Darcy Guimarães Ribeiro, Antropólogo das Civilizações | Por Ubiracy de Souza Braga e Lucio de Almeida Santos Rocha

Ubiracy de Souza Braga é Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), e professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
Ubiracy de Souza Braga é Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), e professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Darcy Guimarães Ribeiro, Antropólogo das Civilizações.

Ubiracy de Souza Braga*

Lucio de Almeida Santos Rocha**

Dedico à Jamile (de Salvador), Kossi ewe, Kossi orixá…

 “Termino esta minha vida exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras”.

Darcy Guimarães Ribeiro, “Prólogo”. In: Confissões. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

O antropólogo Darcy Ribeiro foi aquele que num projeto ambicioso em seus estudos de antropologia da civilização mais contribuiu, nos dias de hoje, para precisar o conceito de “processo civilizatório”. Em sua démarche intelectual transita à vontade tanto pelos caminhos ocidentais como pelas veredas do mundo tribal amazônico, ou pelos corredores de mais de dois “palácios de governo”. Seu compromisso é vital, não setorial; produz-se na cátedra, na prolongada e boa convivência com os índios, na criação de universidades, dentro e fora do Brasil, como ministro da Educação ou como chefe da Casa Civil, como preso político, nas peregrinações do exílio, e finalmente, como romancista com “Maíra”(1975) e “O Mulo”(1987) onde prepara o terreno para sua etnobiografia antevista em “Ensaios Insólitos” (1979), “Utopia Selvagem” (1982), “Testemunho” (1991) ou, como consta no Prólogo de seu derradeiro livro Confissões (1997; 585 páginas).

Notabilizou-se fundamentalmente por trabalhos desenvolvidos nas áreas de educação, sociologia e antropologia tendo sido, ao lado do amigo a quem admirava Anísio Teixeira, um dos responsáveis pela criação da Universidade de Brasília, elaborada no início dos anos sessenta, ficando também na história desta instituição por ter sido seu primeiro reitor. Também foi o idealizador da Universidade Estadual do Norte Fluminense. Publicou vários livros, vários deles sobre os povos indígenas. Mas antes lembramos que analogamente nas Confissões, Agostinho revela uma autoanálise e profunda percepção da sua própria peregrinação de graça e desejo ardente de descrever os caminhos tomados até se tornar o homem em que se edificou. Aurélio Agostinho destaca-se entre os Padres como Tomás de Aquino se destaca entre os Escolásticos.

E como Tomás de Aquino se inspira na filosofia de Aristóteles, e será o maior vulto da filosofia metafísica cristã, Agostinho inspira-se em Platão, ou melhor, no neoplatonismo. Agostinho, pela profundidade do seu sentir e pelo seu gênio compreensivo, fundiu em si mesmo o caráter especulativo da patrística grega com o caráter prático da patrística latina, ainda que os problemas que fundamentalmente o preocupam sejam sempre os problemas práticos e morais: o mal, a liberdade, a graça, a predestinação. Santo Agostinho, ou Agostinho de Hippo, expõe uma filosofia cristã que postula uma combinação entre fé e razão.

Em Cartago viveu, de acordo com suas Confissões, uma vida devassa, seduzido e seduzindo, enganando e sendo enganado, mergulhado na luxúria. A filosofia de Tomás de Aquino, cognominado “doutor evangélico” pelo papa Pio V, é intimamente entrelaçado com sua teologia. Aquino procurou estabelecer uma coexistência harmoniosa entre fé e razão, demonstrando, em primeiro lugar, que os princípios da fé não contradiz as conclusões da filosofia, e segundo, que eles não se afastam dela e formam a base dos argumentos filosóficos. Aquino foi enormemente responsável pela incorporação da filosofia de Aristóteles na doutrina cristã e na cultura ocidental.

Darcy Ribeiro não o fizera de forma diferente, senão vejamos em sua prolepse:

 Escrevi estas Confissões (1997), urgido por duas lanças. Meu medo-pânico de morrer antes de dizer a que vim. Meu medo ainda maior de que sobreviessem as dores terminais e as drogas heróicas trazendo com elas as bobeiras do barato. Bobo não sabe de nada. Não se lembra de nada. Tinha que escrever ligeiro, ao correr da pena. Hoje, o medo é menor, e a aflição também. Melhorei. Vou durar mais do que pensava. Se nada de irremediável suceder, terei tempo para revisões. Não ouso pensar que me reste vida para escrever mais um livro. Nem preciso, já escrevi livros demais. Mas admito que tirar mais suco de mim nesta porta terminal é o que quisera. Impossível? Este livro meu, ao contrário dos outros todos, cheios de datas e precisões, é um mero reconto espontâneo.

 Etnograficamente falando, afirma ainda, “recapitulo aqui”,

“como me vem à cabeça, o que me sucedeu pela vida afora, desde o começo, sob o olhar de Fininha, até agora, sozinho neste mundo. Muito relato será, talvez, equivocado em alguma coisa. Acho melhor que seja assim, para que meu retrato do que fui e sou me saia tal como me lembro. Neguei-me, por isso, a castigar o texto com revisões críticas e pesquisas. Isso é tarefa de biógrafo. Se eu tiver algum, ele que se vire, sem me querer mal por isso. Quero muito que estas minhas Confissões comovam. Para isso as escrevi, dia a dia, recordando meus dias. Sem nada tirar por vexame ou mesquinhez nem nada acrescentar por tolo orgulho. Termino esta minha vida exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras. A você que fica aí, inútil, vivendo vida insossa, só digo: ‘Coragem! Mais vale errar, se arrebentando, do que poupar-se para nada. O único clamor da vida é por mais vida bem vivida. Essa é, aqui e agora, a nossa parte. Depois, seremos matéria cósmica, sem memórias de virtudes ou de gozos. Apagados, minerais. Para sempre mortos’” (Ribeiro, 1997).

Sobre seu depoimento colhemos três comentários intitulados: “Darcy Ribeiro sobre suas Confissões”:

a) De Avani Silveira Martins, em 4 de maio de 2008:

“Lindo! Darcy Ribeiro um chamado! Conseguiu comigo o que queria, fiquei comovida. É uma mensagem para quem tem olhos de ver, coração para sentir e vontade de fazer. Fazer o que? Que descubra a que veio, mesmo que se ´arrebente` rompendo padrões, pré-conceitos, mas que cumpra o que se propôs antes de voltar a ser ´pó de estrela`. Sem medo, mas que deixe dentro de si um sabor de realização”;

 b) Em 11 de maio de 2008:

“Darcy Ribeiro é tanta energia falando e escrevendo que nos deixa sem fala, sem texto. Brasileiro até o talo, sendo brasileiro o fruto dessa misturança, essa bagunça, essa esperança, essa força, estranha, como na letra de música, mas que vai, aos trancos e barrancos, como o título de outro livro do professor, depurando, enxergando o lado falso, o lado podre, o lado mentiroso, que comanda essa imensidão de luz que teve nele, Darcy, um intelectual que soube enxergar de dentro. Ele conhecia bem essa gentalha que arrebenta o povo sabendo disso, mas se lixando porque é seduzida pelo poder de roubar sob o manto da impunidade. São mais coitados do que a ninguenzada que não tem nada, mas é honesta, toma cachaça, vibra com o gol do time, samba no pé, faz sexo com o maior tesão do mundo, cria os filhos com nada de dinheiro, mas ensina a ser gente. Saravá, Darcy! Que não está apenas nas bibliotecas. É presença nas florestas, nas selvas de pedra, no mar, nos rios, nos lagos, no céu azul, nas montanhas, nas pedreiras, no sorriso deste povo lindo, feio, vivo, que vai dando de leve o pé na bunda dos escrotos”;

 E finalmente, c) em 15 de maio de 2008: “Darcy Ribeiro! alma viva das palavras… imagem refletida no espelho! revisões das confissões… em vida essa passagem… tão curta … e que disse a todos “a que veio’”.

Em verdade, um fragmento importante nas páginas da vida latino-americana da década de 1950 até os dias de hoje, pode se documentar seguindo-se o rastro aberto por Darcy Ribeiro. Traçou o plano de uma obra que incluiu, entre outros aspectos, a chamada “revolução humana”; as experiências junto às “formações pré-agrícolas”; um estudo sobre a “revolução agrícola” e sobre as “aldeias agrícolas indiferenciadas”; as “sociedades pastoris”; a “revolução urbana” e os “Estados rurais artesanais” e principalmente, – para o que nos interessa o lugar da “revolução do regadio” e os “Impérios teocráticos de regadio”, assim como a “revolução metalúrgica” e os “Impérios mercantil-escravistas” que têm como conseqüência, grosso modo, a “revolução mercantil”. O Autor examina os efeitos diferenciais das diversas fronteiras de expansão econômica perante os grupos que classifica segundo a intensidade de sua relação com a sociedade nacional.

Este modelo de análise será desenvolvido anos depois pelos projetos de investigação mais avançados da antropologia brasileira. Por volta de 1957 – assinala Darcy – “haviam sido extintos só no Brasil, 87 grupos [indígenas], dos 230 registrados em 1900”. Impávido, admite,

“o processo civilizatório é minha voz nesse debate. Ouvida, quero crer, porque foi traduzida para as línguas de nosso circuito ocidental, editada e reeditada muitas vezes e é objeto de debates internacionais nos Estados Unidos e na Alemanha. A ousadia de escrever um livro tão ambicioso me custou algum despeito dos enfermos de sentimentos de inferioridade, que não admitem a um intelectual brasileiro o direito de entrar nesses debates, tratando de matérias tão complexas. Sofreu restrições, também, dos comunistas, porque não era um livro marxista, e dos acadêmicos da direita, porque era um livro marxista. Isso não fez dano porque ele acabou sendo mais editado e mais lido do que qualquer outro livro recente sobre o mesmo tema” (Ribeiro, 1995:14).

 Além disso, este plano é muito importante na medida em que o Autor teve acesso a obras que em sua maioria estavam sendo publicadas quase que imediatamente “sobre o estudo das revoluções tecnológicas e na fixação dos modelos teóricos das formações sócio-culturais”. Contou também com suas próprias experiências concretas como antropólogo junto a grupos indígenas como os Guajá e os Xokléng, os índios Kadiuéu (1950) e particularmente a Arte Plumária dos Índios Kaapor (1957a) e, igualmente, sobre os índios Urubus-Kaapor (1957b) e as tribos do Xingu, entre outras pesquisas originalmente realizadas sobre os índios no Brasil. Mesmo o livro de Stanley J. Stein e Barbara H. Stein, The Colonial Heritage of Latin America, (Oxford University Press, 1970) publicado dois anos depois que o Processo Civilizatório (Ed. Civilização Brasileira, 1968) onde inclui fontes bibliográficas importantes sobre a Península Ibérica (1580-1800), sobre as colônias ibero-americanas com a projeção da América Latina em sua fase neocolonial no século XIX, desconhece o Diagrama do Processo Civilizatório. Principais Focos de Irradiação, suas Interpenetrações e Projeções sobre os Povos contemporâneos, considerando a importância do estudo de Darcy Ribeiro sobre antropologia das civilizações. Repetem algumas de suas fontes e referências bibliográficas.

Isto é importante, repetimos, na medida em que com a “revolução do regadio” Ribeiro compreendeu que alguns processos civilizatórios brotaram de gestação autóctone, cumpridas passo a passo, como parece ter ocorrido analogamente na Mesopotâmia e nas Américas. Outros podem ter surgido da fecundação de um velho contexto cultural originalmente desenvolvida em diferentes lugares. Mas o fundamental é que todos se configuram como formações sócio-culturais “tão radicalmente diferenciadas das anteriores e das posteriores” que só podem ser compreendidas “como uma nova etapa da evolução humana ou como fruto amadurecido de uma nova revolução tecnológica, a do regadio” (Ribeiro, 1968:94).

Isto o levou mais adiante em “busca de explicações terra-a-terra” (sic) para reconstituir o processo de formação dos povos americanos, com uma profunda reflexão para explicar as causas do seu desenvolvimento. “Salto, assim, afirma ele, da escala de 10 mil anos de história geral para os quinhentos anos da história americana com um novo livro: As Américas e a Civilização, em que proponho uma tipologia dos povos americanos, na forma de uma ampla explanação explicativa”. Ou seja, como vimos com a referência ao Diagrama do Processo Civilizatório (Ribeiro, 1968:53; 1995:15). A abordagem básica consistiu no desenvolvimento de uma metodologia própria que permitiu reunir os povos americanos em três categorias gerais explicativas do seu modo de ser e elucidativas de suas perspectivas de desenvolvimento. Essa tipologia

“possibilitou superar o nível de análise meramente histórico, incapaz de generalizações, e focalizar cada povo de forma mais ampla e compreensível do que seria praticável com as categorias antropológicas e sociológicas habituais” (Ribeiro, 1983a: 12).

Ribeiro (1983b) observa ainda que a análise de cada situação concreta exigisse dos clássicos do marxismo a elaboração de diferentes tipologias que, retratando para cada momento histórico as configurações discerníveis da estratificação social, também permitisse diagnosticar as oposições e complementaridades de interesses que nela se apresentavam. O que estes e outros esquemas marxistas têm de comum é a noção de componentes contrapostos dentro das classes dominantes e classes subordinadas bem como a divisão de umas e outras em diversos segmentos; e a existência de uma classe oprimida, cuja libertação pressupõe uma revolução social. Em qualquer caso trazem implícita a necessidade, metodologicamente falando, de “um estudo fatual das estratificações de classe que se cristalizam historicamente em cada situação concreta”.

A tipologia utilizada por Darcy Ribeiro foi elaborada, como ele dizia, “com esse espírito”. O que nos faz compreender o seguinte: “Em lugar de transpor à América Latina esquemas desenvolvidos pela análise de distintas situações históricas, procuramos elaborar uma tipologia fundada na observação da realidade presente e na análise da formação das classes da América Latina, a partir da estratificação social registrada nas metrópoles ibéricas e do estudo de suas transformações posteriores. Nossa tipologia aqui apresentada de forma sumária nada mais é, na verdade, do que um esquema de posições correntes, e também mais fiel ao verdadeiro significado da teoria marxista de classes sociais” (1983b: 66).

Esta tipologia é de caráter étnico-nacional e enquanto povos extra-europeus do mundo moderno podem ser classificados em quatro grandes configurações, sendo que cada uma delas engloba populações muito diferenciadas, mas também suficientemente homogêneas quanto às suas características básicas e quanto aos problemas de desenvolvimento com que se defrontam, para serem legitimamente tratadas como categorias distintas. Tais são os Povos-Testemunho (os meso-americanos que integram o México Asteca-Náhuatl); os Povos-Novos (os brasileiros, os grã-colombianos, os antilhanos, os chilenos); os Povos-Transplantados (os anglo-americanos, os rio-platenses) e os Povos-Emergentes (africanos e asiáticos).

Os primeiros são constituídos pelos representantes modernos das velhas civilizações autônomas sob as quais se abateu a expansão européia. O segundo bloco é representado pelos povos americanos plasmados nos últimos séculos como um subproduto da expansão européia pela fusão e aculturação de matrizes indígenas, negras e européias. O terceiro é integrado pelas nações constituídas pela implantação de populações européias no ultramar com a preservação do perfil étnico, da língua e da cultura originais. Finalmente, os últimos, representam as nações novas da África e da Ásia cujas populações ascendem de um “nível tribal” (cf. Maffesoli, 1987: 95), onde a constatação poética ou, mais tarde, psicológica da pluralidade da pessoa (“eu é um outro”), pode ser interpretada, de um ponto de vista sócio-antropológico como expressão de um continuun intangível, ou da condição de meras “feitorias coloniais” para a de “etnias nacionais”. Só temos valor pelo fato de pertencermos a um grupo.

A primeira destas configurações designada como Povos-Testemunho é integrada pelos sobreviventes de altas civilizações autônomas que sofreram o impacto da expansão européia. São resultantes modernos da ação traumatizadora daquela expansão e dos seus esforços de reconstituição étnica como sociedades nacionais modernas. Reintegradas em sua independência, não voltam a ser o que eram antes, porque se haviam transfigurado profundamente. Mais do que povos considerados atrasados na história, eles são os povos espoliados da história.

Contando originalmente com enormes riquezas acumuladas, que poderiam ser agora utilizadas, para custear sua integração nos sistemas industriais de produção, as viram saqueadas pelo europeu. Séculos de subjugação ou de dominação direta ou indireta impuseram-lhes profundas deformações que não só depauperaram seus povos como também traumatizaram toda a sua vida cultural. Como problema básico, enfrenta a integração dentro de si mesmo das duas tradições culturais de que se fizeram herdeiros, não apenas diversas, mas, em muitos aspectos, contrapostas. Atraídos ainda simultaneamente pelas duas tradições, mas incapazes de fundi-las numa síntese significativa para toda a população, conduzem dentro de si o conflito entre a cultura original e a civilização européia.

Neste bloco, encontram-se a Índia, a China, o Japão, a então Coréia unificada, a Indochina, os países islâmicos e alguns outros. Nas Américas, são representados pelo México, pela Guatemala, bem como pelos povos do Altiplano Andino; sobreviventes das populações Astecas e Maia, os primeiros, e da civilização Incaica, os últimos. Dentre estes povos apenas o Japão e, mais recentemente a China conseguiram incorporar às respectivas economias a tecnologia industrial moderna e reestruturar suas próprias sociedades em novas bases.

Os dois núcleos de povos das Américas, como povos conquistados e subjugados, sofreram um processo de compulsão europeizadora muito mais violento do que resultou sua complexa transfiguração étnica. Seus perfis étnicos nacionais conformam perfis neo-hispânicos metidos nos descendentes da antiga sociedade, mestiçados com europeus e negros. Enquanto que os demais povos extra-europeus apenas coloriram sua figura étnico-cultural original com influências européias, nas Américas, “a etnia neo-européia é que se tinge com as cores das antigas tradições culturais, tirando delas características que as singularizam” (Ribeiro, 1983a: 91).

A segunda configuração, os Povos-Novos constituíram-se pela confluência de contingentes díspares em suas características raciais, culturais e lingüísticas. Reunindo negros, brancos e índios para abrir grandes plantações de produtos tropicais ou para a exploração mineira, visando tão-somente atender aos mercados europeus e gerar lucros, as nações colonizadoras acabaram por plasmar povos profundamente diferenciados de si mesmas e de todas as outras matrizes formadoras. Estes contingentes básicos, embora exercendo papéis distintos, entraram a mesclar-se e a fundir-se culturalmente com maior intensidade do que em qualquer outro tipo de conjunção. Assim, ao lado do branco, “chamado a exercer os papéis de chefia na empresa” (por força das condições de dominação impostas aos demais); do negro, nela “engajado como escravo”; do índio, “também escravizado ou tratado como mero obstáculo a erradicar”, foi surgindo uma população mestiça que fundia aquelas matrizes nas mais variadas proporções.

Os Povos-Novos surgem hierarquizados, como os Povos-Testemunho, pela distância social que separa a sua camada senhorial de fazendeiros, mineradores, comerciantes, funcionários coloniais e clérigos da massa escrava engajada na produção. Constituíam-se de rudes empresários, senhores de suas terras e de seus escravos, forçados a viver junto a seu negócio e a dirigi-lo pessoalmente com a ajuda de uma pequena camada intermédia, de técnicos, capatazes e sacerdotes. Onde a empresa prosperou muito, como nas zonas açucareiras e mineradoras do Brasil e das Antilhas, puderam dar-se ao luxo de residências senhoriais e tiveram de alargar a camada intermédia, tanto dos engenhos como das vilas costeiras, incumbidas do comércio exterior.

Vale lembrar que nenhum dos povos deste bloco constitui uma nacionalidade multiétnica. Em todos os casos, seu processo de formação foi suficientemente violento para compelir a fusão das matrizes originais em novas unidades homogêneas. Somente o Chile, por sua formação peculiar, guarda no contingente Araucano, uma micro-etnia diferenciada da nacional, historicamente reivindicante do direito de ser ela própria, ao menos como modo diferenciado de participação na sociedade nacional. Os chilenos e os paraguaios contrastam também com os outros Povos-Novos pela ascendência principalmente indígena de sua população e pela ausência do contingente negro escravo, bem como do sistema de plantation, que tiveram papel tão saliente na formação dos brasileiros, dos antilhanos, dos colombianos e dos venezuelanos. Ambos conformam, por isto, juntamente com a matriz étnica original dos rio-platenses, uma variante dos Povos-Novos.

A composição predominantemente “índio-espanhola” dos Povos-Testemunho se diferencia dessa variante porque suas populações indígenas originais não haviam alcançado um nível de desenvolvimento cultural equiparável ao dos mexicanos ou dos Incas. É o resultado da seleção de qualidades raciais e culturais das matrizes formadoras, que melhor se ajustaram às condições que lhes foram impostas. O papel decisivo em sua formação foi representado pela escravidão que, operando como força distribalizadora, desgarrava as novas criaturas das tradições ancestrais. São produto tanto da deculturação redutora de seus patrimônios tribais indígenas e africanos, quanto da aculturação seletiva desses patrimônios e da própria criatividade face ao novo meio.

A terceira configuração histórico-cultural é representada pelos Povos-Transplantados, correspondentes às nações modernas criadas pela migração de populações européias para novos espaços mundiais, onde procuram reconstituir formas de vida essencialmente idênticas às de origem. Cada um deles estruturou-se segundo modelos de vida econômica e social da nação de que provinha, levando adiante, nas terras adotivas, processos de renovação que já operavam nos velhos contextos europeus. Suas características referem-se à homogeneidade cultural que mantiveram pela origem comum de sua população, ou que plasmaram pela assimilação dos novos contingentes. A maioria destes contingentes veio ter à América como trabalhadores rurais aliciados mediante [email protected], que os submetiam a anos de trabalho servil, embora em sua grande parte tenha conseguido, mais tarde, ingressar na categoria de granjeiros livres e de artesãos também independentes.

Integram o bloco de Povos-Transplantados a Austrália e a Nova Zelândia, em certa medida também os bolsões neoeuropeus de Israel, da União Sul-Africana e da Rodésia. Nas Américas são representados pelos Estados Unidos, pelo Canadá e também pelo Uruguai e a Argentina. Nos primeiros casos tais povos nascem de projetos de colonização implantados sobre territórios, cujas populações tribais foram dizimadas ou confinadas em reservations para que uma nova sociedade neles se instalasse. No caso dos países rio-platenses, encontramos a resultante de um empreendimento peculiaríssimo de uma “elite crioula” – inteiramente alienada e hostil à sua própria etnia de Povo-Novo – que adota como projeto nacional a substituição de seu próprio povo por europeus brancos e morenos, concebidos como gente com mais peremptória vocação para o progresso.

A Argentina e o Uruguai resultam, assim, de um processo de sucessão ecológica deliberadamente desencadeada pelas oligarquias nacionais, através do qual uma configuração de Povo-Novo se transforma em Povo-Transplantado. Neste processo, a população ladina e a gaúcha, originária da mestiçagem dos povoadores ibéricos com o indígena, foi esmagada e substituída, como contingente básico da nação, por um alude de imigrantes europeus.

O quarto bloco de povos extra-europeus do mundo moderno é constituído pelos Povos-Emergentes. São integrados pelas populações africanas que ascendem da condição tribal à nacional. Na Ásia encontram-se também alguns casos de Povos-Emergentes que transitam da condição tribal à nacional. Esta categoria não surgiu na América, apesar do avultado número de populações tribais que, ao tempo da conquista, contavam com centenas de milhares e com mais de um milhão de habitantes. Este fator, mais do que qualquer outro, exprime a violência da dominação, primeiro européia que se prolongou por quase quatro séculos, depois nacional, a que estiveram submetidos os povos tribais americanos.

Dizimados prontamente alguns deles, outros mais lentamente, somente sobreviveram uns poucos que foram anulados como etnias e como base de novas nacionalidades, enquanto seus equivalentes africanos e asiáticos, apesar da violência do impacto que sofreram, ascendem hoje para a vida nacional. A consciência étnica percorre todo o mundo. Nunca as chamadas “minorias nacionais” foram tão combativas como agora. Isto se pode constatar pela luta dos Bascos, Catalães, Galegos, Bretões, Flamengos e de outras nacionalidades fanaticamente apegadas a tudo que afirme seu caráter de “etnias autônomas imersas em entidades multiétnicas”.

 Bibliografia geral consultada:

BARROS, José Flávio Pessoa, Ewe o Osanyin: sistema de classificação dos vegetais nas Casas de Santo Jêje-Nagô de Salvador, Bahia. Tese de doutoramento. FFLCH/USP, 1983.

______________, Maria Lina L., “Sassanhe: o ´cantar das folhas` e a construção do ser”. Trabalho apresentado no Congresso Internacional Escravidão, realizado na Universidade de São Paulo, junho de 1988; BRAGA, Ubiracy de Souza, “Informação e Capitalismo: A destruição das novas e velhas culturas?”. Trabalho apresentado no III Seminário Internacional de Comunicação. CBELA/UFRGS – Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos/Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1993; Idem, “Modernidades e Cultura de Fronteira”. Conferência escrita e falada na 4ª Reunião Especial da SBPC. Campus da Universidade Estadual de Feira de Santana, BA, 24 a 28 de novembro de 1996a; Idem, “A Sociedade como Valor-de-Informação”. Texto escrito e falado no IX Ciclo de Estudos sobre o Imaginário do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre o Imaginário. Programa de Mestrado/Doutorado em Antropologia da UFPe. Recife, 31 de outubro a 1º de novembro de 1996b; Idem, “A Morte dos Goytacamopi”. Texto escrito e falado em Mesa Redonda do XIX Simpósio Nacional de História: ´História e Cidadania`”. Belo Horizonte/UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais, 21 a 25 de julho de 1997a; Idem, “A Morte dos Goytacamopi”. In: Ciência Moderna e Interrogação Filosófica. Modernidade, Identidade e Cultura de Fronteira. João Pessoa: Editora Universitária da UFPb; Feira de Santana: Universidade Estadual de Feira de Santana; Campina Grande: Argos Gomero Editora, 1997b; Idem, “Olhares Estrangeiros: uma perspectiva fenomenológica do Nordeste do Brasil”. In: 21ª Reunião da Associação Brasileira de Antropologia – ABA. Vitória, ES: UFES – Universidade Federal do Espírito Santo, 5 a 9 de abril de 1998; Idem, “Análise Social sobre as Imagens de Poder, Sexo e Sacanagem no Ideário do V Centenário de ‘Descobrimento’ do Brasil”. Conferência escrita e falada no III Encontro Regional da ANPUH – Associação Nacional de Professores Universitários de História. Vitória: UFES – Universidade Federal do Espírito Santo, 1998; Idem, “Análise Social sobre as Imagens de Poder, Sexo e Sacanagem no Ideário do V Centenário de ‘Descobrimento’ do Brasil”. In: Cadernos Irreverentes. Vol. 1, n˚ 3. Editor prof. José Benedito de Carvalho Filho. Departamento de Ciências Sociais. Atualmente Coordenação do curso de Ciências Sociais. UECE – Universidade Estadual do Ceará. Fortaleza, Ce, 1999; Idem, “Sobre Lula, guerra e índios”. In: Jornal O Povo – Retrospectiva: Ano de Extremos. Fortaleza, 31 de dezembro de 2003; Idem, “Marcha para Gays, passeata para Jesus?” In: Jornal O Povo – Internacional. Fortaleza, 23 de junho de 2007; Idem, “Nem tudo que é legal é legítimo”. In: Jornal O Povo. Fortaleza, 20 de janeiro de 2009; MAFFESOLI, Michel, Lógica da Dominação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1978; Idem, O Tempo das Tribos. O Declínio do Individualismo nas Sociedades de Massa. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987; Idem, O Conhecimento Comum. 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Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979a; Idem, “Antropologia ou a Teoria do Bombardeio de Berlim” – Darcy Ribeiro entrevistado por Edilson Martins. In: Encontros com a Civilização Brasileira n˚ 12. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979b; Idem, Ensaios Insólitos. Porto alegre: L&PM Editores, 1979c; Idem, “Nosotros Latino-Americanos”. In: Encontros com a Civilização Brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982a (Encontros com a Civilização Brasileira; v. 29); Idem, Utopia Selvagem. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982b; Idem, As Américas e a civilização, processo de formação e causas do desenvolvimento desigual dos povos americanos. Petrópolis (RJ): Vozes, 1983a; Idem, O Dilema da América Latina: estruturas de poder e forças insurgentes. Petrópolis (RJ): Vozes, 1983b; Idem, O Mulo. 2ª edição. Rio de Janeiro: Editora Record, 1987; Idem, Testemunho. Rio de Janeiro: Siciliano, 1991; Idem, “Tiradentes Estadista”. In: A sagração da liberdade: heróis e mártires da América Latina. Rio de Janeiro: Revan, 1994; Idem, O Povo Brasileiro: A formação e o sentido do Brasil. 2ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1995; Idem, Mestiço é Que é Bom. Rio de Janeiro: Revan, 1996; Idem, Confissões. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, entre outros.

* Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

** Sociólogo e Cientista Político. Professor da Faculdade Evolutivo (Face). Analista de Risco Político.

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