Lula, Dilma, Serra, FH e outros assuntos | Por Carlos Lessa

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NA MÃO DAS CONCESSIONÁRIAS PÚBLICAS

O processo brasileiro vem sendo de uma perversidade atroz: as concessionárias públicas foram privatizadas, o estado saiu das agências reguladoras, que agem meio parecido com o Conselho Monetário Nacional. O CMN, leia-se Banco Central, define taxa de juros e taxa de câmbio, as duas variáveis mais importante da vida nacional. Até economistas bem treinados têm dificuldade de entender o que eles decidem. Mas são responsáveis pelo nosso destino, pelo meu emprego, pelo seu emprego, pelo faturamento de fulano, pela falência ou não da empresa de beltrano. Esse modelo está internalizado em todas as agencias: são teoricamente abertas à participação social e popular, mas quem tem tempo para saber o que cada uma delas faz? Eu não tenho o menor.

DESCOBRINDO O BRASIL

Fui para a faculdade. Estive com Eugênio Gudin, Roberto Campos, elite do pensamento conservador. Tinha a impressão de que não sabiam bem o que era o Brasil. Só fui conhecer Marx, e por conta própria, no terceiro ano. Ninguém havia me falado de Celso Furtado. Esbarrei numa livraria com “A formação econômica do Brasil” e tive um grande clarão. depois, Caio Prado Junior, um novo clarão. E Roberto Simonsen. Por conta própria fui descobrindo o país.

COTAS, SÓ SOCIAIS

Estão querendo naturalizar o conCeito de raça. Com as cotas a ideia de raça passa a ter valor. E se um garoto louro diz que é negro? É genético ou morfológico? São os antecedentes? O bisavô? Fotografia da tataravó? Se for pelas características, é lombrosiano. Na verdade, faço parte de um movimento contra isso. A cota tem que ser social! Quando era reitor da UFRJ peguei meu dinheiro fui na Bahia falar contra o movimento cotista. Os que são a favor me receberam e me respeitaram. Achei bacana. Minha família tem gente com cabelo pixaim, ora.

ZÉ SERRA MUDOU

Dilma foi minha aluna, e José Serra, de quem fui padrinho de casamento, tambpem. Ele diz para todo mundo que é meu discípulo. Não sei se é mesmo. O Zé que comandou a polícia para fechar a USP não é o Zé dirigente da UNE que foi pra minha casa conhecer economia. Fernando Henrique foi meu companheiro de exílio. Era o príncipe da sociologia latino-americana. Quando assumiu a presidência disse: não leiam meus livros. e disse que ia acabar com a era vargas. soube demolir, mas não construiu nada.

DILMA, MINHA ALUNA

Foi minha aluna, uma excelente aluna, e depois convivi dois anos com ela quando eu estava no BNDES e ela nas Minas e Energia. Ela é muito inteligente, extremamente bem preparada, mas curiosamente virou uma tímida, ela que foi guerrilheira. Passou a ser uma hiper-realista. Por isso é que de certa maneira ela não tem cara.

POBREZA DO DEBATE

Sempre acompanhei os debates eleitorasis. os de Serra com Dilma dois bons economistas, dois ex-alunos meus, o que disseram de besteira, besteira sem parar… “eu faço isso e aquilo” – a este papo resumiu-se o debate, sem falar no estelionato eleitoral. Um vazio total. Não havia Brasil no discurso deles..

CASAS BAHIA

Lula queria Meirelles como vice-presidente. Por quê? Porque ele atribuiu o sucesso do governo à política de estabilização de Meirelles. Na perspectiva de povão que o Lula tem, inflação é uma coisa horrorosa por causa das perdas salariais. Mas eles trocaram a inflação por juro elevado, dando uma remuneração absurda aos bancos (muito mais que FH) e transformando as empresas superavitárias em bancos também. É o caso das Casas Bahia, que sequestram o consumidor com juros extorsivos. Quando em 2003 assinou a Carta ao Povo Brasileiro, Lula renunciou ao programa de seu partido. Achei que era uma ruptura a curto prazo, mas não. reduzem endividamento e viram aplicadores financeiros. Achataram salários mais altos e mantiveram o crescimento do mínimo. Isso foi o saldo positivo, pois é o indexador de toda essa turma que ganha sem carteira assinada. Mas a classe média está sendo suprimida, e a parcela de não-salário cresce sem parar, já chega a 37%.

LULA É POVO MAS NÃO É NAÇÃO

Lula povo. Povão de um Nordeste que sobrevive. É um gênio. Extremamente inteligente. De uma rapidez de processamento impressionante. Não fosse assim, não teria se transformado no Abraham Lincoln da periferia mundial. Ele sabe o que é povo. Mas não sabe o que é nação. Como dirigente sindical negociou com filiais estrangeiras e constatou a maneira com que tratam os empregados: muito melhor do que as nacionais. Pois as estrangeiras temem os seus sindicalistas, então temeram os nossos. Ele ficou com essa noção como padrão e não percebeu que as demais relações de trabalho são canibais. Tenho impressão que ele só descobriu a ideia de nação no final do mandato, com o pré-Sal. Mas o pré sal vai se tornar o nosso Oriente Médio… Petróleo só traz infelicidade.

ANALFABETO DIGITAL

Não uso computador. Sou analfabeto digital. Mas há uma razão. Nunca tive muita habilidade manual. Outra razão: vai contra meu jeito de ser. Comecei a observar que o computador faz coisas terríveis com as pessoas. E, se faz, eu quero saber por quê. Ia acabar virando um analista de sistema velho. No computador, quando há o erro, não se explica: tem que refazer tudo. É a total submissão ao inexplicável. Tudo bem, a informática tem uma porrada de méritos. Tem uma tiragem diária na qual todo mundo é autor. É a nova enciclopédia. Restabeleceu a correspondência. Vai dividindo espaço com as mídias. Mas o hardware e o software dominam e você aceita! Isso não pode.

O JOVEM E O MEDO DE VIVER

A coisa sórdida que existe é o que se faz com a nova geração: idealiza-se que bom é ser jovem, a juventude é o máximo, e o que não é novo é anacrônico, obsoleto. E dá-lhe vitamina, ginástica, cirurgia. Acontece que jovem sabe que ser jovem é difícil para caramba. Não sabe para onde vai, de quem gosta, se é amado. Sofre o diabo. Então, diante do novo paradigma de que tudo é a juventude, ele pensa: isto é o melhor que me espera? Então eu tenho medo de viver. É isso. A geração passada tinha medo de morrer, a atual tem de viver. De envelhecer. É das coisas mais cruéis que aconteceram na modernidade. Desqualificou-se o que é velho e o processo de envelhecimento. Gerou na terceira idade um sentimento de desvalorização colossal. E da juventude, roubou as noção do processo e das etapas da vida, cada uma com suas vantagens e desvantagens

DR ULYSSES E O CAOS INSTITUCIONAL

Doutor Ulysses achou que a nova Constituição tinha defeitos fundamentais. O judiciário se autorregulando, por exemplo. Numa democracia nenhum poder pode se autorregular. Ele disse que puseram na constituição carreiras, com defesa do formado em Direito. Você não consegue fazer nada se não tiver contratado uma advogado. Dizia: precisa reformar o Judiciário. Eu disse: não faça isso. Ele insistiu e o que aconteceu? Depredaram a Constituição que ele legou, nem existe, nem sei mais o que é. O Brasil vive o caos institucional. uma infinidade de emendas, e MPs, sem uma nova Constituição de verdade.

DEMOCRACIA TEM QUE SER DE CORAÇÃO

O autoritarismo brasileiro tem raízes muito antigas. Uma sociedade escravocrata tem dificuldades de entender a ideia de direito, dever e obrigação. A essência da democracia: cada direito gera a obrigação de respeitar os outros e seguir o que é o direito. A Europa tem isso porque tem uma tradição antiga nas aldeias da construção de células democráticas. O Brasil não tem essa vivência. Como professor fazia uma dramatização: quando o cara jogava um papel no chão, me agachava, recolhia, amassava e jogava na cesta de lixo. Voltava para turma, mudava o tema da aula e tratava do que chamava de complexo de sinhozino e sinhazinha. Por que você joga? Porque sabe que alguém mais humilde vai recolher. Vamos chegar numa matriz democrática por um processo muito penoso. A democracia tem que estar no coração da pessoa.

*Carlos Lessa, um dos economistas mais respeitados do Brasil.

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