Trabalho científico de Juarez Bomfim é apresentando no VII Encontro de Estudos Multidisciplinares de Cultura

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VII Encontro de Estudos Multidisciplinares de Cultura ocorre na UFBA, em Salvador.
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De hoje, quarta-feira, 3 a 5 de agosto de 2011 está acontecendo no Campus da Universidade Federal da Bahia – UFBA (Reitoria e PAF III) o VII Encontro de Estudos Multidisciplinares de Cultura, organizado pelo Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (CULT) em conjunto com o Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (Pós-Cultura), o Instituto de Humanidades, Artes & Ciências Professor Milton Santos (IHAC), a Faculdade de Comunicação (Facom) da Universidade Federal da Bahia (UFBa).

O público alvo são professores, estudantes, pesquisadores e demais interessados da área de cultura. No site do evento http://www.enecult.ufba.br/ encontram-se informações detalhadas sobre tão importante encontro artístico-científico.

Este que vos escreve teve a honra de ser convidado para apresentar trabalho científico numa Mesa Coordenada pelo Prof. Dr. Francisco Zorzo (UFBA), tendo ao seu lado o Prof. Dr. Roberto Seidel.

A seguir, disponibilizo para os interessados a minha modesta Comunicação realizada hoje à tarde para um seleto grupo de participantes.

Cultura de mercado e mercado de cultura.
O novo e o velho centro da Cidade do Salvador

Juarez Duarte Bomfim

Resumo: Até os anos 1970, Salvador possuía uma estrutura mononuclear, com um centro que abrigava praticamente todas as funções urbanas. Na década seguinte, o desenvolvimento da atividade industrial na região metropolitana e a expansão do comércio e dos serviços criaram vetores de crescimento e a transformaram numa metrópole polinuclear. Surge um novo centro, na região do Iguatemi. Neste movimento urbano, o centro novo aparecia como um elemento que levava à ruína o centro velho. Todavia, as funções desses dois centros se estabeleceram de forma separada, oposta. Cada um representativo de um feixe de funções urbanas. Enquanto o nexo do centro novo é o mercado, que se acompanha da cultura própria, o centro velho tem como eixo a cultura acompanhada do mercado próprio. Quer dizer, cultura de mercado no novo centro e mercado de cultura no Pelourinho. Dessa forma, apesar de opostos, esses centros se complementam.

Palavras-chave: Cidade, Funções urbanas, Centro, Cultura, Mercado.

1. Cultura de mercado e mercado de cultura na Cidade do Salvador

Até os anos 1970, Salvador possuía uma estrutura mononuclear, pois embora existissem subcentros voltados para a população dos bairros, era o centro tradicional, formado pela Cidade Alta e Cidade Baixa, “o local ao qual se ia para o trabalho, para realizar negócios, para fazer compras e para o lazer cultural”.

[2] As linhas de transporte coletivo, todas dirigidas para o Centro, reforçavam essa centralidade.
O desenvolvimento da atividade industrial na região metropolitana e a expansão do comércio e dos serviços em Salvador criaram vetores de crescimento e a transformaram numa metrópole polinuclear. Contribuíram para isso as dificuldades de circulação e estacionamento nas áreas centrais.

O deslocamento do Centro Administrativo da Bahia (CAB) para uma área distante 15 km do centro antigo, a construção de uma nova estação rodoviária e a implantação do Shopping Center Iguatemi orientaram o processo de descentralização.
A implantação do Centro Administrativo da Bahia nas proximidades da Avenida Paralela cumpriu o papel de esvaziar o centro tradicional dessa importante função administrativa e, por outro lado, atraiu para esse novo vetor de expansão da cidade — em área conquistada à Mata Atlântica — a locação de novos equipamentos urbanos, de grande porte.
Surge um novo centro, concorrendo e esvaziando o centro antigo. O “coração” deste centro é um gigantesco shopping center, o Iguatemi, inaugurado em 1975 e composto de 535 lojas e 25.500 vagas rotativas de estacionamento, distribuídos em três pisos.

[3] Circulam por esse espaço 140 mil pessoas/dia; esse shopping subverteu a ideia da dicotomia entre espaços público e privado em Salvador.

Nessa região, originalmente chamada de vale do Camurugipe, se instalaram além da nova estação rodoviária (1974), o maior hipermercado de Salvador (1980); grandes equipamentos públicos (Corpo de Bombeiros, sede do Departamento Estadual de Trânsito, Detran etc.); revendedores de automóveis; modernos prédios de escritórios, universidades, outro grande shopping (Shopping Salvador, 2007) etc., reforçando a sua centralidade.
Para esse notável processo de expansão foi fundamental a melhoria da infraestrutura urbana em água, energia e, sobretudo, transporte.

Em poucos anos a cidade assistiu a um vigoroso processo de abertura de novas avenidas de vale (anos 1970) e, assim, o sistema de ligação das avenidas “Bonocô—Acesso Norte—Antônio Carlos Magalhães—Paralela”, com todas as suas articulações, passa a ser fundamental no direcionamento da periferização do crescimento de Salvador.
A nova estrutura da metrópole enfatiza o seu novo centro, o Iguatemi, do qual partem e convergem vários eixos importantes. Essa região, o novo centro de Salvador, concentra uma variedade de funções urbanas e equipamentos públicos e privados que a transformam na área mais dinâmica da cidade. Uma área sem caráter ou identidade, que poderia ser enclave de qualquer grande urbe do planeta, que depõe contra o que Salvador tem de específico, singular e original na sua paisagem.

Essa nova lei do valor dentro da cidade passa a reinar em detrimento do centro velho que não podia, a partir do pequeno capital nele presente, participar desse novo movimento urbano.
Naquele primeiro momento o centro novo competiu com o centro velho, pois as funções urbanas nele ainda não se haviam instalado de maneira definitiva, e os novos hábitos da população não se haviam igualmente estabelecido. Esse novo centro também competiu porque os recursos, todos públicos, a ele se dirigiam criando um desnível dentro da cidade. Dessa forma, o centro novo aparecia como um elemento que levava à ruína o centro velho.
O Estado ainda não estava disposto a uma intervenção em massa no Centro Histórico de Salvador, a “única capaz de renovar o centro velho, a única passível de êxito”,

[4] como começou a ser feito a partir de 1992.

Hoje é diferente, porque as funções desses dois centros se estabeleceram de forma não apenas separada, mas oposta. Cada um é representativo de um feixe de funções urbanas. E talvez não seja exagero dizer que o nexo de um é apenas o mercado — o mercado sobretudo, porque o mercado se acompanha da cultura própria, então não é só o mercado —, e o outro centro tem como eixo a cultura acompanhada do mercado próprio.[5]

Quer dizer, cultura de mercado no novo centro — o Iguatemi — e mercado de cultura no Pelourinho. Dessa forma, apesar de opostos, esses centros se complementam.[6]

2. Salvador, a Roma Negra

Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que acontece o esvaziamento dirigido da área central da cidade, se dá início políticas públicas para a sua reabilitação, devido ao grave problema de degradação físico-social do Pelourinho.

Porém, se antecipando ao poder público, surge na década de 1970 em Salvador um vigoroso movimento cultural capitaneado pelos grupos culturais negros, que se constitui em um fenômeno artístico-cultural à época chamado de “negritude”: a valorização, pela comunidade afrodescendente, da cultura, música, religião, dança, estética e tudo o que faz referência à tradição dos negros e a sua origem africana.

Nos anos 1980 o Pelourinho se torna o locus privilegiado para o encontro e entretenimento da juventude “negro-mestiça”

[7] de Salvador. As festas ali organizadas reúnem multidões e fazem reviver o velho tecido urbano. A expressão maior dessas manifestações se produz no carnaval e nas noites de terça-feira, quando ocorre a missa de Santo Antônio, às 18h, com a Benção de São Francisco, na majestosa “igreja de ouro”. O hábito dos frequentadores da missa irem, após a função religiosa, para os bares e restaurantes da área deu início a uma grande festa popular, a Terça da Benção, que se espalha pelas ruas, clubes e bares do Centro Histórico.

Esse movimento cultural de afirmação da identidade negra vai ser lucrativamente incorporado à industria cultural emergente na Bahia, através da rentável indústria fonográfica, rádios locais, shows musicais e o próspero carnaval das organizações carnavalescas.

Fundam-se inúmeras agremiações carnavalescas afro “ostentando nomes sonoros”

[8] em língua iorubá como Ylê Ayê, Muzenza, Araketu, Olodum… este último com sede no Pelourinho, e que elegeu a “comunidade do Pelô” (diminutivo pessoalizado e carinhoso que passa a designar o Centro Histórico) como seu tema e inspiração.

Muitas dessas organizações carnavalescas se estruturam como Organizações Não-Governamentais (ONGs) que desenvolvem projetos de inclusão social junto às comunidades dos bairros onde estavam localizadas, porém, antes de tudo, se constituem em organizações carnavalescas voltadas para a festa, o lazer e o entretenimento. As rádios da Bahia e a indústria fonográfica investem nos novos ritmos musicais que surgem e que logo se tornam sucesso e modismo internacional.

É como se houvesse uma efervescência cultural negra nos anos 1980-1990. Cria-se um produto chamado “Bahia” intrinsecamente ligado à indústria cultural. É importante ressaltar esse aspecto porque de certa forma ele será o fio condutor das políticas públicas de recuperação do Centro Histórico, na década de 1990: a requalificação urbana daquele espaço para o turismo, lazer e entretenimento, isto é, para a indústria cultural.

O Centro Histórico de Salvador passa a abrigar dezenas de Organizações Não-Governamentais de todos os tipos — culturais, ambientais, esportivas, sindicais — num movimento espontâneo anterior ao programa de recuperação patrimonial que breve se iniciaria — em 1992. Começa a ocorrer uma mudança de percepção do Pelourinho, de sua imagem, não mais um bairro degradado física e socialmente, e sim local onde se propagam os valores positivos da raça negra e da riqueza cultural da comunidade residente, o que contribui para reduzir o isolamento crônico da área.

Analisando o fenômeno, o antropólogo Lívio Sansone considera que o “Pelourinho tornou-se um ponto central no novo sentir-se negro”,

[9] o centro geométrico de um sentido pouco localizável de “comunidade negra”, tanto para os jovens pobres residentes nos bairros distantes e periféricos de Salvador quanto para os jovens negro-mestiços de outros municípios da Região Metropolitana — como Camaçari, por exemplo.

O antropólogo ainda observa que essa população periférica de jovens negro-mestiços de classe baixa se espraia pelo Centro Histórico numa atitude de “curiosidade coletiva” que os leva a criar grupos e, nessas turmas, frequentarem a área central e o bairro do Pelourinho — ao qual se acessa a pé a partir da Estação de ônibus da Lapa — e esses deslocamentos são parte importante do “percurso de conhecimento da cidade, de exploração, de tomada da cidade em grupo”.

[10]Com o sucesso, à época, das intervenções do Governo da Bahia através do Programa de recuperação do Centro Histórico de Salvador (1991-1994), o Pelourinho transformou-se em um grande espaço de lazer e animação da cidade, criando uma nova oferta, cujo movimento foi capaz de absorver o fluxo de outros espaços similares, a exemplo da Barra, Rio Vermelho e Orla Marítima. Neste período, estima-se que 90% dos frequentadores eram moradores de Salvador e 10% de turistas nacionais e estrangeiros.

[11]O êxito imediato da intervenção mudou radicalmente a imagem do Centro Histórico: de zona perigosa e reduto de delinquentes se tornou, a partir de então, o principal símbolo da cidade, a imagem da Cidade do Salvador.

Kevin Lynch considera que a paisagem funciona como um sistema vasto de memórias e símbolos para a retenção das ideias e da história do grupo. A paisagem desempenha um papel social: o ambiente identificado e conhecido fornece material para lembranças e símbolos comuns, que unem o grupo e permitem comunicação dentro dele.

[12] Assim o arquiteto Paulo Ormindo apresenta o novo Pelourinho:

A população de Salvador e os turistas jovens redescobriram o bairro, atraídos por seus bares e um programa intensivo de animação cultural. Valores culturais tradicionais estão sendo revividos pelos antigos moradores da cidade e descobertos pelas novas gerações. A avaliação dessa experiência e de seus resultados será fundamental para a definição de uma política para o complexo problema dos centros históricos, no Brasil e na América Latina. Não obstante todas as vicissitudes por que tem passado, o Pelourinho continua a ser uma festa de gente, cor, música e magia.

[13]Considerado por técnicos da Unesco como uma referência mundial para a recuperação de sítios históricos, tornou-se “moda” frequentar o Pelourinho, “consumir” o Centro Histórico. O impacto na atividade turística será intenso. A reintegração sociourbana do Centro Histórico de Salvador ocorre através do que se caracteriza como indústria cultural — a mercadorização das condições de produção, circulação e apropriação e consumo dos bens e serviços culturais.

3. Indústria cultural

A requalificação socioespacial do centro histórico das cidades para o desenvolvimento do turismo cultural tem sido a estratégia usada pelas municipalidades para a revitalização desse significativo espaço urbano. A intermediação da cultura para a criação de novas espacializações sociais
A patrimonialização e turistificação dos conjuntos urbanos e monumentais de cidades que têm o reconhecimento internacional por parte da Unesco — como no caso de Salvador, cujo Centro Histórico foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade em 1985 — traduzem uma espécie de globalização simbólica do patrimônio histórico edificado da cidade, com efeitos sobre a economia local, a oferta cultural e a paisagem estética do lugar.

Os sociólogos Carlos Fortuna e Augusto Santos Silva afirmam que desde a era da industrialização as cidades não param de crescer e se multiplicar.[14] Tal crescimento, feito à custa do gradual esvaziamento sociocultural dos centros cistóricos das cidades e do alargamento de suas periferias e subúrbios, arrastou consigo renovados receios sobre as virtudes da vida e da cultura urbanas.
Os centros das cidades, em vez de traduzir, de modo permanente, a heterogeneidade e a diversidade da cidade, tornaram-se socialmente mais homogêneos e segregadores ou foram convertidos em lugares de visitação e cerimonial, mais ou menos regulares, de turistas e de residentes suburbanos.

O desenrolar da vida urbana tem ficado para trás no espaço público urbano tradicional, lugar de ações e interações significantes, que passa a apresenta sinais de retração e crise.
Esta crise e retratação do espaço público das cidades é, entre outros aspectos, resultante da lógica cultural contemporânea que acentua, por um lado, a satisfação pessoal imediata, o individualismo e o reino da privacidade/domesticidade e, por outro lado, da cultura do movimento e da velocidade dos contatos sociais que, transmitida à técnica urbanística, urbaniza a cidade de acordo com o princípio geral de que os sujeitos se encontram em contínuo trânsito entre lugares. Sem tempo e com cada vez mais reduzido espaço para parar e comunicar, a cidade e a cultura urbana desfiguram o sentido de comunidade e de lealdade que Rousseau elogiava

.[15]Em redor da cultura e de algumas de suas expressões materiais — equipamentos especializados, zonas comerciais, projetos de reconversão e de renovação de espaços marginais ou decadentes, entre outras situações — assiste-se ao reforço da velha centralidade urbana de Salvador, com renovadas funções (lúdicas, culturais e educativas) no Centro Histórico, associadas a novas modalidades de comunicação e ao surgimento de novos agentes culturais especializados e novos campos de ação que resultam numa reconfiguração física, estética e simbólica da cena urbana e dos espaços públicos da cidade.

[16]A intervenção no Centro Histórico de Salvador visava a atrair para a área renovadas atividades econômicas orientadas para o turismo e o lazer, num enfoque mercadológico do ambiente restaurado, justificando-se com o estímulo ao crescimento econômico e à geração de empregos. O Pelourinho “transformou-se num produto a ser visto, visitado e vendido através da utilização de técnicas de marketing e propaganda”.

[17]Ocorre no Pelourinho restaurado uma mistura de apelo cultural — sustentado pela sua monumentalidade histórica — e “arquitetura de espetáculo”

[18] (representado pelas praças internas dos quarteirões, colorido das fachadas, casas de show) numa “sensação de brilho superficial e de prazer participativo transitório, de exibição e de efemeridade”

[19] que se tornou essencial para o sucesso de uma intervenção dessa natureza. O objetivo era dar determinada imagem ao Centro Histórico através da organização de espaços espetaculares como um meio de atrair capital e pessoas “do tipo certo”

[20] num período de competição interurbana e de empreendedorismo urbano intensificados na cidade global.

Como forma de viabilizar o empreendimento Pelourinho (1991-2006), o governo do Estado participa ativamente com subsídios capazes de potencializar a recuperação da área e a sua infraestrutura, assim como a vocação para o turismo e o lazer. É com essa lógica que se cria o Projeto Pelourinho Dia & Noite.

O Projeto Pelourinho Dia & Noite é coordenado pela Secretaria de Cultura e Turismo desde 1995. Gerido inicialmente pelo Ipac, a partir de 1999 passa a ser executado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb).

Esse projeto visa, essencialmente, a promover eventos culturais que têm atraído um grande fluxo de baianos e turistas para a área, com uma programação diversificada, realizando uma média de 120 eventos por ano. Mensalmente, em torno de 130 mil pessoas assistem a shows e espetáculos que acontecem diariamente e gratuitos nas praças e ruas que incluem apresentações de samba e MPB (música popular brasileira), serestas, música clássica e pop, reggae, peças de teatro e dança, direcionando para o Centro Histórico um intenso fluxo de público, aí incluído o segmento populacional local.[21]

Outros dois grandes eventos anuais, patrocinados pelo Estado, têm como cenário o Pelourinho: o São João no Pelô, o Natal no Pelô e o Carnaval no Pelô — Pelô é um codinome carinhoso, alcunhado pela população para o bairro do Pelourinho.

4. Apogeu e crise do modelo de intervenção

A ocupação dos imóveis restaurados do Pelourinho teve como orientação o estabelecimento de atividades comerciais de luxo — restaurantes caros, joalherias, lojas de presente — visando a atração de uma clientela seleta, de elevado poder aquisitivo, disposta a consumir produtos e serviços mais sofisticados. O “novo” Pelourinho deveria ser diferenciado e elitizado.

Medidas como limites de acessos a algumas áreas (especialmente as praças internas), não comercializar bebidas populares ou a preços acessíveis foram tentadas como forma de afastar as pessoas situadas nas faixas de renda inferiores.
O que de fato se constatou foi que os quarteirões recuperados do Centro Histórico passaram por uma intrigante estratificação socioespacial e temporal. O afluxo de pessoas de rendas mais elevadas se dava nos dias de segunda, quarta e quinta-feira. Nas “terças da Benção” e nos fins de semana o Pelourinho era “invadido” pelos mais pobres. Inclusive os restaurantes de luxo cerravam as suas portas nas terças-feiras.

Enquanto as classes médias e altas frequentavam os espaços interiores sofisticados, a população da classe média-baixa distribuía-se pelas calçadas e praças numa “grande concentração uniforme de pessoas na busca de lazer e recreação”.[22] A estratégia pensada pelas elites, de não comercialização de bebidas populares ou a preços acessíveis, não funcionou, pois, em se tratando da Cidade do Salvador, o que acontece é uma articulação entre os dois circuitos da economia — superior e inferior.

A constituição do circuito superior da economia é o resultado direto da modernização tecnológica, consiste nas atividades criadas em função dos progressos tecnológicos e das pessoas que se beneficiam dele; enquanto que o circuito inferior é igualmente um resultado da mesma modernização, todavia um resultado indireto que se dirige aos indivíduos que só se beneficiam parcialmente ou não se beneficiam dos progressos técnicos recentes e das atividades a eles ligadas.

[23]Assim, logo um intenso comércio ambulante se “apropria” das ruas do Centro Histórico restaurado, com o Estado incapaz de controlá-lo. A interação dos dois subsistemas — o circuito superior e inferior da economia — será realizada pelas classes médias, as quais, frequentemente, ou ocasionalmente, realizam o seu consumo nos dois circuitos.

[24]Quando, já no início do século XXI, a classe média-alta se desinteressa pela frequência ao Centro Histórico, encontrando novos espaços de recreação e lazer nos shopping centers e litoral norte, são as classes populares os atores sociais que manterão aquele tecido social vivo. A mesma classe social que foi expulsa do Pelourinho quando do Programa de Recuperação.

5. Nova administração estadual em 2007: o governo dá as costas ao Pelourinho?

A ascensão ao poder na Bahia de um partido de oposição nas eleições realizadas em outubro de 2006, após 16 anos de continuísmo, coloca em questão o tema da descontinuidade administrativa, que ameaça interromper ou modificar radicalmente as políticas públicas para o Centro Histórico de Salvador.

Neste início de 2011, com a reeleição do governo estadual do último quadriênio (2007-2010), a percepção da opinião pública é de que o governo abandonou o Centro Histórico, quando da sua posse para o primeiro mandato, em 2007.
Entretanto, o governo voltou a ser animador cultural através de projetos como o “Pelourinho Cultural”,[25] a organização do circuito carnavalesco no Pelourinho nestes anos todos, ao lado da Prefeitura, e um suposto Plano de Reabilitação do Centro Antigo de Salvador,[26] de fato apenas intenções.

Não é objetivo deste artigo avaliar a situação atual, pois ela não foi geradora de uma nova realidade para o Centro Histórico de Salvador, e sim atua sobre os fatos gerados no passado recente.

6. O Centro Histórico de Salvador como um espaço de circulação de bens culturais
O Centro Histórico de Salvador se requalifica assim como um espaço de circulação de bens culturais, onde a cultura, nas suas mais diversas concepções e manifestações, passa a ter uma espacialidade própria.

Num sentido físico mais restrito, a espacialidade da cultura diz respeito aos lugares e equipamentos especializados, sejam eles praças, ruas, teatros, auditórios, museus ou galerias, onde se experimentam atos estéticos de criação artística. Mas a espacialidade da cultura é também uma espacialidade social e política mais ampla, orientada pelos gestores públicos.
Na revitalização do tecido sociourbano do centro antigo de Salvador, ganha destaque o papel da cultura como agente de dinamização desse espaço metropolitano. Percebe-se que os habitantes e aqueles que o visitam estabelecem com os espaços públicos da cidade diversos significados.

O desenvolvimento da indústria cultural, isto é, a mercantilização da cultura, da qual a Cidade do Salvador é uma expoente, incorpora diretamente elementos culturais e simbólicos na sua cadeia de valor, e essa dinâmica se manifesta claramente com o chamado turismo cultural.

A globalização alargou consideravelmente o âmbito das formas culturais onde a produção passa a ser destinada a mercados planetários. O localismo é globalizado pela indústria do turismo, por espetáculos artísticos e esportivos, pela televisão e pelos circuitos musicais. Há uma nova escala de difusão e consumo internacional de músicas de raiz popular, regional ou nacional, sendo manifestações como o carnaval da Bahia, suas festas, músicas e danças um forte referencial na construção da sua imagem turística.

Considera-se que no contexto das viagens e do turismo, a busca da primordialidade e do exotismo, nas novas condições do mercado, potenciou a exploração econômica e simbólica de territórios, grupos e práticas tornados bens culturais. É dessa maneira que o Estado da Bahia e a sua capital, Salvador, se integram a esse grande mercado global.

Referências

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Dantas, Eustógio Wanderley Correia. Apropriação do espaço público pelo comércio ambulante: Fortaleza-Ceará-Brasil em evidência (1975 a 1995) Scripta Nova Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales. Universidad de Barcelona. Vol. IX, nº. 202. Disponível em http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-202.htm. Acesso em 16 out 2006.

Fortuna, Carlos; Silva, Augusto Santos. A cidade do lado da cultura: Espacialidades sociais e modalidades de intermediação cultural. In Santos, Boaventura de Sousa (org.). A globalização e as ciências sociais. São Paulo: Cortez, 2002.

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< http://www.centroantigo.ba.gov.br/ > Acesso em 31 de março de 2011.

Pelourinho Cultural. Disponível em < http://www.pelourinho.ba.gov.br/ > Acesso em 31 de março de 2011.

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Santos, Milton, Salvador: centro e centralidade na cidade contemporânea. In: Pelo Pelô. História, cultura e cidade. Gomes, Marco Aurélio A. de Filgueiras (Org.). Salvador: Editora da Universidade Federal da Bahia/ Faculdade de Arquitetura/Mestrado em Arquitetura e Urbanismo, 1995.

O Espaço Dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: F. Alves, 1979.

VASCONCELOS, Pedro de Almeida. Salvador: transformações e permanências (1549-1999). Ilhéus: Editus, 2002.

[1] Professor adjunto do Departamento de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Estadual de Feira de Santana — UEFS.

E-mail: [email protected]

[2] Vasconcelos, P. A. 2002, p. 382.

[3] Disponível em < > Acesso em 31 de março de 2011.

[4] Santos, Milton, 1995, p. 24.

[5] Ibidem, p. 24.

[6] Bomfim, Juarez Duarte. O Centro Histórico da Cidade do Salvador: sua integração sociourbana. Feira de Santana, UEFS Editora, 2010.

[7] Categoria étnica referida por Risério, Antonio. Carnaval Ijexá. Salvador: Corrupio, 1986.

[8] Risério, Antonio, 1986, p.16.

[9] Sansone, Lívio. O Pelourinho dos jovens negro-mestiços da classe baixa da Grande Salvador. In: Pelo Pelô. História, cultura e cidade. Gomes, Marco Aurélio A. de Filgueiras. Salvador: Editora da Universidade Federal da Bahia/ Faculdade de Arquitetura/Mestrado em Arquitetura e Urbanismo, 1995, p. 63.

[10] Idem, ibidem, 1995, p. 62-63.

[11] Carta da CPE. Pelourinho. A pós-recuperação, 1994, p. 14.

[12] Linch, Kevin. A Imagem da Cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

[13] Azevedo, Paulo Ormindo. Centro Histórico de Salvador. Disponível em Acesso em 15 ago. 2006.

[14] Fortuna, Carlos; Silva, Augusto Santos. A cidade do lado da cultura: Espacialidades sociais e modalidades de intermediação cultural. In Santos, Boaventura de Sousa (org.). A globalização e as ciências sociais. São Paulo: Cortez, 2002.

[15] Idem, ibidem, 2002, p. 424.

[16] Análise de Fortuna & Silva para a cena urbana portuguesa, pertinente também à Salvador. Fortuna, C.; Silva, A. S;, 2002, p. 430.

[17] Nobre, Eduardo A. C. Intervenções urbanas em Salvador: turismo e “gentrificação” no processo de renovação urbana do Pelourinho. In X Encontro Nacional da ANPUR. Disponível em www.usp.br/fau/docentes/depprojeto/e_nobre/intervencoes_urbanas_Salvador.pdf Acesso em 16 out 2006.

[18] Harvey, David, 2005, p. 91.

[19] Idem, ibidem, p. 91.

[20] Ibidem, 2005, p. 92.

[21] Miranda, L. B,; Santos, M. A. S. C. dos, 2002, p. 127.

[22] Carta da CPE. Pelourinho. A pós-recuperação, 1994, p. 14.

[23] Ver Santos, Milton. O Espaço Dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: F. Alves, 1979.

[24] Sobre o tema ver também Dantas, Eustógio Wanderley Correia. Apropriação do espaço público pelo comércio ambulante: Fortaleza-Ceará-Brasil em evidência (1975 a 1995) Scripta Nova Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales. Universidad de Barcelona. Vol. IX, nº. 202. Disponível em http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-202.htm. Acesso em 16 out 2006.

[25] http://www.pelourinho.ba.gov.br/

[26] http://www.centroantigo.ba.gov.br/

Sobre Juarez Duarte Bomfim 745 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]