Entrevista com José e Jerônimo Moraes sobre a tradição em alfaiataria, um ofício com poucos profissionais no Brasil

José e Jerônimo Moraes. Até a década de 60 o alfaiate era muito procurado, explica José Moraes.José e Jerônimo Moraes. Até a década de 60 o alfaiate era muito procurado, explica José Moraes.
José e Jerônimo Moraes. Até a década de 60 o alfaiate era muito procurado, explica José Moraes.

José e Jerônimo Moraes. Até a década de 60 o alfaiate era muito procurado, explica José Moraes.

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia entrevista José e Jerônimo Morares, proprietários da Alfaiataria Moraes, empresa com mais de 60 anos de tradição. Concedida no dia 18 de maio de 2011, no ateliê da família (telefone para contato: (75)3482-0262 | Rua Roma nº 81, Bairro Capuchinhos) em Feira de Santana, a entrevista aborda a tradição da alfaiataria e as facilidades ao encomendar uma roupa sob medida.

JGB – Quando o senhor iniciou nessa profissão?

José Moraes – Eu iniciei aos treze anos, como aprendiz. Daí fui me interessando, decide encarar, interessado pela profissão, que é de muito gosto. Então me dediquei. Completei 64 anos de profissão.

JGB – O que mudou neste período?

José Moraes – Até a década de 60 o alfaiate era muito procurado, e com essa industrialização que entrou, principalmente no Brasil, de roupas prontas, inclusive eu fui mestre de corte lá em São Paulo, uma das maiores empresas da América Latina, chamava-se FISHER, fui cortador mestre na década de 50, nos anos de 55 a 56, e de lá para cá cada vez mais vem a falta de interesse de aprendizagem. Por outro lado temos a vantagem das roupas prontas, e a turma, infelizmente, perdeu a vaidade de andar elegante, e as roupas prontas são mais fáceis do cara chegar à loja e comprar. E uma roupa no alfaiate tem que ser no capricho, dura oito dias para ser feito com uma ou duas, ou talvez até três provas.  E a modificação é essa, vai evoluindo. Outra coisa é o poder aquisitivo do nosso povo. Ele não tem condições de se trajar com um alfaiate, por achar que a roupa fica mais cara. E tem a facilidade também do cartão, e poucos alfaiates trabalhando com cartão.

JGB – Mesmo assim, com todas essas dificuldades o senhor conseguiu manter uma clientela.

José Moraes – Isso graças ao meu interesse e capricho. Inclusive hoje meu filho, que é um dos melhores camiseiros da Bahia, me ajuda muito, por que por meio dos clientes dele eu consigo outros clientes.

JGB – Jerônimo Moraes, você iniciou seu trabalho inspirado pelo seu pai?

Jerônimo Moraes – Sim. Na época a gente sempre observava o tipo do serviço, o acabamento. Por ser uma pessoa muito exigente com a roupa que vestia. E observando aquela produção toda, resolvi costurar, isso por volta de 1975.

JGB – Qual o perfil do cliente que frequenta a Alfaiataria?

Jerônimo Moraes – O perfil de um camarada exigente, que quer algo de qualidade, tecidos bons, finos, e o acabamento que o principal. Hoje aqui no Brasil como meu pai falou, mesmo com a facilidade dessas roupas prontas, você não encontra roupas com o acabamento bem feito, só as roupas que vem do exterior, que vem dos Estados Unidos, Inglaterra, França, Itália, que chegam e a gente dá somente um ajuste. Então, a gente observa o acabamento deles. E a gente faz parecido e talvez melhor, por que fazemos uma por uma, não fazemos industrializado. Tanto que o material que a gente usa hoje aqui, nós usamos entretela alemã e australiana, agulha inglesa, tesoura inglesa e francesa. Os tecidos que a gente faz por sinal nós temos aqui super 120 que é australiano, nós temos também tecidos ingleses e trabalhamos também com fios egípcios e também com a sarja alemã.

JGB – Então, hoje o cliente que chega à alfaiataria de vocês, ele encontra um leque de opções que ele pode selecionar o tecido?

Jerônimo Moraes – Justamente. Ele encomenda aqui com a gente, e nós fazemos o pedido e confeccionamos a roupa para ele.

JGB – Quais as vantagens de ter uma roupa confeccionada sob medida?

Jerônimo Moraes – A vantagem é que fazemos o corte sobre as medidas do corpo da pessoa.  É o desenho do corpo, então, ele terá uma roupa só para ele. Não tem aquela de dizer que veste uma determinada numeração. Essa roupa é lá, mas aqui não tem números reais. A numeração é na fita. A gente tirar as medidas desenha o formado real do corpo do cliente e observa o que a pessoa quer a mais, um pouco de braço, tórax, cintura, como é o formato do corpo, e corta igual.

JGB – Quanto tempo dura para tirar as medidas, selecionar o tecido e a camisa ficar pronta?

Jerônimo Moraes – Em média 15 dias. Para terno uns 20 dias.

JGB – Vocês acreditam que hoje a empresa de vocês constitui uma grife, que quando uma pessoa veste uma roupa de você terá um diferencial?

Jerônimo Moraes – Sim acredito. E muitos clientes preferem que coloquemos nosso nome. Eu já mandei até fazer umas etiquetas que meu nome, J Moraes, que é eu e meu pai, mesma coisa. É Jerônimo Moraes e José Moraes. E estamos aguardando chegar. E realmente o pessoal pede para diferenciar. Por que é aquela coisa de qualidade, então, tem que ter um nome, mas geralmente o pessoal sabe que fomos nós quem fizemos, pelo acabamento.

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About the Author

Carlos Augusto
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).