Itamar visto de perto | Por Marco Antônio Pontes

Jornal Grande Bahia, compromisso em informar.

No início dos anos 1960, este jornalista, então jovem repórter do semanário Binômio, de Juiz de Fora, foi incumbido de matéria sobre o então Departamento de Águas da cidade, em cuja direção começava a destacar-se o também jovem engenheiro Itamar Franco, então em sua primeira função pública.

O texto resultou altamente favorável, se não à prefeitura, pelo menos ao promissor gestor público que, ficou claro, iniciava grandes mudanças em setor ainda hoje relegado pelos administradores — consta que nenhum deles gosta de enterrar canos sob as ruas: passado o incômodo das obras, ninguém mais as vê…

Poucos anos depois, em 1966, Itamar disputou a prefeitura de sua cidade. Vivíamos os primórdios ainda envergonhados do autoritarismo inaugurado dois anos antes, mas os chefes militares olhavam no mínimo com reservas o demasiadamente autônomo (em relação a eles) candidato do PTB, aliás a mesma agremiação do deposto presidente João Goulart.

Pude intermediar-lhe o apoio, na difícil campanha que se iniciava, de grupos políticos semiclandestinos, perseguidos pelo regime militar. Lembro-me de reunião em que se discutiu como se daria tal participação; alguns membros do staff do candidato temiam atrair a ira da repressão, mas Itamar — que jamais foi comunista — afastou as objeções com seu jeito simples e incisivo: “Foram esses os primeiros apoiadores a me cobrar ideias e propor futuras ações políticas em vez de pedir cargos no governo. Como poderia ignorá-los?”, disse.

Desde então, participei de todas as campanhas eleitorais de Itamar Franco, a partir daquela que resultou, em 1974, no episódio que Sebastião Nery denominou, apropriadamente, de “As 16 derrotas que abalaram o Brasil” — o primeiro revés político imposto ao autoritarismo, em plena vigência do AI-5. Candidato do MDB em Minas, Itamar enfrentou e venceu a máquina avassaladora do sistema autoritário, quando outros políticos prestigiados desdenharam o que lhes pareceu aventura inconsequente — a par de arriscada.

Estive igualmente na única disputa eleitoral que perdeu, quando tentou o governo de Minas Gerais em 1986 e ficou entre as vítimas do “estelionato eleitoral” do Plano Cruzado. Assim como lhe testemunhei dois momentos de amargura política: o voluntário afastamento do governo Collor, quando percebeu que o status ético que conferira à candidatura, se foi decisivo para a vitória, já não se levava em conta no poder; e anos depois, ao deixar a Presidência, quando assistiu às tentativas de desconstruir sua obra e desmerecer seu legado.

Mas as amarguras passaram e Itamar retomou sua trajetória de estadista sem mágoas ou rancores. Se tal foi necessário para servir ao interesse nacional, ao bem estar do povo, jamais hesitou em conviver com adversários. Deixou a vida a merecer o respeito, a aprovação unânime de seus pares e da opinião pública.

*Marco Antônio Pontes é Jornalista, foi secretário do MEC no governo Itamar Franco

Sobre Redação do Jornal Grande Bahia 109913 Artigos
O Jornal Grande Bahia (JGB) é um portal de notícias com sede em Feira de Santana e abrange as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: [email protected]