A internet e os indignados | Por Emiliano José

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Emiliano José da Silva Filho é um político brasileiro, além de ser jornalista, escritor e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Emiliano José: o que tem de ser apreendido é que aquelas multidões de indignados estavam propondo outra política, que a esquerda não conseguiu levar à pratica.
Emiliano José da Silva Filho é um político brasileiro, além de ser jornalista, escritor e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Emiliano José: o que tem de ser apreendido é que aquelas multidões de indignados estavam propondo outra política, que a esquerda não conseguiu levar à pratica.

A velocidade das mudanças provocadas pelo fenômeno da internet em todo o mundo é impressionante. Há uma nova sociabilidade, uma nova convivência, decorrente da existência da internet, ainda não devidamente avaliada. Com a internet, nada será como antes, e a frase terá de ser repetida incessantemente para que não se perca a noção de que a cada segundo o mundo é outro. Como sempre foi, dirão alguns. Mas, nunca como nos dias de hoje pela rapidez com que tudo que é sólido desmancha no ar.

Para além de tantos aspectos que a envolvem, a indicar uma mudança de paradigmas civilizatórios, a internet tem provocado impactos muito fortes na política. Há algum tempo se fala na insuficiência da democracia representativa, que reclamaria outros níveis de participação, diretos. Agora, no entanto, essa carência, por variadas razões, se tornou muito mais evidente, salta aos olhos, e enganam-se os que acreditam possam adiar ad infinitum a adoção de mecanismos reais voltados à democracia direta. E isso para tornar mais saudável a democracia representativa ou para estabelecer pontes entre as formas tradicionais e as de participação direta.

Esclareço que considero a fórmula partido essencial para a vida democrática. E, ao mesmo tempo, penso, os partidos, em todos os países onde vigore a democracia representativa, tem que levar em conta as novas formas de participação, especialmente da juventude, considerar o mundo em rede como um mecanismo fundamental de participação política, de intervenção política, para que não fiquem foram de sintonia em relação ao mundo real, a essa realidade.

E me referi aos países democráticos porque aqueles que vivem sob ditaduras sentem diretamente os efeitos revolucionários da internet. Ela possibilita uma articulação que antes seria muito mais difícil acontecer, e é dispensável citar os tantos exemplos em que a internet desempenhou um papel essencial, ao permitir uma articulação em rede que tem um potencial político extraordinário. Do mundo chamado virtual às praças é um pulo, e em dezenas de países, recentemente, as multidões ganharam as ruas impulsionadas pelas mensagens que circulavam pela internet, mobilizadas no interior da rede mundial.

Alguns poderão argumentar, e podem estar certos, que essas multidões na maioria das vezes não tem programa, proposta, projetos claros. Normalmente, no entanto, esse argumento é conservador. Os partidos, mesmo de esquerda, muitas vezes não conseguem responder às expectativas de seus povos e nem ser coerentes com os programas que apresentaram, e a Europa é a maior expressão disso. As multidões tem expressado sua indignação contra injustiças, a favor das liberdades, pela democracia em sentido substantivo, e isso não é pouco.

Não se pode olhar apenas o circunstancial. Dizer, por exemplo, que as multidões em Madrid não impediram a vitória da direita. O que tem de ser apreendido é que aquelas multidões de indignados estavam propondo outra política, que a esquerda não conseguiu levar à pratica. Podemos acrescentar, numa comparação, que a América Latina, hoje, com a vitória de tantos governos progressistas e com as políticas que vem adotando, tem muito mais a ensinar ao mundo do que os países mais desenvolvidos.

Isso não nos exime, no entanto, de modo nenhum, de tentar entender as mudanças que a internet provoca e a necessidade de encontrarmos mecanismos de participação direta. Recentemente, no Brasil, várias mobilizações passaram ao largo de partidos e sindicatos, e todas elas em defesa de melhores condições de salários, a favor da ética e de liberdades. E foram possibilitadas por articulações em rede, pela internet. Esses torpedos de realidade devem estimular a imaginação dos nossos partidos à esquerda.

E que todos estejamos atentos para o fato de que a internet está sob ataque, e exatamente porque é um território de liberdade, de estímulo à participação política. Querem cerceá-la, evitar que continue a ser uma alavanca de uma democracia cada vez mais participativa, instrumento da presença revigorante das multidões na cena política, de estímulo à participação da juventude nos destinos do mundo.

*Emiliano José da Silva Filho, jornalista, escritor, deputado federal (PT-BA)

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