Em entrevista exclusiva, ex-prefeito José Ronaldo avalia cenário político e critica governo estadual liderado por Jaques Wagner

José Ronaldo de Carvalho: Se olharmos bem qual foi a obra prática que Wagner fez em Feira? O Hospital da Criança. Funciona bem? Não
José Ronaldo de Carvalho: Se olharmos bem qual foi a obra prática que Wagner fez em Feira? O Hospital da Criança. Funciona bem? Não

Em entrevista ao Jornal Grande Bahia (JGB), na última quarta-feira (06/04/2011), o ex-prefeito de Feira de Santana e presidente do Democratas no município, José Ronaldo de Carvalho falou sobre diversos assuntos. No primeiro bloco da entrevista, Ronaldo aborda expectativa que tem sobre o trabalho de Aleluia na presidência do DEM na Bahia, sobre a formação do PSD, sobre o provável apoio do deputado Fernando Torres caso se candidate a prefeito de Feira de Santana, sobre a reforma política e sobre a não conclusão de obras prometidas pelo governo Wagner: “Se olharmos bem qual foi a obra prática que Wagner fez em Feira? O Hospital da Criança. Funciona bem?  Não”.

JGB – Com poucos recursos financeiros, candidato de oposição ao senado e um 1.092.850 votos, sendo mais votado do que os candidatos ao governo Geddel (PMDB, 1.000.038 votos) e Paulo Souto (DEM, 1.033.600 votos). Como o senhor explica este resultado?

José Ronaldo – Bom, eu não sei como é que explica, (risos). Eu acho que é um resultado em que eu desejei e busquei a vitória. Trabalhei nesse sentido, mas praticamente em todos os estados da federação brasileira todos os candidatos eleitos foram apoiados por aqueles que tiveram uma votação expressiva ao governo do estado. Aqueles que ganharam no primeiro turno ou aqueles que tiveram uma votação grande no primeiro turno e foram para o segundo turno com esses senadores eleitos do seu próprio grupo.

Essa sempre foi a tradição na Bahia em que o governador eleito também elege o senador e isso mais uma vez se repetiu. Mas, estou muito satisfeito e agradecido a todos que abraçaram e votaram e me deram esse voto de confiança.

Em Feira de Santana isso representou dos votos válidos 86,6%, que é um percentual maravilhoso e que me deixou emocionado e agradecido a toda comunidade feirense.

JGB – José Carlos Aleluia assume a presidência do DEM na Bahia. Quais expectativas o senhor tem com o trabalho a ser realizado por ele e quais pontos o senhor sugere para que o Democratas possa ampliar a sua base de aliados e filiados.

José Ronaldo – Paulo Souto de maneira livre e espontânea resolveu deixar a presidência do partido. Ele não deseja mais esta missão, mas continua no diretório do partido e continua como uma pessoa que quer e que vai colaborar e apoiar como um bom companheiro que ele é.

O Aleluia é também um cidadão que está sem mandato, portanto ele tem muito tempo disponível para viajar pela Bahia, trabalhar e ter um bom relacionamento a nível nacional, no congresso e com as pessoas do partido com o comando nacional do partido. Aleluia tem um projeto de intensificar o diálogo com partidos políticos, com lideranças políticas. Eu acredito que com a vontade de trabalho que ele tem ele possa fazer um bom trabalho à frente do partido.

O segredo é trabalhar muito, lutar, correr, ir atrás. Eu acho que para ter sucesso tem de fazer isso, ter uma dedicação em regime praticamente exclusivo.

JGB – Alguns políticos como Gilberto Kassab e o próprio Fernando Torres estão migrando para o PSD (Partido Social Democrático). Como o senhor avalia esse processo?

José Ronaldo – O que a gente via no país depois que ficou de maneira legal que o mandato constituído é do partido e não dos candidatos eleitos você viu muita gente comentando que ia sair do partido e coisas do tipo. Mas, a verdade é que ninguém saiu porque tinha medo que ao sair à justiça tirasse o mandado com base na fidelidade partidária.

Muitas dessas pessoas estão aproveitando justamente a criação desse partido para se lançar, se filiar, tentando talvez a sucessão de 2012. Alguns que estão se filiando não são candidatos m 2012, portanto eu fico sem entender essa mudança a não ser a vontade de ser governista, a vontade de se aproximar do governo ou não ter um jeito um traquejo de militar em oposição.

Eu acho que isso não é bom para a política nacional, independente de quem seja o governante. O governante precisa de oposição. A oposição quando é feita com responsabilidade ela ajuda o governante e contribui na administração. Ela quando é uma agressão, uma calúnia, uma ofensa ela não é boa para ninguém, até mesmo, para quem não é político. Agora, esse processo de crítica construtiva, de tornar público certas coisas que o governante pelo excesso de trabalho não sabe eu acho salutar e importantíssimo, esse trabalho da oposição.

No Congresso Nacional, por exemplo, a presidente Dilma tem um apoio de 80% do congresso. Eu acho uma coisa extremamente exagerada e que dificulta a própria democracia. A questão do PSD caminha por essa linha, uma vontade da pessoa buscar uma coisa mais cômoda, menos trabalho talvez.

Claro que toda regra tem exceção. Eu conversei com o deputado Fernando Torres, por exemplo, e ele foi convidado inclusive para constituir o partido em Feira de Santana, sendo que ele tinha essa vontade de constituir um partido. Ele argumentou comigo essa questão e disse que não tem nenhuma intenção de a nível local congregar com candidatos do PT e talvez ele ache que a nível federal ele possa conseguir mais recursos para se fazer obras em alguns municípios que ele faça política.

Então, talvez, isso o atraia, juntamente com o objetivo de trabalhar mais, beneficiar mais porque a oposição é o quê? É denunciar, falar.

JGB – Ainda falando sobre o deputado federal Fernando Torres (DEM), ele afirmou o seguinte: “Se José Ronaldo for candidato a prefeito de Feira de Santana, eu apoio José Ronaldo”.

José Ronaldo – Eu vejo com muita naturalidade. Eu me relaciono bem com ele, ao longo da vida sempre tivemos mais entrosamento do que afastamento. Assim, eu não duvido disso de forma alguma.

JGB – Estamos vivendo um momento de debates sobre a reforma política. O que o senhor entende que seria importante para melhorar a questão da representatividade parlamentar e executiva? Quais pontos da reforma política que está em discussão, hoje, o senhor acredita serem essenciais para o aprimoramento da democracia no Brasil?

José Ronaldo – Essa questão de reforma política é desde que eu estive na câmara federal. Lá na Câmara se falava muito isso, depois que eu deixei também se fala muito isso. Esse é um processo que vem se arrastando há algum tempo.

Eu estive em Brasília há poucos dias e o que mais eu ouvia era o seguinte: esse negócio da reforma é complicado porque cada um pensa na reforma da melhor maneira para a sua reeleição. Então, se o cidadão for eleito dentro de uma existência, de um procedimento eleitoral no país. Ele gostou daquilo que aconteceu com a sua eleição. Então, o que ele quer? Ele quer a reeleição. Então, em cima disso essa reforma política é uma caminho para a reeleição daquela pessoa ou é aquilo que alguém discute e prejudica aquela pessoa?

Então eu acho que é isso que estar causando uma grande preocupação, um grande entrave para acontecer à reforma política no país. Isso aconteceu de tal maneira que o Tribunal Superior Eleitoral decidiu essa questão do mandato. Mas, por que isso? Por que o congresso não legislou. Então, quando você mexe com tanta gente (senado e câmara) as pessoas dizem assim: “rapaz, essa lista fechada não serve para mim não, esse voto distrital para mim não serve não”, e assim a discussão vai de um lado para o outro sem ter decisão final. Fato esse que ocasiona dificuldades imensas para a votação de uma reforma política.

JGB – O senhor teria alguma sugestão para dar aos congressistas atuais?

José Ronaldo – Essa questão é tão delicada, tão complicada, que você não vê a população debatendo esse assunto. Você alguém da imprensa falar, algum político falar, sendo que nem todos os políticos falam sobre isso. Então, eu acho que essas coisas deveriam ser mais abertas para a sociedade. Pois, a sociedade participando normalmente a classe política vota.

Se formos olhar nos últimos anos o que aconteceu no Congresso Nacional de projetos importantes, aconteceu de ações que nasceram do povo na rua. Então, o povo participando as coisas andam bem mais rápido. Essa é a realidade dos fatos.

Então, sobre essa questão da reforma política os partidos deveriam sentar mais, debater mais e vir à sociedade debater esses problemas para se chegar a um denominador comum desse processo. Fora disto, acho muito difícil a reforma andar.

JGB – Causou certa surpresa o fato do ex-deputado Jairo Carneiro, hoje filiado ao PP, um dos deputados baianos de maior relevância em todo seu período histórico no Democratas, ser chefe de gabinete da Secretaria de Agricultura da Bahia. Mas, não só o ex-deputado está hoje no governo petista existem inúmeros outros que também fazem parte. Como o senhor classifica esse tipo de adesão? Ideológica, pragmática ou clientelista?

José Ronaldo – O Jairo saiu no nosso partido se filiou ao PP e nesse partido político aquelas pessoas que não tiveram êxito na última eleição estão sendo aproveitadas por esse partido em algum cargo do governo.

O PP tem três secretarias, acho até que esse partido (não estou querendo aqui criar intriga ou coisas do tipo) pelo que representou na campanha eleitoral, antes da campanha para o governador num momento muito importante que o governador precisava desse apoio eu acho que esse partido não teve o reconhecimento devido do governo. Pois, esse partido tinha a secretaria de agricultura, de infraestrutura e alguns cargos no governo.

Ela manteve a secretaria de agricultura e ficou em duas outras secretarias, sendo que todas essas secretarias juntas não dão 50% da infraestrutura em termo de orçamento ou de ações no estado. Então, eu acho que o PP não teve o devido reconhecimento da importância que teve na eleição.

Eu estava fora, estava de outro lado, mas eu via as ações no interior e não posso deixar de reconhecer que esse partido fez muito movimento, muitas ações pela Bahia afora. Então, a presença de Jairo Carneiro no governo eu vejo como uma questão normal de prestígio do partido político que ele esta filiado.

JGB – Até o presente momento o governo Wagner não realizou as obras estaduais para o prolongamento da Avenida João Durval. Na sua opinião o que está faltando?

José Ronaldo – Esta avenida que a partir do contorno chama-se Airton Senna tem casas que foram fruto de um contrato assinado com o governador Paulo Souto com uma instituição internacional. Ao sair do governo ele deixou aquelas obras com um processo de licitação publicado, foi um dos últimos atos dele no governo.

Quatro anos e três meses depois, essas casas ficaram prontas e eu estou lendo na mídia que as famílias estão sendo transferidas para essas casas. O que quer dizer que a avenida vai poder ser aberta. Houve um compromisso nosso na oportunidade que quando isso acontecesse o estado faria as casas, o saneamento básico, a água. Faria toda a infraestrutura. Agora, a abertura da avenida seria a prefeitura.

Na época eu achei que poderia ser uma coisa rápida, pois eu ainda tinha dois anos na prefeitura. Então, eu até sonhei que ali também faríamos em duas etapas. A primeira etapa do contorno até a Avenida Iguatemi, que na época não tinha casas e hoje está cheia de condomínios e posteriormente faríamos da Avenida Iguatemi até o cemitério São João Batista.

Na verdade, na época com o sonho de atrair recursos de um empréstimo internacional para fazer esta obra eu, na época, disse que a prefeitura iria fazer essa avenida e seria uma coisa parecida com a Avenida Francisco Fraga Maia. Agora, eu não sei como o prefeito Tarcízio vai fazer isso, se vai buscar o próprio estado para fazer isso, mas a verdade é que depois que todo mundo mudar pode passar a máquina e dar um acesso provisório, sem a pavimentação.

Aquilo ali é como a Avenida Noide Cerqueira. A Avenida Airton Senna e a Avenida Noide Cerqueira são dois pontos que com certeza mais tarde será preciso fazer as obras e será importante para a infraestrutura urbana feirense.

JGB – São quase seis anos entre o período em que o senhor assinou o contrato e o atual momento histórico. É necessário tanto tempo assim?

José Ronaldo – Não. Mesmo porque os recursos eram recursos disponíveis de um banco. A parte própria do estado era apenas uma contrapartida de 10% e naquela oportunidade quando o contrato foi assinado era em torno de R$ 1 milhão, portanto era um recurso muito pequeno para o estado. Por que demorou? Eu não tenho a menor ideia.

JGB – Aeroporto em Feira de Santana, polo de logística, prolongamento da Avenida Noide Cerqueira, conclusão do centro de convenções. Essas são obras prometidas pelo governo Jaques Wagner desde o primeiro momento que ele se tornou governador. Como o senhor avalia isso?

José Ronaldo – Se olharmos bem qual foi a obra prática que Wagner fez em Feira? O Hospital da Criança. Funciona bem? Não. O Hospital da Criança que era para ser o melhor do Brasil, inclusive foi utilizado até na campanha da presidente Dilma, ele funciona hoje com o mesmo padrão, com as mesmas técnicas do Hospital da Criança Municipal.

Então, é uma coisa que ainda não deslanchou, ainda não veio para a plenitude em que era desejado para o hospital. Se formos olhar outras ações do estado em Feira algumas redes de esgotos em alguns bairros da cidade são obras do governo federal em que a EMBASA (Empresa Baiana de Águas e Saneamento) está executando com recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), que é do governo federal.

Portanto, se você tem que louvar essas obras (que eram já deviam estar prontas há muito tempo e não estão), o louvor tem que ser feito ao governo federal. Fora daí eu não sei porque pequenas extensões de rede de água na zona rural é uma rotina que se faz não é de agora. Isso são obras de rotina não é uma coisa que para o governo terá grande densidade, mesmo porque é uma obra que está sendo feita pela EMBASA.

Luz para todos em Feira praticamente não existiu. Há três anos já estávamos praticamente com 100% das casa de Feira com iluminação, com energia elétrica. Então, o estado também não está investindo, nesta área também, em Feira porque não há mais necessidade deste processo.

Eu desconheço, a não ser que tenha alguma coisa a mais que eu não tenha conhecimento. A verdade é que as ações do estado estão muito tímidas. O orçamento do estado apresentado pelo governador, na mensagem de início de ano e a prestação de contas do ano passado, demonstram que o estado tem uma dívida enorme a pagar.

Eu estive recentemente na Assembleia Legislativa e ouvi de deputados que entre a Secretaria de Infraestrutura, Secretaria de Desenvolvimento Urbano e a Superintendência de Construções Administrativas giram uma dívida em torno de R$ 1.7 bilhão. Esses dados foram passados a mim na assembleia quando estive lá.

Então, eu acho que com isso mostra que o governo investiu muito em 2010 e terá poucos recursos para investir agora. Por outro lado, a prioridade do Brasil, que também, pega a Bahia dentro deste processo porque a Bahia é sede da Copa do Mundo, está em investimentos para fazer a infraestrutura visando a Copa do Mundo. São estádios de futebol nos estados sede em que são concentrados bilhões de reais para fazer essas obras.

A preocupação em Salvador, hoje, é: vão conseguir melhorar o deslocamento em Salvador? Vai continuar o trânsito caótico que está na capital do estado? É preciso fazer obras urgentes, mas para fazer essas obras urgentes será preciso bilhões de reais. Vai haver recursos de bilhões de reais para fazer tudo isso e a ponte Itaparica-Salvador, bem como obras de estradas, unidades de saúde e obras urbanas pelo interior do estado?

Então, com essa dívida a pagar isso não será fácil. Impossível não é. Não sei qual é o milagre que o governo estadual irá fazer para arranjar tantos bilhões. Mas, quando a presidente assume (que por sinal está governando com muita descrição) assume e faz um corte de R$ 50 bilhões, o governador na assembleia legislativa anunciou um corte orçamentário de R$ 1.1 bilhão

Ora, se tem corte no estado e na União, como se tem dinheiro para fazer essas coisas? Às vezes, o cara diz: para 2014 falta um tempão. Aí, eu lembro: para fazer tantas obras e obras de infraestrutura, obras de melhoria urbana, esse tempo é muito curto. Curtíssimo. Para se mexer numa malha viária de uma cidade como Salvador, não é fácil não.

Carlos Augusto entrevista ex-prefeito José Ronaldo (DEM).
Carlos Augusto entrevista ex-prefeito José Ronaldo (DEM).
Redação do Jornal Grande Bahia
Sobre Redação do Jornal Grande Bahia 108617 Artigos
O Jornal Grande Bahia (JGB) é um portal de notícias com sede em Feira de Santana e abrange as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: [email protected]