Em Feira de Santana, autoridades e profissionais de saúde discutem assistência obstétrica

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A Câmara Municipal de Feira de Santana, nesta sexta-feira (17), em audiência pública, discutiu a humanização da assistência obstétrica no município, atendendo ao ofício de autoria da Comissão de Educação, Saúde, Cultura e Desporto da Casa Legislativa. O evento foi conduzido pelo presidente da referida Comissão, vereador Ailton Araújo Rios – Mô (PSDB), que compôs a mesa juntamente com Gilberto Campos Ferreira, coordenador obstétrico do Hospital Mater Day; Luciane Alves Ribeiro, enfermeira da Fundação Hospitalar e Ana Souza Lima Moraes, enfermeira obstétrica do Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA).

Ailton Mô, após saudar os presentes, disse que o que motivou a realização da audiência pública foram as constantes denúncias da população quanto ao atendimento prestado na rede pública de saúde, em Feira de Santana, e a constatação da Comissão de Saúde, in loco, dos problemas, dentre eles: grande demanda de pacientes; registro de partos em locais inadequados; falta de médicos e de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal.

“Será que o Tribunal de Contas do Município não poderia estar agindo de uma forma mais enérgica? Porque a gente sabe que a verba da saúde chega para a cidade”, questionou. Para Ailton Mô, o debate, na Câmara, tem como objetivo principal nortear propostas para que as pessoas tenham um tratamento humano e igualitário no sistema público de saúde.

Na concepção do vereador, o Estado, em parceria com o Município, precisa oferecer com urgência uma condição melhor aos pacientes. Na oportunidade, ele cobrou mais UTIs neonatais para os hospitais públicos e declarou que é preciso as ações não fiquem somente no campo das idéias. “Que as soluções sejam realmente reais, para que possamos colocar em prática uma condição mais humana que atenda as pessoas que necessitam de assistência hospitalar”.

Além do vereador do PSDB e dos profissionais de saúde que fizeram parte da Mesa, debateram ainda o tema da audiência pública Rita Cristina Carvalho Rios, coordenadora do Programa de Assistência Integrada da Saúde da Mulher, e os vereadores José Carneiro (PDT), Angelo Almeida (PT).

“É necessário investimentos e educação para a humanização da assistência obstétrica”, afirma coordenador de hospital

Gilberto Campos Ferreira, coordenador obstétrico do Hospital Mater Day iniciou sua explanação na audiência pública, realizada na Câmara Municipal, sobre humanização da assistência obstétrica, chamando a atenção dos órgãos competentes para a necessidade de investimentos em municípios de cidades circunvizinhas, sobretudo para amenizar o problema da demanda de pacientes nas unidades de saúde de Feira de Santana.

“Se você for observar a quantidade de pessoas atendidas no Hospital da Mulher e no Hospital Mater Day, talvez sejam 50% ou mais de pacientes de outros lugares, e não de Feira. E quando a população feirense procura o atendimento não há vaga. Esse é o grande problema”, afirmou.

No tocante a humanização da assistência obstétrica, o palestrante salientou que esta prática começa a partir da educação. “Quando a mulher tem escolaridade, quando ela tem condição de ver e estudar o que vai acontecer com o corpo dela durante o período da gravidez e do parto. Coisa que não está acontecendo nos pré-natais feitos em Feira de Santana. Quando a paciente não é orientada – não recebe uma aula sobre o que é o mecanismo do parto, sobre a fisiologia das mudanças que vão ocorrer em toda transformação física dela por causa das mudanças hormonais – fica perdida, tudo para ela é novo”, disse.

O coordenador obstétrico do Hospital Mater Day acrescentou que algumas mulheres que têm um bom nível de escolaridade buscam informações na internet. “Por sua vez, as outras chegam às unidades de saúde totalmente desorientadas, inquietas, agredindo os funcionários e a todas as pessoas que estão perto dela. Isso tudo é em virtude da ausência de pré-natal”, afirmou, ressaltando que em Feira de Santana é altíssima a incidência de pré-eclâmpsia (condição específica da gestação que envolve a falência de diversos órgãos e está associada à hipertensão e proteinúria). De acordo com ele, um pré-natal bem feito corresponde a um parto tranqüilo.

Enfermeira apresenta projeto para qualificar atendimento obstétrico em Feira

Luciane Alves Ribeiro, enfermeira da Fundação Hospitalar de Feira de Santana, declarou, na Casa da Cidadania, em audiência pública sobre humanização da assistência obstétrica, que está encontrando total apoio da gestão atual na formulação e implantação de projetos visando assegurar a clientela que procura uma melhor assistência obstétrica em consonância com os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS).

Ela informou que a Política Nacional de Humanização (PNH) foi criada como fruto de debates entre técnicos, gestores e profissionais de saúde comprometidos em fazer com que avancem os princípios do SUS, como acesso universal, a integralidade da atenção e equidade na gestão, tudo de acordo com a necessidade da população brasileira. Conforme a enfermeira, o acolhimento é considerado como uma das diretrizes de maior relevância da PNH. Luciane citou como exemplo, o Projeto Cegonha, do governo Federal.

“O acolhimento define-se como um modo de operar os processos de trabalho em saúde de forma a atender a todos que procuram os serviços de saúde, ouvindo seus pedidos e assumindo no serviço uma postura capaz de acolher, escutar e pactuar respostas mais adequadas aos usuários”, disse a palestrante.

A profissional de saúde salientou que dentro da PNH existe a Política de Humanização do Parto e Nascimento que, segundo ela, foi instituída como uma plataforma de governo para diminuir e minimizar as mortes maternas e neonatais.

Luciane apresentou como proposta para melhorar a situação da saúde, em Feira de Santana, o Acolhimento com Classificação de Risco (ACCR), dispositivo técnico assistencial que permite concretizar o principio da equidade, pois possibilita a identificação das prioridades para atendimento, ou seja, atender segundo a necessidade de saúde / gravidade / risco ou vulnerabilidade de cada usuário.

A profissional de saúde frisou que o Hospital da Mulher começou a pensar na questão do ACCR porque precisa resolver o número de gestantes no corredor aguardando atendimento; os períodos de espera; evitar internação sem ter vagas no centro obstétrico; evitar complicações obstétricas e neonatais; e oferecer uma integração ao ensino e serviço.

Luciane também destacou os possíveis benefícios com o ACCR. Para as pacientes: “diminuição do tempo de espera para os casos agudos e os que demandam urgência; informação sobre o tempo de espera aos usuários e familiares; melhoria da qualidade da assistência prestada; alto índice de resolutividade das necessidades; co-gestão do cuidado; alto índice de resolutividade das necessidades”.

No tocante aos profissionais: “melhoria da eficácia e efetividade do serviço; otimização e valorização do trabalho e trabalhador da saúde; melhor relação entre a equipe multiprofissional; aumento do grau de satisfação dos profissionais de saúde; fortalecimento do vínculo entre profissionais e pacientes”.

Com relação à instituição: “aumento da credibilidade da instituição; melhoria na qualidade do atendimento e na eficácia do serviço; co-gestão do cuidado; otimização de custos de internamentos e procedimentos desnecessários; qualificação da equipe para o atendimento”.

Profissional de Saúde afirma que, apesar dos avanços, hospitais públicos de Feira não têm condições de atender a região

“Fico aqui inquieta quando se fala de mulher. Fico inquieta quando se fala em humanização que deveria ser de praxe. Falar não, praticar a humanização. Seria um processo natural nas relações de pessoa a pessoa. Seria um processo natural quando o médico, o enfermeiro se propõe a trabalhar na área de saúde, que não é apenas uma profissão, é mais do que isso, é um compromisso com o ser humano”, afirmou Ana Souza Lima Moraes, enfermeira obstétrica do Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA), na audiência pública sobre humanização da assistência obstétrica em Feira de Santana, realizada na Câmara.

Ela enfatizou que ser profissional na área de saúde “não perpassa apenas pelos conhecimentos científicos e laboratórios de pesquisas. Não passa apenas pelas nossas propostas políticas, mas especialmente pelo compromisso com o outro”, disse a palestrante. Sobre o HGCA, a enfermeira ressaltou que a unidade é um hospital geral e, por conta disso, parece deixar transparecer que a assistência à mulher fica um pouco em segundo plano. Segundo Ana Souza, a instituição está participando de todo o processo de atenção à mulher.

“Isso que nós estamos vendo hoje está melhorando bastante por causa das políticas públicas sazonais. O Sistema Único de Saúde está melhorando. Os leitos de obstetrícia cresceram. O compromisso está tamanho que nós estamos aqui debatendo, então vamos valorizar o que temos. Se formos falar das políticas públicas de assistência à mulher, nacionalmente e no município de Feira de Santana, veremos que houve avanços significativos. Quantas unidades temos aqui? A qualidade precisa melhorar? – Precisa, mas vamos reconhecer o caminho que nós já percorremos”, disse.

A representante do HGCA acrescentou: “os leitos ainda são poucos? – Sim. A nossa capacidade é menor do que a nossa necessidade? – É sim. Quero indagar a vocês. Como que Feira de Santana pode atender a macro região com três ou quatro maternidades? Como é que o Hospital Geral Clériston Andrade e o Hospital da Mulher, que são a única referência de alta complexidade podem atender a macro região quando o parto especialmente normal poderia ser competência do município vizinho?”, questionou.

Ana Souza disse ainda: “até que ponto as autoridades desses municípios estão assumindo o seu papel social junto às políticas públicas de saúde? Será que nas cidades vizinhas com a criação de um sistema assistencial num processo pré-natal de baixa complexidade não resolveria nosso problema?”.

No que tange a formação, a profissional de saúde afirmou que o HGCA vem assumindo a responsabilidade da base educacional. Conforme a enfermeira, o banco de leite do Hospital Clériston foi o primeiro do estado da Bahia. “Fez um trabalho com escola pública, onde se trabalhou um pouco a questão da amamentação na base. Por que não continuou? – Não teve apóio. Não é prioridade a educação? Por que não tem nas escolas uma área que trate da educação e saúde? Será que isso não melhoraria o índice de gravidez na adolescência que ocorre em alto índice em nosso país? Será que isso não diminuiria, a médio e longo prazo, as filas nas portas das maternidades?”.

Ainda com relação a avanços, a palestrante informou que o Clériston dispõe hoje de neonatologia, ramo da Pediatria que se ocupa das crianças desde o nascimento até 28 dias de idade (quando as crianças deixam de ser nomeadas recém-nascidas e passam ser lactentes).

Sobre a audiência pública, Ana Souza salientou que em 32 anos de profissão é a primeira vez que discute a humanização da assistência obstétrica em Feira de Santana. “É a primeira vez a gente fala de um assunto de alta importância como este. É a primeira vez que vocês se lembram de que uma mulher grávida é uma pessoa especial. E nós precisamos lembrar isto não apenas como uma questão política, mas como uma questão humanística”, observa.

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