Em entrevista, secretário da Saúde de Feira de Santana Getúlio Barbosa descarta apoio ao filho do radialista Dilton Coutinho e diz que eleitor deve avaliar trajetória do candidato

Getúlio da Silva Barbos, secretário da Saúde de Feira de Santana.Getúlio da Silva Barbos, secretário da Saúde de Feira de Santana.
Getúlio da Silva Barbos, secretário da Saúde de Feira de Santana.

Getúlio da Silva Barbos, secretário da Saúde de Feira de Santana.

O secretário da Saúde de Feira de Santana, Getúlio da Silva Barbosa, expõe na segunda parte da entrevista, aspectos da política local. Ele avalia que os filhos do radialista Dilton Coutinho devem consolidar uma carreira profissional antes de pensarem em ingressar na vida política. Reconhece que o modelo de saúde que privilegia os exames e não a prevenção é equivocado. Outro aspecto que merece atenção é a necessidade de construção de um hospital geral de grande porte. “Os hospitais que existem no município encontram-se lotados de paciente.”, reconhece Getúlio.

Jornal Grande Bahia – Como anda o processo de digitalização dos postos de saúde?

Getúlio Barbosa – A digitalização está avançando em algumas unidades. Na Queimadinha não tinha [Sistema Saúde Digital], nós implantamos, no Viveiros nós implantamos. Isto gera economia e menos burocracia. A pessoa pode marcar a consulta de retorno no próprio posto. No momento em que concluir a consulta médico.

Também buscamos requalificar a Central de Regulação. Nós selecionamos o pessoal e treinamos. Posso dizer que hoje são pessoas que não tem vinculo com vereadores. O único vinculo é servir bem a população.

JGB – O vereador Marialvo Barreto apresentou denúncias de que a vereadora Cíntia Machado estaria de posse de vias de internação. Essas questões com relação a pessoas externas influenciando na estrutura dos profissionais que trabalham na área de saúde é recorrente no Brasil. Como o senhor avalia isto?

Getúlio Barbosa – Quanto a denuncia do vereador Marialvo eu não tenho conhecimento. Mas se ele fez, ele não levou até a secretaria. Se levasse, nós daríamos início a uma sindicância interna para apurar os fatos. Qualquer pessoa pode chegar até secretaria, ou nos procurar no gabinete, que a gente recebe a denúncia e abre a sindicância.

Mas, em questão á vereadora, o vereador Marialvo não nos procurou nem nos mandou prova nenhuma de que isso estava ocorrendo. Então, eu não posso ficar aqui julgando se houve ou se não houve, por que eu estaria sendo leviano. Eu acho que eu tenho que julgar em cima de fatos, em cima de provas. É isso que é importante.

Ninguém toma conta de uma secretaria que tem um orçamento maior, acredito que de mais de 100 cidades na Bahia. Com um contingente de trabalhadores maior do que a população de algumas cidades baianas. Então, a gente não pode ficar sabendo 100% de tudo. Precisamos da informação. E por isso que contamos com setores organizados da cidade, e principalmente, da imprensa, que é uma das vozes da comunidade nos seus reclames.

JGB – Essa questão das guias de atendimento o senhor recebeu em um passado recente ou tem recebido reclamações com relação a isso. Existe alguma possibilidade de burlar o sistema?

Getúlio Barbosa – Hoje não. Hoje o sistema é totalmente fechado. Até o momento não se tem mais notícias sobre isto, nem verificamos reclamações. Mas nada é infalível. Se acontecer a gente quer saber. Para descobrir onde estamos pecando. Porque lidamos com seres humanos e sabemos da fraqueza das pessoas.

JGB – O senhor ao lado do prefeito Tarcízio Pimenta, anunciaram investimentos no Hospital da Mulher. Por que até hoje o município não tem um Hospital para atendimentos gerais, embora a saúde em Feira de Santana seja plena?

Getúlio Barbosa – Nós estamos num sistema pleno. Nós e que administramos. E somos responsáveis por todo o dinheiro que cabe ao município, e também a contra partida. Hoje para você ter uma ideia, a prefeitura coloca cerca de 28% de recursos financeiros oriundos do tesouro municipal na saúde. O que preconiza a lei é 15% e nós colocamos 28%. Algo em torno de R$ 4 milhões, além da verba que vem do SUS [Sistema único de Saúde],

Quanto a construção de um hospital municipal. Nós temos o Hospital da Criança anexo ao Hospital da Mulher e temos o próprio Hospital da Mulher. Criar um hospital municipal teria que ter um montante de dinheiro para construir e um montante para equipar, por que não adianta construir e não equipar. Lamentavelmente os recursos que vem para Feira de Santana não são suficientes para fazer um investimento nesse nível.

JGB – O senhor é médico e conhece bem a rede hospitalar que atende Feira de Santana. O senhor acredita que essa rede atende bem ao cidadão de uma cidade com cerca 550 mil habitantes?

Getúlio Barbosa – Não! Seria leviano de minha parte dizer que atende. Temos o Hospital Dom Pedro, que é um hospital filantrópico, que nós estamos tentando ajudar, ao lado da Secretaria de Saúde do Estado e do Governo Federal. Buscamos ampliar a capacidade de atendimento do Hospital Dom Pedro.

Temos o setor privado que cobre mais a parte de convênios e o setor público que conta com: Hospital da Mulher, Hospital da Criança do Município, o Hospital da Criança do Estado, Hospital Geral Clériston Andrade e o Hospital Colônia Lopes Rodrigues. O Hospital Geral do Estado, Clériston Andrade, tem que frequentemente sido ampliando. Porque ele recebe uma carga que não é só de Feira de Santana, mas uma carga de toda a região que compõem a 2ª DIRES, com seus 27 municípios.

Eu acho que Feira está precisando sim. De um novo hospital geral em outra região de Feira de Santana. Mas isso tem que partir de quem tem poder aquisitivo maior. Eu acho que o Governo Federal junto com o Governo Estadual é que teria de ofertar um novo hospital estadual. O município não tem essa capacidade de investimento.

JGB – Parece que o gasto com exames laboratoriais, tem representado um volume muito elevado de recursos financeiros. Enquanto o tratamento efetivamente tem sido deixado um pouco de lado, ou seja, parte considerável do orçamento tem sido drenado na direção de se promover, de se aplicar exames laboratoriais, exames radiológicos e tomográficos. Enquanto que o tratamento clínico, com médicos atendendo o paciente, ou enfermeiro aplicando medicamento, não tem recebido recursos adequados. Esse modelo não precisa ser repensado secretário?

Getúlio Barbosa – Isso precisa ser repensado a nível nacional. Isso já é uma cultura da medicina brasileira. Hoje temos uma cultura mais curativa do que preventiva. Eu acho que as escolas de medicina tem que mudar o seu currículo, para que formem mais generalista, mais médicos voltados para o programa de saúde da família, porque infelizmente, nós temos o programa da saúde da família que é ideal, mas ainda não temos no mercado, profissionais especializados em medicina da saúde da família. Ainda contratamos pessoas especialistas para fazer esse trabalho. E persiste a cultura de pedir muito exames.

O Ministério da Saúde está tentando mudar essa visão para se possa economizar muito nos exames. Eu reconheço esta dificuldade. Mas, se um profissional, um colega, pedi um exame a gente não tem, eticamente, como dizer que aquele exame não será feito. Porque estariamos infringindo o código de ética médica.

JGB – Em entrevista ao nosso Jornal, o senhor comentou que não mais seria candidato a vereador. Que este seria o seu último mandato com vereador. Nos bastidores, comenta-se que o senhor estaria apoiando o filho do radialista Dilton Coutinho. E que ele deve lançar-se ao cargo de vereador. O que há de veracidade nisso?

Getúlio Barbosa – A veracidade é que eu não sou candidato a vereador. Essa é uma coisa que eu já falei publicamente a mais de um ano e meio. Para quem chegar agora não dizer que foi por isso ou por aquilo. E sobre a questão do filho do meu amigo e radialista Dilton Coutinho, não há veracidade nenhuma, apenas é brincadeira de alguns amigos.

Os meninos estão estudando. Sempre digo que são muito novos para entrar na política. Tem que se formar, terminar a faculdade. Ter um tempo de trabalho, para estabilizado profissionalmente e financeiramente, se for o desejo, entrar na política. Para que não faça da política um meio de vida. É o conselho que dou a eles, e garanto que nenhum dos dois serão candidatos.

JGB – O senhor sempre teve uma boa votação em Feira de Santana. Tem aquilo que se chama de capital político considerável. Pretende apenas sair sem apoiar um nome que dê continuidade, ou que possa representar os eleitores que sempre viram no senhor uma pessoa que os pudesse representar?

Getúlio Barbosa – Se no período da eleição eu ainda estiver como secretário, eu não posso apoiar ninguém, não posso transferir voto para ninguém, por que eu estarei sendo parcial, num cargo que eu devo ser imparcial. Não fica bem eticamente.

Se eu não for secretário e estiver como vereador, eu posso apoiar alguns amigos que me pedirem. Indicar pessoas que eles devem procurar que são amigos. Agora, fazer campanha corpo a corpo para vereador, não irei fazer.

Porque é um trabalho cansativo. Sei que transferir voto é uma das coisas difícil. Se eu for procurado por algum eleitor, e ele me perguntarem em que candidato deve votar? Eu vou mandar olhar a trajetória dos vereadores na câmara municipal, para que eles façam a escolha. Verificar o comportamento, a condução que esses vereadores tiverem. Porque não adianta você votar em uma pessoa que faz besteira na Câmara. Enfiando goela abaixo no eleitor. Eu acho que o eleitor merece respeito e deve escolher aquele que ele considera preparado.

Getúlio Barbosa: temos uma cultura mais curativa do que preventiva. Eu acho que as escolas de medicina tem que mudar o seu currículo, para que formem mais generalista, mais médicos voltados para o programa de saúde da família.

Getúlio Barbosa: temos uma cultura mais curativa do que preventiva. Eu acho que as escolas de medicina tem que mudar o seu currículo, para que formem mais generalista, mais médicos voltados para o programa de saúde da família.

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About the Author

Carlos Augusto
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).