Os pintassilgos, os cobras, o Sapo e a República das Amazonas | Por Reginaldo de Souza Silva

Numa terra não muito longe daqui, criou-se um poço fundo e escuro, onde explorava-se povos de várias etnias e culturas. Seduzidos, comprados e amordaçados outros foram levados para dentro. As pessoas nunca mais puderam sair vivendo forçadas ao trabalho e aqueles que tentavam sair ou contrariar os “donos” das terras e dos povos eram punidos e sacrificados como exemplo para os demais. Lá se casaram, tiveram filhos e multiplicaram-se. As mais velhas ainda se lembravam da beleza do seu mundo além mar e morriam de saudades. Contavam estórias para seus filhos e netos de como eram livres em suas terras, como o seu povo era maravilhoso e a língua que falavam era compreensível a todos.

No início as crianças e jovens gostavam de ouvir as “estórias dos ancestrais”, mas, como nunca estiveram do lado de fora pensavam que as memórias não passavam de invenções de seus avós. O tempo foi passando, os velhos morreram e as estórias foram esquecidas. As novas gerações educadas segundo “novos” princípios pedagógicos, o que importava era se dar bem, acreditavam que a forma de funcionar aquela terra era tudo o que poderia ser realizado. Isto fora atestado pelos “malvadezas” da época, os coronéis, os políticos, os religiosos, era cientificamente comprovado. No poço profundo, havia uma combinação perfeita do mar, da floresta e do céu, denominado multiculturalismo. Os pintassilgos aprendiam que ali era o melhor dos mundos e, na escola, aprendiam a recitar: “não verás lugar algum como este. Ama com orgulho a terra em que nasceste. Este é um país que vai pra frente, Ame-o ou Deixe-o e, a Terra de Todos OS nós…”

Naquele mundo havia pintassilgos e cobras, fortes e truculentos que mandavam nos “fracos” que tinham de obedecer e trabalhar dobrado. As frutas e alimentos mais gostosos iam para os mais fortes. Os pintassilgos oprimidos achavam que isto era uma injustiça. E, por isso, preparavam-se para uma grande revolução que poria fim a esse estado de coisas. Quando a classe dominante fosse derrubada, a vida no fundo do poço ficaria democrática e os alimentos seriam distribuídos com justiça diziam um bando de outros pássaros chamados “Trabalhadores”.

Havia ideólogos denominados “Partido dos Pássaros Trabalhadores” que entoavam canções e poesias que diziam que as terras não eram tão boas porque elas estavam dominadas pelos “cobras” fortes. Os pintassilgos começaram a dar asas a seus sonhos, ficaram curiosos e resolveram arriscar. Voaram pelas terras e entraram nas profundezas. Qual não foi a surpresa e perplexidade ao descobrir uma criatura chamada democracia e liberdade. A simples presença da democracia colocava em questão todas as teorias sobre o mundo, pois não havia registro dela nos arquivos históricos. Os “cobras” ao observarem os pintassilgos tentando conhecer a liberdade morreram de dó e para o bem de todos colocavam-os como prisioneiros naquele mundo escuro. Com a cultura dos povos que ficaram presos os “cobras” organizavam festas e até um esporte denominado futebol. Lá sim todos eram “iguais”. Jogando, dançando e ameaçando alguns.

Os pintassilgos questionavam: Viver ali dentro ou sair? Para se planejar sair é preciso acreditar que existe um mundo diferente “lá fora”, pois eram ensinados que um “lá fora” não existia. Os limites do poço eram os limites do universo. Um pintassilgo relembrou as estórias dos ancestrais e contou aos demais como era o mundo de fora. E se pôs a cantar furiosamente. Trinou voando, cantando, e seguindo a canção. Reafirmou: somos todos iguais braços dados ou não, nas escolas nas ruas, campos, construções…

O poço começou a ficar agitado, os “cobras” ficaram sabendo que um “Sapo” poderia trazer aos pintassilgos a liberdade que tanto cantavam e ansiavam. Houve uma divisão alguns acreditaram e começaram a imaginar como seria lá fora. Ficaram mais alegres e até mesmo mais bonitos. Trinaram canções novas Lua lá, nasce uma estrela…. E começaram a fazer planos para a fuga do poço. Rechaçaram as esperanças políticas antigas. Não, não queremos ficar no fundo do poço. Queremos democracia. Os outros fecharam a cara e trinaram mais forte ainda. Não acreditaram.

O pintassilgo trouxe, então, provas do que dizia. Chamou o beija-flor, os papagaios, as abelhas com mel e a turma do batuque que diziam haver um “Sapo” salvador. Convidou também aves e insetos coloridos, trouxe flores perfumadas que vieram de outras terras onde estavam exiladas. Mas tudo foi inútil para os que não queriam acreditar. Este bicho é um grande enganador. Sabemos que estas coisas não existem. Os “cobras” (generais, coronéis e empresários) ponderaram que as idéias dos exilados eram politicamente perigosas. Os pintassilgos estavam perdendo o interesse pelo trabalho. Produziam menos diminuindo os recursos para as despesas do Estado, especialmente uma ferrovia que se pretendia construir, ligando um lado do poço ao outro, um grande estádio de futebol e um sambódromo. Trabalhavam menos, trinavam mais. Claro que as palavras dos exilados só podiam ser mentiras deslavadas, intrigas de oposição.

Os revolucionários atacavam outros pássaros denominados PSDB, DEM, PMDB, PP, PTB e puseram os exilados de quarentena, pois o seu canto enfraquecia politicamente os pintassilgos dominados, que agora estavam mais interessados em sair que em revolucionar o poço. Os “cobras” apoiados pelos pintassilgos intelectuais se puseram a fazer a análise filosófica, ideológica e psicanalítica da fala dos exilados. O seu relatório foi longo. Nele concluíram que: filosoficamente, faltava rigor ao discurso do “Sapo”, afinal ele não havia concluído a educação formal, aproximando-se da retórica que da ciência; ideologicamente, tratava-se de um discurso alienado, no qual não se fazia nem mesmo uma análise crítica das condições objetivas da sociedade e do ponto de vista psicanalítico, era óbvio que o “Sapo” sofria de perigosas alucinações que, dado o seu conteúdo, poderiam se transformar num fenômeno de massas.

Observaram, finalmente, que dadas as evidências, o Sapo se constituía num grave perigo tanto para a cultura como para as instituições do mundo dos pintassilgos. E com isto pediam providências as autoridades para erradicar o mal. Mas a revoada dos pássaros aclamou o “Sapo” como o novo líder do poço e por um período de tempo parecia ter melhorado. A economia cresceu, nunca os “cobras” ganharam tanto dinheiro, o poço ficou mais conhecido nas terras além mar e para melhorar a educação dos pintassilgos foi reforçada a idéia dos “Cobras” com um programa de pássaro para pássaro denominado “Reuni”, os pintassilgos agora poderiam ter acesso aos vôos superiores em “boas” escolas mantidas pelos “cobras” e também em outras chamadas públicas mais pobrezinhas com ingresso através do engaENEM.

Nas terras da Bahia um pássaro da espécie em extinção denominado ex-sindicalista petroquímico Jaques Wagner sem escolaridade concluída resolveu copiar tudo que o “Sapo” fazia, copiou o Manifesto (decretos) dos “Cobras” seus aliados sendo acolhido unanimemente tanto pelos líderes da direita como pelos líderes da esquerda no ninho chamado ALBA pois, para além de suas discordâncias conjunturais, estava seu compromisso comum com o bem-estar e a tranquilidade da família pintassilga-neoliberal. Por ocasião da visita do único líder em ação a contrariá-los ANDES – Sindicato Nacional e Associações de Docentes das Universidades Estaduais da Bahia apresentou-lhes uma armadilha: Falsas Promessas, Acordos e Termos de Compromisso e acusados de dificultarem as melhorias para o povo. Iludidos pelas bravatas, suas idéias e bandeiras mortas foram empalhadas e expostas no Museu de História da Democracia e Liberdade na Educação de Voos Superiores.

Quanto aos pintassilgos, foram proibidos de trinar as canções que os exilados lhes ensinaram até 2013. Um aluno-pintassilgo-universitário, que lutava pela permanência estudantil de todos os pássaros visitava o museu, perguntou à sua professora: Que é aquilo, professora? É um pintassilgo-professor-universitário, ela respondeu. E que coisas estranhas são aquelas nas suas costas?, ele perguntou. São asas… E para que servem?, ele insistiu. Para voar… E nós voamos? Não, respondeu a professora. Nós não voamos. Nós pulamos e batemos palmas… E assim um pássaro da espécie em extinção denominado ex-sindicalista petroquímico Jaques Wagner continua sua devassa na Educação Superior do Estado da Bahia agora copiando as ações da “República das Amazonas”, apoiados pela UNE, UJS e PCdoB.

*Reginaldo de Souza Silva – Doutor em Educação Brasileira, professor do Departamento de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Email: [email protected]

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