Duas mágoas de Itamar | Por Maurício Corrêa

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Itamar Franco possuía uma percepção intuitiva de rara ocorrência. Quando alguma manifestação do sentido transparecia, só mais tarde é que se ia entender o seu exato significado. A visão intuitiva de prever situações ainda não concretizadas era resultado de uma constante elaboração mental sobre política. Essa elucubração não só dizia respeito aos interesses pessoais em questões políticas, como também se estendia às preocupações que o afligiam no quotidiano do poder. A própria candidatura a vice numa chapa de candidato a presidente da República em 1989, que não se acreditava ser vitoriosa, em contraposição a convites recebidos de candidaturas mais consistentes, é sintoma do atributo nele imanente. Assim se portava e as coisas davam certo. Esse mérito, ele o devia a um laborioso, intenso e exaustivo exercício de pensar sobre os rumos do que pretendia fazer. Um exercício de reflexão política que jamais contrariava a sua formação ética. Era a sua marca registrada.

O sucesso político de Itamar foi sempre construído com base numa certa premonição que o orientava. Conseguiu transformar em realidade todos os sonhos políticos consubstanciados no currículo de uma vasta vida pública. O último deles, após haver passado pela Presidência da República, pelo governo do estado de Minas e por outros tantos postos da administração pública, foi alcançado com a vitória da disputa, ainda em Minas, no ano passado, de uma vaga de senador da República. Queria encerrar a vida pública cumprindo todo o mandato senatorial, porque era nessa Casa, o Senado Federal, onde já tinha ocupado mandatos de senador, que ele se sentia mais útil ao país, sobretudo com a experiência por fim acumulada.

Durante os meses em que esteve no Senado, comportou-se com entusiasmo e determinação, como era de seu costume proceder, e se pode ver pelos pronunciamentos feitos na Casa. Nunca ouvi dele qualquer palavra que não fosse de amor ao país; nunca ouvi dele qualquer exemplo que não fosse digno de ser seguido; nunca senti nele qualquer tolerância com os que desonram os deveres de cidadão. Itamar não punha as mãos na cabeça dos que traíam e roubavam, de corruptos e desonestos. Assim sempre agiu por onde atuou como político e servidor público. Pena é que, somente agora, depois de sua morte, se tenha reconhecido a verdade sobre ele. De seu valor e de suas qualidades de cidadão, político e ser humano.

No governo de Itamar não se via superfluidade e muito menos pomposidade. As cerimônias oficiais eram simples e sem exuberância, como convinha a um presidente de vida recatada. Seus gastos pessoais se continham dentro do que percebia de subsídios e de uma pequena renda de aluguéis. Mineiro do interior, chefe de um governo sem ostentações, rapapés e afetações, pagou por isso o preço da incompreensão de boa parcela da mídia nacional. Era um homem por natureza simples. Jamais se prestou a cumprir tarefas menores. Nunca empregou parentes em órgãos do governo e não usou o cargo para fins subalternos. Limitou sempre as suas viagens nacionais e internacionais à estrita agenda oficial da Presidência, assim mesmo quando indispensáveis. Os aviões à disposição do presidente jamais foram utilizados para festas e fins de semana fora de Brasília. Foi um presidente austero e não transigia com nenhum tipo de ilícito.

Já tinha feito três experiências com ministros da Fazenda. Todos fracassaram na tentativa de adotar medidas que se mostrassem eficazes no combate à inflação. Saíram do cargo não porque foram incompetentes, mas porque não compreenderam a sua aflição em ver dominada a corrida inflacionária. Ele conhecia muito bem as experiências pretéritas de planos econômicos que não deram certo e que deixaram sequelas das quais até hoje o país paga o preço. Depois de uma noite maldormida, Itamar acordou com a ideia da nomeação de Fernando Henrique Cardoso para a pasta da Fazenda. Aguardava confiante que o convite fosse aceito, como de fato foi. A partir das primeiras medidas tomadas de combate à desordem econômica, um novo cenário se abriu para o país e se mantém hígido até hoje. Reconheça-se que tal sucesso só foi possível graças à intuição de Itamar e a sua coragem cívica.

Itamar Franco morreu com duas mágoas no coração. A primeira foi a de que a mídia somente creditava a FHC os méritos do Plano Real. Ele teria sido apenas uma figura secundária no processo. É perceptível que a indução do fato não tenha vindo a público por provocação. No seu velório no Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte, entretanto, comovido, Fernando deixou claro, numa entrevista dada à televisão, que sem Itamar não haveria Plano Real. Embora tardia, pelo menos para nós, seus amigos, a circunstância não deixa de ser confortadora. A outra mágoa foi a dos remédios genéricos. A glória deles no Brasil, se é que se pode dizer assim, não é do ministro da Saúde de Fernando, mas de Jamil Haddad, ministro de Itamar, há poucos anos falecido. Foi Jamil quem primeiro introduziu para valer os genéricos entre nós. Sofreu pressão contrária de muita gente a pedido de laboratórios. Essa queixa, sentiu-a também Itamar.

De tudo que Itamar realizou na vida pública, o que mais vale agora é o exemplo que deixou. De retidão, honestidade, honradez e de seriedade política.

*Maurício Corrêa é Advogado.

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