígio, status e de sucesso econômico, conferindo ao município sua identidade comercial. Enquanto o número de habitantes pouco mais do que triplicara em 1950, o número de casas aumentara de quase sete vezes. Estima-se também que o volume de negócios sofrera um notável acréscimo. Assim, em 1950, as atividades comerciais representavam aproximadamente um quarto da riqueza econômica de Feira de Santana.

A feira agitava a cidade, a venda e revenda de mercadorias atraiam milhares de pessoas interessadas nos produtos ali comercializados. Muitos compradores vinham adquirir produtos para revender nas suas cidades.

Na gestão do prefeito Arnold Ferreira da Silva, entre 1959 a 1962 ocorreu a transferência dos currais modelos da área central para o atual bairro da Queimadinha, no cruzamento da avenida principal com a Maria Quitéria. Naquele antigo espaço hoje estão localizados o Museu de Arte Contemporânea, o Ginásio Municipal, a Biblioteca Municipal, o Fórum Filinto Bastos, a SUCAM e uma Loja Maçônica.

Essas transformações proporcionaram que a cidade de Feira de Santana passasse por uma série de mudanças que permitiu a dinamização do setor econômico. Isso porque a junção da feira de gado à feira-livre não era mais bem visto por comerciantes e autoridades locais. Desse modo, a separação propiciou condições para o desenvolvimento urbanístico do município.

Com os currais modelos distantes do centro, a feira-livre englobou outros seguimentos que possibilitou a expansão do comércio e da própria cidade.

A feira não só representava um lugar de realização da atividade comercial, mas também representava em seu conjunto um espaço para encontros de celebração e confraternização. As diferenças culturais presenciadas enriqueciam a feira, figuras típicas das regiões a alegrava como os repentistas, cantadores, comedores de fogo, malabaristas, contadores de “causos”, os cordelistas, os circenses… juntos embelezavam as ruas onde era realizada a mesma.

O surgimento de novas casas comerciais e de serviços como hotéis, lojas e farmácias fazia urgente a organização da cidade. Mas mesmo com a transferência dos currais modelos para longe do centro, a feira-livre ainda apresentava desorganização espacial acentuada. Lixo, esgotos, venda de animais menores como porcos e aves, as inúmeras barracas… causavam incômodo e odor desagradáveis, demonstrando a real necessidade em investimentos com infraestrutura e saneamento para a aspirada modernidade.

Preocupados com a imagem que os visitantes levariam da cidade, algumas decisões diante da situação foram concretizadas ao longo do tempo, como o Código de Postura de 1967, artigo 94 que proibia a permanência de animais nas vias públicas e institui no capitulo “do trânsito público” artigo 92 inciso V a interdição de animais sobre os passeios e jardins e sua circulação nos mesmos. Dez anos depois, em 10 de janeiro de 1977 foi efetivada outra grande medida, a transferência da feira-livre para o Centro de Abastecimento.

O Centro de Abastecimento de Feira de Santana

A transferência da feira-livre para o atual Centro de Abastecimento (CAFS) promoveu um divisor de opiniões entres aqueles que eram a favor da medida proposta e os que eram contra a mesma. As pessoas que desejavam a mudança da feira para o Centro de Abastecimento almejavam o progresso, consideravam que a sua transferência significaria higienização, segurança, saúde pública e o desenvolvimento do turismo na urbe.

Os que eram contra a instalação da feira-livre no novo local escolhido, reclamavam de vários aspectos entre eles a distância do novo lugar, a queda nas vendas e principalmente o medo de perder os seus fregueses.

O Centro de Abastecimento, localizado no bairro da Barroquinha, foi inaugurado em 1° de fevereiro de 1977, pelo prefeito José Falcão da Silva. Destinado a comercialização em atacado ou varejo, foi aprovado pela lei n° 819/77 consolidando o Projeto Cabana. Teve suas instalações ampliadas durante a administração do reeleito prefeito José Falcão da Silva, em 1986, que promoveu a construção da Praça do Tropeiro em homenagem ao mesmo, localizada em frente ao CAFS. A reinauguração do CAFS e a inauguração da praça ocorreu em dois de fevereiro de 1986, onze anos depois da instalação do Centro de Abastecimento no local.

Continua na Parte 2…

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Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]