No segundo bloco da entrevista, Amílcar Baiardi fala sobre as articulações no interior da luta armada e do encontro com Dilma Rousseff

Amílcar Baiardi: Éramos impedidos de ter jornais, de difundir panfletos em fábricas, sendo que qualquer oposição mais autentica era perseguida, os militantes eram presos e em alguns casos desapareciam.
Amílcar Baiardi: Éramos impedidos de ter jornais, de difundir panfletos em fábricas, sendo que qualquer oposição mais autentica era perseguida, os militantes eram presos e em alguns casos desapareciam.
Amílcar Baiardi: Éramos impedidos de ter jornais, de difundir panfletos em fábricas, sendo que qualquer oposição mais autentica era perseguida, os militantes eram presos e em alguns casos desapareciam.
Amílcar Baiardi: Éramos impedidos de ter jornais, de difundir panfletos em fábricas, sendo que qualquer oposição mais autentica era perseguida, os militantes eram presos e em alguns casos desapareciam.

O professor doutor Amílcar Baiardi (70 anos) concede entrevista exclusiva a Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia (JGB). A entrevista ocorreu na terça-feira (12/04/2011), na Fundação Hansen Bahia, em Cachoeira. Baiardi é pós-doutor na área de política de ciência e tecnologia no IMSS (Firenze, Itália), professor da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia), conta com mais de 300 publicações científicas e coordena o Mestrado em Ciências Sociais da UFBR.

No segundo bloco da entrevista, Baiardi avalia: a importância da luta armada para o processo de redemocratização do Brasil, do contato que teve com a presidente Dilma Rousseff e com o ex-marido dela, Carlos Franklin Paixão Araújo, na organização revolucionária em que eram membros: “Eu tive dois contatos com Dilma na fase de clandestinidade, pois ela era uma espécie de assessora do Comando Nacional. O ex-companheiro dela era membro do Comando Nacional, chamado companheiro Marx. Mas, ela não. Ela era de um nível mais baixo, de assessoria, logística. Ela era conhecida como companheira Vanda. Eu estive com ela justamente para receber informações de um ponto”.

JGB – Numa perspectiva histórica como o senhor avalia o papel da luta armada para que hoje o país pudesse estar numa democracia?

Amílcar Baiardi – No translado dos restos de Marighella para Salvador houve um ato muito bonito. Eu estava lá, discursei e provavelmente era um dos poucos que estavam lá que tinham participado da luta armada. Mas, tinham outros políticos como o atual secretário de turismo, Domingos Leonelli, tinha o professor Joviniano, que representava na época a associação de sociólogos, Fernando Santana do PCB.

Nesse meu discurso, digamos assim no segundo sepultamento de Marighella, eu disse claramente que nós não fizemos uma opção pela luta armada por aventura, sectarismo, mas porque não havia outra forma de se fazer política naquela época senão pela luta armada.

Éramos impedidos de ter jornais, de difundir panfletos em fábricas, sendo que qualquer oposição mais autentica era perseguida, os militantes eram presos e em alguns casos desapareciam. Então, nós tivemos que nos armar poder fazer a propaganda armada em portas de fábrica, pichamentos e isso foi o que levou as ações armadas.

A luta armada surge e tem um papel na democratização, talvez ela tenha demorado muito, sendo que em algum momento nós deveríamos ter nos dado conta de que a sociedade já estava se afastando do governo e eu seria conveniente retrocedermos a luta armada e tratarmos mais de ações junto à sociedade civil, mobilizações ou até mesmo na clandestinidade junto aos sindicatos e organizações religiosas de base. Enfim, havia um grande caldo de inconformismo para trabalho revolucionário, não necessariamente armado.

Então, nesse sentido, algumas pessoas foram sacrificadas porque a luta armada se estendeu e não foi capaz de perceber o momento em que as lideranças mais comprometidas deveriam ir para o exílio e ficar aqui somente os que não corriam risco para começar a desenvolver uma ação de massa.

Mas, ela teve o papel de expor a natureza do estado ditatorial. Nesse aspecto ela contribuiu para a democracia, além de que, como eu falei, era a única forma de você manter acessa a chama da oposição num determinado período. Isso só foi possível por meio da luta armada. Pois, até o partido chamado não governista, que na época era o MDB (Movimento Democrático Brasileiro) era um partido com o sentido absolutamente fiscalizado, sendo que qualquer coisa mais autentica no MDB era cassado.

Então, não tinha como não fazer a luta armada.

JGB – Quando o senhor fala Estado Ditatorial. O senhor fala de atropelar um Estado Democrático de direito com prisões irregulares e de um governo que na época infringiu a constituição brasileira, torturou e que efetivamente matou. O senhor acredita que o brasileiro tem percepção desse processo histórico?

Amílcar Baiardi – Infelizmente, eu diria que não. As pessoas, às vezes, se surpreendem quando esse tema aparece porque acham que ele não é mais contemporâneo. Mas, eu acredito que ele permanece contemporâneo. É preciso reconstruir com rigor de fontes a historiografia desse período. Temos esse direito, a sociedade brasileira tem esse direito, como também devemos refletir sobre isso para que, efetivamente, nunca essa experiência venha se repetir.

JGB – O que conduziu o senhor a ir para a luta armada?

Amílcar Baiardi – A revolta dirigida para o entendimento de que havia uma possibilidade teórica de vitória através da luta armada no campo e nas cidades. Nós estudamos muito desde Klaus Fuchs, todas as obras de Che Guevara, Mao Tse-tung, Alberto Bayo combatente da guerra civil espanhola, exilado no México. Todas essas obras foram lidas, relidas e discutidas, sendo que o próprio Marighella escreveu um manual de guerrilha urbana. Nós acreditávamos que havia uma teoria por traz e que se não nos afastássemos muito dela, poderíamos ter sucesso.

JGB – O senhor falou da presidente Dilma Rousseff, que foi uma presa política que foi torturada. O senhor treinou na época a presidente Dilma Rousseff?

Amílcar Baiardi – Não. Mas, o ex-marido dela sim. Nós tínhamos uma célula no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, isso em 1968, provavelmente.

Com ele fizemos algumas reuniões sobre o uso e confecções de explosivos, já que eu que tinha o treinamento um pouco mais aprimorado do que eles, aliás o Emiliano depois diz no livro dele que eu era professor de explosivos, sendo que isso gerou até brincadeiras dos estudantes comigo na UFBA.

Eu tive dois contatos com Dilma na fase de clandestinidade, pois ela era uma espécie de assessora do Comando Nacional. O ex-companheiro dela era membro do COLINA, era chamado de companheiro Marx.

Mas, ela não. Ela era de um nível mais baixo, de assessoria, logística. Ela era conhecida como companheira Vanda. Eu estive com ela justamente para receber informações de um ponto. Numa certa ocasião eu precisei me encontrar com os dirigentes e ela que me disse o ponto. Ela atuava mais assim, intermediando as articulações.

JGB – Valeu a pena ter feito parte da luta armada?

Amílcar Baiardi – Eu não me arrependo. Dou graças a todas as divindades existentes, principalmente aos reis do Olímpio e aos Orixás, por continuar vivo. [risos]

É brincadeira, pois sou agnóstico e eu sempre brinco que as religiões menos conservadoras, menos preconceituosas era a dos gregos e as africanas. Então, eu dei muita sorte de estar dando essa entrevista agora, de sobreviver.

Se eu tivesse sido preso na ausência de testemunhas, talvez eles tivessem me executado. Se bem que no início dos anos 1970 ainda não tinha se generalizado essa instrução de pessoas com maiores responsabilidades dirigentes serem executados. Por isso eu escapei.

JGB – O JGB lhe agradece pela entrevista e deixa com o senhor as palavras finais.

Amílcar Baiardi – Eu agradeço a oportunidade. Para mim, tratar desses temas é sempre muito grato. Aliás, essa ambiguidade de alguma forma está presente em mim, eu deixo de ser uma pessoa preocupada com as mudanças sociais, políticas, mas por outro lado, também, creio que desde sempre nos intervalos, até mesmo da prisão, eu escrevi. Eu nunca deixei de estudar, de ter produção intelectual.

Esse é o meu perfil e avaliando o meu passado, diria que a exemplo de um político italiano que, na última fase da vida dele, se envolveu em ligações com a máfia  e perguntaram a ele: o senhor não está preocupado com o seu futuro? Ele disse estou preocupado com o meu passado. [risos].

Eu também tenho uma preocupação enorme com o meu passado. Acho que ele me enriqueceu muito enquanto pessoa. Não tenho nenhum arrependimento dessa trajetória.

Hoje, iniciamos a crítica das armas porque não era mais possível a arma da crítica. Agora, que a arma da crítica se torna possível deixemos a crítica das armas e passemos a arma da crítica.

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Sobre Carlos Augusto 9744 Artigos
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).