Pós-Doutor, Amílcar Baiardi fala sobre os desafios ao implantar o Mestrado em Ciências Sociais no recôncavo baiano

Pós-Doutor, Amílcar Baiardi.Pós-Doutor, Amílcar Baiardi.
Pós-Doutor, Amílcar Baiardi.

Pós-Doutor, Amílcar Baiardi.

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia (JGB) volta a entrevistar com exclusividade o professor doutor Amílcar Baiardi (70 anos), na Fundação Hansen Bahia, em Cachoeira. Ele é pós-doutor na área de política de ciência e tecnologia no IMSS (Firenze, Itália), professor da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), conta com mais de 300 publicações científicas e coordena o Mestrado em Ciências Sociais da UFRB.

No terceiro bloco de entrevista, Baiardi traz um breve perfil, fala da implantação do mestrado de Ciências Sociais que coordenou na UFRB e avalia a importância e o papel social dos cientistas sociais: “o papel do cientista social não é exclusivamente fazer crítica. É fazer crítica e também tentar fazer aquilo que na teoria social se chama de ação social, promover a integração de comunidades existentes, fortalecer o senso de pertencimento porque tudo isso é fundamental para o progresso, para o surgimento de novos negócios”.

Jornal Grande Bahia  – Fale-nos um pouco sobre você e o trabalho que conduz no mestrado?

Amílcar Baiardi – A rigor, eu coordeno o programa de pós-graduação de mestrado strictu senso nesse momento aqui em Cachoeira. Mas, tenho uma experiência acadêmica e universitária mais ampla. Eu ingresso na carreira universitária na década de 1970, dois anos depois de haver concluído o meu doutorado em São Paulo, na Universidade de Campinas (UNICAMP), sendo aí que ingresso na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Tenho tido atuação em mais de um centro da própria UFBA e com a criação da UFRB fiz a opção de permanecer nela, pois eu tinha um vínculo com a Escola de Agronomia, que era em Cruz das Almas. Então, esse é o resultado de minha presença, agora, a frente do mestrado de Ciências Sociais, Cultura, Desigualdade e Desenvolvimento.

Com relação ao meu passado antes da universidade eu sempre fui pesquisador como profissão. Minha graduação foi em Agronomia nos anos 1960, mas dentro do curso de Agronomia comecei a interessar-me por Ciências Sociais aplicadas à agricultura e fui pesquisador do Ministério da Agricultura, do CEADE em São Paulo, da Universidade de São Paulo (USP). Na minha trajetória de pesquisador sempre privilegiei o desenvolvimento rural, desigualdade social, economia da tecnologia e também, mais recentemente, me interessei por história econômica.

JGB – Como é o desafio de conduzir um mestrado na cidade de Cachoeira, interior da Bahia?

Amílcar Baiardi – Na realidade esse é o papel da universidade. É ser crítica, questionadora e também ser um centro de geração de conhecimento ao lado da formação. Eu me sinto muito a vontade, pois eu fiz uma opção clara. Embora pudesse me dedicar a outros ramos das ciências agrárias, preferi me dedicar às ciências sociais aplicadas à agricultura, economia rural, sociologia rural. Minha vinculação vem desde esse ponto.

Eu e meus colegas nos empenhamos muito para que os nossos formandos tenham uma boa formação acadêmica. Essa formação pode ser dirigida para criticar, identificar problemas sociais na sociedade, como também ser dirigida para criar empreendimentos solidários, fortalecer o capital social, ou seja, o papel do cientista social não é exclusivamente fazer crítica.

É fazer crítica e também tentar fazer aquilo que na teoria social se chama de ação social, promover a integração de comunidades existentes, fortalecer o senso de pertencimento porque tudo isso é fundamental para o progresso, para o surgimento de novos negócios, principalmente, negócios mais solidários, mais cooperativos, mas também para que a comunidade se sinta integrada a uma determinada cultura ou como parte de uma cultura, de uma história.

Isso ajuda muito nas relações sociais e também nas relações empresariais é o eu nós chamamos nas ciências sociais de desenvolvimento da confiança, ou seja, quando dentro de uma comunidade existe bastante confiança os negócios acontecem com uma velocidade muito maior e as pessoas são mais propensas a investir, correr riscos dentro dessa comunidade.

O papel do cientista social é este. Ele não está somente procurando criticar, identificar. Os diagnósticos são importantes porque são a partir deles os políticos fazem projetos de lei, o estado elabora programas, mas nós também temos um grande papel no sentido de dinamizar o tecido social. Essa é a ação mais clara: dinamizar o tecido social para que o tecido social acompanhe o tecido produtivo.

JGB – Você teve algum tipo de dificuldade para contatar os professores que estão lecionando no mestrado? E quanto à seleção e formação dos alunos como foi?

Amílcar Baiardi – A UFRB é uma universidade nova. Não obstante, mesmo sendo nova ela poderia ter sido criada em melhores bases. Ela não foi criada em bases boas. Isso por quê? Porque a cultura predominante à criação da UFRB foi de graduação. Estimular o surgimento de novos cursos. Por esse motivo a universidade não absorveu professores em número suficiente para organizar a pós-graduação. A CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) é muito exigente com relação à pós-graduação, que só pode ser constituída por professores doutores e, mesmo assim doutores com muita produção científica.

Então, foi muito difícil criar esse curso na área de Ciências Sociais. Tivemos que reunir professores de História, Economia, Ciências Sociais e outros professores que, como eu, transitam por essas áreas para que assim, formássemos um grupo hardcore e a partir daí encaminhássemos a proposta, que por sorte, foi aprovada.

De lá para cá, estamos querendo ampliar na perspectiva de se implantar o doutorado na UFRB. Estamos encontrando dificuldades enormes, principalmente, encontrarmos pessoas com esse perfil. Se para o mestrado oito professores foram suficientes, para o doutorado precisamos de pelo menos quatorze, sendo que não temos na universidade. Estamos tentando atrair professores de fora que se interessam por também participar dessa pós-graduação.

A pós-graduação é aberta à participação de professores de outras universidades. Lamentamos muito que a UFRB na área de pesquisa e pós-graduação ela não tem sido uma universidade bem avaliada, não é uma universidade que se empenhe para crescer nessas áreas. Ela tem se interessado basicamente pela graduação o que é muito ruim porque uma universidade pública se diferencia de uma faculdade privada pela pesquisa de boa qualidade e também pós-graduação de qualidade.

Aqui temos muitas dificuldades. Dificuldades de materiais, de capital humano para esses programas. Quanto aos alunos, para a minha surpresa, eles respondido muito bem. Nós temos alunos de várias origens geográficas pessoas que vêm desde o Ceará ao Rio Grande do Sul, sendo elas atraídas pelo nosso programa.

O nosso programa, talvez, tenha um apelo porque ele está numa região onde os estudos socioeconômicos e socioambientais tem material como objeto para serem estudos. Isso provavelmente exerceu uma influência dos alunos que vieram para cá.

Estamos sendo avaliados, essa será a primeira avaliação da CAPES e esperamos que no fim do ano, com a entrega do segundo relatório de avaliação tenhamos a oportunidade de fazer uma proposta de criação do doutorado em Ciências Sociais, Cultura, Desigualdade e Desenvolvimento.

JGB – Como o senhor avalia a produção científica do Brasil, na atualidade?

Amílcar Baiardi – Nós temos o Brasil, hoje, se destacando na área de biotecnologia, ciências agrárias e, principalmente, de saúde. Essas são as áreas que os indicadores internacionais mostram que o Brasil tem evoluído.

O Brasil, desde meados de 1990, começou o programa de expansão da pós-graduação, sendo que recentemente houve um programa de criação de universidades novas. Porém, quando Paulo Renato foi Ministro da Educação, no governo de Fernando Henrique Cardoso, ele se empenhou muito para expandir a pós-graduação no Brasil.

Hoje, a pós-graduação corresponde a uma parcela considerável da produção cientifica brasileira. Esse empenho do MEC em ampliar e melhorar a qualidade da pós-graduação repercutiu na produção científica.

O Brasil, hoje, responde aproximadamente por 1,7% da produção científica mundial, sendo esse número alcançado pelo número de artigos publicados em revistas indexadas. O Brasil melhorou e espero que ele continue melhorando.

O problema dessa produção, que não é pequena, é que a ela não corresponde uma transferência de conhecimento para a sociedade, nem para o setor produtivo. Se nós somos 1,7 em produção científica, somos -0,30 em produção de patentes. E as gerações de patentes são essenciais.

Se quisermos uma explicação para a transformação recente da China e para a perspectiva da China rapidamente se transformar na maior economia mundial isso em grande parte se deve a capacidade chinesa de gerar patentes.

Para chegar aí, eles obviamente copiaram muito, investiram bastante no que se chama engenharia reversa. Mas, atualmente, eles estão preocupados para que os produtos que venham da China não sejam somente made in China, sejam também created in China, porque a exemplo tem-se o Ipod que hoje possui essa informação: feito na China e criado na Califórnia. Mas, num futuro bem próximo, a grande maioria dos bens do setor industrial estarão também sendo criados na China e isso em grande medida se deve a capacidade chinesa de criar patentes.

Esse é o problema do Brasil. O governo recentemente tentou criar um programa de institutos nacionais de ciência e tecnologia. No entanto, institutos não são prédios novos, eles surgem da agregação de comunidades de pesquisadores que estejam em universidades e centros de pesquisas e esses institutos nacionais de ciência e tecnologia têm uma preocupação maior em ligar a geração do conhecimento com a transferência do conhecimento.

Essa transferência de conhecimento refere-se a um conhecimento de utilidade, ou seja, novas formas de produzir produtos novos e também novas formas nos organizarmos na gestão pública e governança mais geral que favoreça ao desenvolvimento.

JGB – Algumas vezes ouvimos nos noticiários que cientistas brasileiros terminam indo patentear os seus produtos nos EUA. Existe algum problema na legislação brasileira no que refere-se às patentes ou há uma falta de respeito a produção intelectual no país no que concerne a remuneração dessa produção?

Amílcar Baiardi – Eu não diria isso. Na realidade, esses cientistas buscaram maior visibilidade, pois uma patente feita nos Estados Unidos ou no Japão tem uma visibilidade muito maior em comparação com o Brasil e também impede que alguém faça isso lá fora.

Registrando uma patente, exclusivamente, no Brasil o pesquisador defende o seu produto intelectual aqui, mas não defende lá fora. Então, alguém pode ter notícia ou fazer aquilo que se chama de pirataria da sua pesquisa e ir lá para fora os produtos ou processos que porventura foram produzidos no Brasil, sendo que o pesquisador não tem como se defender na medida em que apenas patenteia o produto no Brasil. Por isso se busca patente no exterior.

JGB – O governo brasileiro facilita para os pesquisadores a possibilidade de patentear as pesquisas fora do país?

Amílcar Baiardi – Não. O governo facilita mais o patenteamento interno. Isso porque as instituições tem interesse nessas patentes porque elas ganham com isso. Então, eu diria que a FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos) e o Ministério de Ciência e Tecnologia criam estímulos para patenteamentos. Lá fora é um patenteamento muito mais caro. Então, seria necessário percorrer uma série de etapas, mostrando a importância do produto dentre outros aspectos.

JGB – Estando há muito tempo na academia o senhor se sente gratificado enquanto professor?

Amílcar Baiardi – Sinto. E diria que se estivesse que escolher outra profissão ou se me fosse dado à possibilidade de escolher outra profissão escolheria a profissão de professor. Isso me lembra Friedrich Nietzsche. Ele quando já estava morrendo, morava em Turim, na Itália, ele teve a preocupação de escrever para o reitor da universidade alemã agradecendo pela oportunidade que esse reitor tinha dado dele ser professor dessa universidade.

Nietzsche dizia que a coisa mais importante que aconteceu na vida dele foi ser professor universitário e se perguntasse a ele: Nietzsche você prefere ser Deus ou professor universitário? Ele respondeu que não hesitaria em ser professor universitário porque Deus, se é que existe, na fase da criação Ele exercitou um pouco a imaginação e depois foi só monotonia, sendo que como professor universitário nunca tive um momento só de monotonia. Eu me sinto mais ou menos assim.

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About the Author

Carlos Augusto
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).