Cora Coralina: a mulher da casa da ponte

A frase dirigida a um jovem poeta e estudante de jornalismo partiu da escritora Cora Coralina no longínquo feriado de carnaval de… 1982?

É o ano mais provável. De todo modo, não teria como consultar, na redação, o exemplar de Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais que me foi vendido pela própria Cora na casa velha da ponte, fincada às margens do rio Vermelho, na Cidade de Goiás, desde os 1700.

Três anos depois do encontro, ela se deixaria ir, quase centenária, plena de vida e realização literária.

O objetivo da viagem a Goiás era só uma aventura com amigos, mas o jovem poeta se lembrou, em meio à balbúrdia do carnaval, que na cidade morava a escritora mencionada em artigo publicado por Carlos Drummond de Andrade no hoje lendário Caderno B do Jornal do Brasil.

Anos depois voltaria a Goiás para redescobrir Cora em seu museu, e tomaria contato com a sua atividade de cronista e contista, na qual ela supera a veia poética: transpõe para o livro todo um mundo insuspeitado de memórias próprias e histórias que remontam o tempo dos bandeirantes.

O Tesouro da Casa Velha e Estórias da Casa Velha da Ponte são dois livros extraordinários para quem quer conhecer a prosa de Cora e o universo da cultura tradicional goiana. Tudo é contado de uma maneira muito viva, cheia do entusiasmo das avós quando reúnem os netos em volta daquelas bacias de biscoitos.

Tesouros ocultos num porão, lavrados de famílias que se vão numa enchente, amores proibidos, procissões noturnas, disputas políticas, tocaias ao fiscal d’El Rey, lições à base de palmatória, labutas e rebeldias de escravos, nobres que perdem a pompa, assombrações, crianças espreitando tigelas de doce.

Toda essa relíquia, e muito mais, emana das duas obras, que podem ser adquiridas no museu – uma visita obrigatória para quem visita uma cidade que deveria obrigatoriamente ser visitada por todo brasileiro.

Cora, como diz sua filha Vicência Brêtas Tahan, autora do livro biográfico Cora Coragem Cora Poesia, foi “uma mulher à frente do seu tempo”, o que provam seu casamento, sua visão social dos mais pobres e marginalizados, e, acima de tudo sua literatura, pois fala de tudo de maneira franca, embora elegante.

O mais certo, porém seria dizer, que é mulher de todos os tempos, pois também preservava o passado contra as traças do esquecimento e vivenciava as lutas do presente com a garra de quem sabia extinta a riqueza familiar obtida nos tempos da escravidão.

Essa força e segurança de quem já vivia sem medo a fez refutar de maneira enérgica a associação que o Poeta Maior arriscara entre o seu nome-pseudônimo e o ambiente marítimo. Não. Cora Coralina referia-se ao vermelho do coração.

Sua energia era de fato a da coragem, e tinha algo da perenidade da mina que até hoje abastece a casa velha da ponte, vinda de algum ponto obscuro da serra Dourada por tubulações seculares. A bica está instalada no porão, onde muito antigamente guardavam-se mantimentos e dormiam os escravos. É o único cômodo da casa que pode ser fotografado. E da água também se pode beber.

Eu bebi.

*Com informações: Agência Senado

Redação do Jornal Grande Bahia
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