O jornalismo investigativo tem seu lugar na era digital, dizem Woodward e Bernstein

Jornal Grande Bahia, compromisso em informar.
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O jornalismo investigativo do tipo que derrubou a presidência de Richard Nixon ainda pode ser produzido na era digital, apesar das pressões do ciclo de notícias diárias. Esta foi a conclusão do painel realizado na quinta-feira, 21 de abril, com grandes figuras do jornalismo como Bob Woodward e Carl Bernstein, famosos pelo caso Watergate.

Robert Redford, produtor e ator de “Todos os Homens do Presidente “, filme baseado no livro de Woodward e Bernstein sobre a rede de espionagem e lavagem de dinheiro na administração de Nixon em 1974, se juntou ao grupo que incluía ainda Dana Priest, do The Washington Post , Peter Baker, do The New York Times, e Mark Miller, da Tribuna do Texas. Além deles,Glenn Frankel, diretor da Escola de Jornalismo da Universidade do Texas em Austin, que moderou o painel chamado “Pode a mídia produzir uma história como Watergate hoje?”

Bernstein observou três características de sua reportagem com Woodward: “inteligência humana ” ao procurar fontes longe dos seus escritórios, “provas documentais”, tais como dados de contabilidade, o que tornou para sempre consagrada no léxico jornalístico a famosa frase do filme “siga o dinheiro”, e, finalmente, as próprias “observações” e instintos. Veja a reportagem original da dupla nesta linha do tempo do Washington Post.

Woodward comentou que ele e Bernstein conduziram várias entrevistas à noite, na casa das fontes, onde elas se sentiam mais à vontade. “Você obtém a maior parte da verdade durante a noite”, sugeriu. “Em geral, você obtém mais mentiras durante o dia”. Woodward disse que eles não eram ideologicamente orientados a forçar a queda de Nixon da Casa Branca, mas seus instintos lhes falavam “há algo de estranho sobre esse cara”, um político famoso por sua natureza vingativa. Woodward lembra que pensou: “É possível que ele tenha feito isso”, e que Nixon poderia realmente sofrer o impeachment.

Além disso, Woodward afirmou que a genialidade de Ben Bradlee, proclamado editor executivo do The Post entre 1965-1991, era “não o que ele publicava, mas o que ele não publicava”. Bradlee e Katherine Graham, editora já falecida do Post, prestaram um apoio inestimável, segundo Woodward, que acrescentou que eles eram “mentes dentro, mãos fora”.

Mas para Peter Baker, repórter do New York Times, no início de 1998 “o mundo mudou.” A Internet havia decolado e blogueiros eram notícias de última hora. Como repórter do Post, em 1998, Baker foi enviado por seus editores para verificar a alegação do Drudge Report de que o Newsweek tinha uma história bombástica: o presidente Bill Clinton estava sendo investigado por, aparentemente, estar mentindo sobre ter um caso com a estagiária Monica Lewinsky.

Como os dois repórteres de Watergate, Baker disse que ele e seus colegas “fizeram muito trabalho de perna” perseguindo ligações no que era uma história de movimento muito rápido. Mas era também “um ponto crucial na mídia moderna”, afirmou, pois foi a primeira ocasião em que ele apresentou uma história ao meio-dia para o site do Post, mais leitores foram capazes de visualizar documentos online relacionados com a investigação de Kenneth Star. “Pela primeira vez os leitores poderiam julgar o material com um clique do mouse”, disse Baker.

Mark Miller, editor do site de notícias online Tribuna do Texas e ex-editor da Newsweek, disse que a revista não sentia que a reportagem feita por Michael Isikoff sobre Clinton e Lewinsky “estava completamente fechada”, então ele segurou a publicação da história. Eles estavam agindo como jornalistas, certificando-se de que os fatos estavam corretos, mas Matt Drudge representava um novo período em que a hesitação em publicar é tempo perdido.

Embora a revolução digital tenha irritado meios de comunicação tradicionais como os jornais diários, ela também teve suas vantagens, de acordo com Dana Priest do Post. A repórter investigativa veterana e duas vezes vencedora do prêmio Pulitzer lamentou o estado atual das coisas, onde “ninguém mais sabe quem é o jornalista”, mas disse que também está animada com os novos modos de contar histórias. Enquanto o “jornalismo detetive” ainda era importante em sua exposição sobre a expansão sem precedentes da comunidade de inteligência dos EUA após o 11 de setembro, a habilidade de usar técnicas de narrativa multimídia foi “muito mais poderosa do que qualquer coisa que poderia ter sido feita com apenas o jornalismo de investigação”.

O moderador, Frankel da Universidade do Texas, um ex-repórter do Washington Post e vencedor do prêmio Pulitzer, resumiu a lição do dia para jovens jornalistas: “Novas ferramentas e velhos valores”.

Em 2003, o Centro Harry Ransom da Universidade do Texas pagou US$ 5 milhões para guardar os documentos de Woodward e Bernstein sobre Watergate. Mas os repórteres não apresentarem todas as suas notas e documentos de uma vez. Há um entendimento de que somente com a morte de suas fontes anônimas é que as notas dessas entrevistas poderiam ser compartilhadas com o Centro Harry Ransom.

Os dois repórteres surpreenderam os presentes ao compartilhar revelações de dos mais recentes documentos trazidos a Austin, notas de uma entrevista com o General Alexander Haig, morto em 2010. Durante os meses finais do mandato de Nixon, quando Haig era chefe de gabinete, o general temia que o presidente fosse um suicida. Os repórteres leram em suas notas que Haig havia contado que Nixon estava arrependido de, ao contrário de um militar, não ter uma “pistola na gaveta” para acabar com seu sofrimento de uma forma cavalheiresca. Haig disse aos jornalistas que mandou os médicos de Nixon retirarem os medicamentos que o presidente poderia usar para se matar.

O painel de discussão foi parte de uma série de eventos para marcar o 35º aniversário do filme “Todos os Homens do Presidente”. O painel foi organizado pela Biblioteca Presidencial Lyndon Baines Johnson e pelo Centro Harry Ransom da Universidade do Texas, em Austin.

*Com informação: Knight Center | Por Ian Tennant/NM

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