Exclusiva: ex-prefeito José Ronaldo revela distanciamento com relação ao prefeito Tarcízio Pimenta e comenta sobre o processo eleitoral de 2012

José Ronaldo de Carvalho.
José Ronaldo de Carvalho.

No segundo bloco da entrevista, exclusiva ao JGB, o ex-prefeito de Feira de Santana e presidente do Democratas no município, José Ronaldo de Carvalho continua as críticas que ao governo Wagner, avaliando a perda industrial da Bahia de 8,8% e a política de atração industrial do governo estadual para Feira de Santana. Além disso, José Ronaldo fala sobre a pré-candidatura de ACM Neto em Salvador, sucessão municipal em Feira de Santana e ao ser questionado sobre a existência de um distanciamento na sua relação com Tarcízio, foi taxativo: “Existe sim, um distanciamento”.

JGB – Em matéria veiculada no Jornal Grande Bahia (JGB), no dia 06/04/2011, foi verificado que nove dos catorze estados pesquisados obtiveram crescimento industrial positivo, mas a Bahia obteve uma perda industrial de 8,8% na produção. Como o senhor analisa a política de atração industrial do PT baiano?

José Ronaldo – Muito fraca. Quais foram os grandes investimentos na Bahia nos últimos anos? As grandes atrações de investimento foram a Ford, que o governador Wagner já encontrou e houve no ano passado um compromisso de que a Ford iria ter uma ampliação, que até agora não houve ainda, mas vai haver. Anunciou vai haver. Então, esse processo é algo que já era existente, não é uma coisa nova.

Grandes investimentos eu li recentemente em que se estaria pensando em ampliar uma das fábricas de pneus instaladas em Camaçari, mas essas indústrias implantadas em Camaçari ocorreram no governo anterior. Em Feira de Santana, teve a Nestlé um grande investimento que há dois anos houve também, um anúncio de ampliação num evento em Salvador. Mas, isso não aconteceu ainda. Caso aconteça faz parte de um processo anterior.

Eu não vi assim, algo de novo no cenário baiano que tenha sido anunciado como uma conquista deste governo. O governador diz que ele não vai fazer atrações, disputar atrações. Na hora em que o governador não disputa estas atrações Pernambuco ganha, Ceará ganha.

Se formos olhar o desenvolvimento de Pernambuco, sendo que a diferença entre Pernambuco e Bahia era muito grande, ela ano após ano está diminuindo. Isso significa Pernambuco está evoluindo e nós não estamos. O Ceará está evoluindo. Então, se for no andar dessa carruagem esses estados vão ultrapassar a Bahia. Isso me preocupa porque nós perdemos muito com isso.

JGB – E quanto à Feira de Santana. Como o senhor avalia a política de atração do governo do estado para a cidade?

José Ronaldo – Sobre isso vou dar um exemplo. A última empresa que está se instalando em Feira é a PepsiCo, que vai produzir a linha de produtos Elma Chips nas proximidades de Humildes. O protocolo dessa indústria foi assinado na mesma semana em que foi assinado o protocolo da indústria Vipal.

A Vipal instalou-se e a PepsiCo demorou um pouco devido a última crise mundial. Mas, a verdade é que a PepsiCo está se instalando e ela é muito bem vinda. É um empresa que aí vai gerar alguns empregos, sendo isso bom para o nosso parque industrial.

Porém, o que eu quero dizer é que o protocolo de intenções para que essa empresa fosse atraída para a Bahia ocorreu no governo anterior a Wagner. Fora esta qual foi a grande empresa instalada em Feira de Santana? Eu não sei. Se tiver alguma estou sem saber. Isso eu acho que responde tudo.

Eu acho que tem que ter para se conseguir essas coisas mais agressividade, ir atrás, correr, tendo que buscar, dialogar e trabalhar mesmo. Eu acho que essa área industrial infelizmente é uma política adotada de forma diferente. Mas, cada cabeça é um mundo.

JGB – A ANEEL, Agência Nacional de Energia Elétrica, negou o pedido de prorrogação para a implantação de novas usinas termelétricas na Bahia e Feira perdeu a oportunidade de ter uma termelétrica. Como o senhor avalia este fato?

José Ronaldo – Para essas questões a OEA (Organização dos Estados Americanos) fez uma recomendação ao governo brasileiro para suspender a obra da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, porque entendeu que a questão ainda não foi amplamente discutida e debatida, sendo considerados os problemas ambientais e sociais que uma obra como essa provoca.

Eu acho que o Brasil tem um potencial muito grande de locais que podem fazer a geração de energia elétrica. Acho que o governo tem potencial e capacidade para poder proporcionar um diálogo muito forte com a sociedade e com os meios envolvidos em todo esse processo. E quando o governo faz isso eu não tenho a menor dúvida que o governo conseguirá êxito na implantação dessas usinas, que são fundamentais para o desenvolvimento do país.

JGB – O senhor diria que o governo Wagner, na ação governamental, termina por boicotar Feira de Santana?

José Ronaldo – Eu não gosto de colocar essas coisas. Não é o meu estilo político fazer esses tipos de colocações. O governador teve duas vitórias em Feira de Santana independente de qualquer questão. Mas, uma coisa eu não entendo. Fui prefeito e deputado, e políticos que hoje são governistas viviam na imprensa de Feira de Santana, o JGB é testemunha disso, falando, badalando que Feira deveria ter um centro de convenções.

O governo anterior iniciou esta construção, perdeu a eleição. O governo Wagner entrou e paralisou as obras. Primeiro disse que o projeto era errado. O cidadão que fez o projeto por meio de uma licitação internacional é um dos homens mais conceituados do mundo na arquitetura. Quando o cidadão reagiu o governo mudou o discurso, não disse mais que tinha projeto errado. O governo poderia até querer fazer uma adaptação. Mas, a verdade é que já são quatro anos e meio.

O governo assume, hoje, publicamente que não tem interesse em construir esse centro de convenções. O que mudou? Mudou somente porque passou a ser governo? Ah, é porque o centro de convenções só traz prejuízo para o estado. Mas, o estado é para ter lucro com isso? O estado não é para fazer a solução dos problemas da sociedade? O estado é para ter somente empreendimentos que lhe dê superávit? Eu não entendo isso.

Sei que há muito tempo vem se tentando terceirizar o centro de convenções de Salvador parece que nunca conseguiram, a mesma coisa com o de Porto Seguro e o de Ilhéus. Mas, eu pergunto: Feira de Santana é como São Paulo. Você vai a São Paulo para quê? Vai a São Paulo para negócios. Quem vem a Feira de Santana é para quê? É para negócios. Qual a cidade que tem uma grande ocupação hoteleira? São Paulo. Por quê? Porque ela proporciona grande encontros culturais, empresariais, da medicina e assim sucessivamente.

Então, essas pessoas vêm de várias partes e ocupam os hotéis. Consequentemente, ocupam os bares, os restaurantes, os táxis e ganha todo mundo ganha dinheiro e gera renda, dinheiro, dividendos.

Quando se idealizou o centro de convenções em Feira foi com essa mesma linha, atrair para Feira congressos para os hotéis, restaurantes, dentre outros ficarem cheios. Pessoas da oposição, que hoje são governo viviam criticando o aeroporto de Feira de Santana e, hoje, o governo do estado está brigando com IBAMA para fazer mais uma pista no aeroporto de Salvador porque não quer fazer uma aqui em Feira de Santana.

Então, eu acho que é um discurso quando se está na oposição e é um discurso quando se está na situação. Eu sempre defendi o centro de convenções no meu governo e sempre foi continuar a defendê-lo.

JGB – O deputado federal ACM Neto, colocou-se recentemente como pré-candidato a Prefeitura Municipal de Salvador. O senhor acredita que ele tem chance?

José Ronaldo – Claro que sim. ACM disputou a eleição em 2008 e teve uma votação expressiva, uma votação semelhante à de João Henrique (PP) e Pinheiro (PT), que foram para o segundo turno com 30% dos votos, sendo que Neto teve 29% dos votos.

Se ele tivesse ido poderia até não ter sido vitorioso, mas somente esse fato já dava a ele uma representatividade expressiva. Ele foi candidato federal e foi o candidato federal mais votado em Salvador.

É jovem, tem um bom discurso e eu acho que se ele transitar bem pela cidade de Salvador tem grandes chances de obter êxito nessas eleições.

JGB – Independente da reforma política o senhor continua no Democratas?

José Ronaldo – Eu continuo no partido, estou no partido e não tenho essa ideia de sair. Agora, estou conversando com vários partidos políticos, com várias pessoas com quem tenho um relacionamento respeitoso. Estou ouvindo muitas pessoas que me apoiam, as pessoas que militam na política.

Em agosto, nós vamos nos reunir e trocarmos uma ideia final. Mas, na minha cabeça não tem a ideia de mudar de partido.

JGB – E o senhor pretende sair candidato a prefeito de Feira de Santana?

José Ronaldo – As pessoas falam e comentam muito isso. As pessoas nas ruas, nos eventos, o pessoal da imprensa comentam muito essa questão. Eu sempre fui um militante político e continuo nesta militância e tem pessoas que por não terem esse estilo ao verem a gente se movimentando já enxergam esse tipo de coisa.

Mas, a decisão mesmo de eleição e ser candidato, acredito só em março de 2012. Até lá terá muita conversa e diálogo. Quanto à questão da candidatura eu não vou ser candidato de mim mesmo. Às vezes, em que fui candidato, fui candidato de um grupo. Então, vamos ver o que acontece até março do ano que vem.

JGB – O ex-deputado federal, Colbert Martins, que hoje está num cargo federal, sempre manteve uma posição de oposição à sua pessoa em Feira de Santana. No entanto, hoje, existe um nível de diálogo. Isso pode gerar uma aliança?

José Ronaldo – Nós nunca fomos inimigos. Fomos adversários extremamente respeitosos. Nunca no período político nisso dirigi a ele uma palavra mais forte, sendo a recíproca verdadeira. Hoje, posso lhe afirmar que esse respeito é maior ainda.

Agora, não temos nenhum acordo para a sucessão. Mas, temos um bom diálogo.

JGB – Hipoteticamente, se o senhor retornasse a prefeitura de Feira de Santana qual grande obra o senhor faria para educação, saúde, transporte e moradia?

José Ronaldo – Quanto a essa questão foi lhe pedir desculpa e não vou falar agora porque se eu falar já vão dizer que eu estou falando como candidato.

JGB – Como o senhor avalia a administração de Tarcízio Pimenta?

José Ronaldo – Quando nós estávamos nos comunicando com maior frequência as pessoas me perguntavam e eu dava algumas opiniões a respeito. Porém, passou a existir uma certa distância nesse relacionamento, a gente tem se visto muito pouco e administrativamente há uma distância entre nós, o governo é totalmente conduzido por ele. Acho que ele tem todo o direito de fazer isso, afinal de contas foi eleito.

Não estou reclamando de nada, jamais fiz isso e jamais vou fazer. Mas, eu acho que se eu sou uma parte política em Feira de Santana e ele também não fica elegante de minha parte ficar dando este tipo de opinião.

Assim, ultimamente, quando me fazem esse tipo de pergunta eu peço para não entrar nessas entrelinhas. Quem vai julgar a administração dele não sou eu é o povo.

JGB – Recentemente, na imprensa feirense houve um ruído. Publicou-se que Tarcízio fez determinados comentários sobre o senhor, sendo que depois ele desmentiu. Assim, de modo direto, existe ou não um distanciamento? Existe ou não uma ruptura entre o senhor e Tarcízio?

José Ronaldo – Existe sim, um distanciamento.

JGB – No período em que o senhor foi eleito fizemos críticas sobre as obras no anel de contorno, pois acreditávamos que melhores obras poderiam ser feitas. O fato é que depois disso não se fez mais nada, apesar do presidente Lula ter prometido essa duplicação tão necessária. Como o senhor vê essa questão?

José Ronaldo – Houve duas oportunidades. Na inauguração da Pirelli tive a felicidade de ser um dos oradores e pedi ao presidente Lula a duplicação do nosso contorno. Ele pediu um projeto, existia um projeto que não era 100% duplicação, mas que melhoraria de forma muito grande a questão do contorno em Feira de Santana, especialmente, entre o Clube Campo Cajueiro e a Cidade Nova.

Nós fomos à Brasília e entregamos pessoalmente o projeto ao presidente em audiência, ao lado de Paulo Souto e isso não saiu, não foi para lugar nenhum, não teve sucesso.

Depois na inauguração da Nestlé eu tornei a solicitar, mais uma vez se disse que ia lutar por isso, mais uma vez não aconteceu.

Esse trecho entre o Clube Campo Cajueiro e a Pousada da Feira passando pelo bairro Tomba, faz parte da privatização da BR 324. A empresa Via Bahia, que explora o serviço tem a obrigação de fazer esse trecho, dentro da privatização.

Então, o governo tirou da sua responsabilidade e colocou a responsabilidade no contrato da Via Bahia. A Via Bahia tem um período de tempo para fazer isso, como ela também tem um período de tempo para fazer uma terceira pista na estrada Feira-Salvador. Essas são obras que fazem parte deste contrato com a Via Bahia. Acredito que isso deverá sair, só não sei dizer quando.

JGB – Ao falar sobre pedágios o JGB tem uma posição que é contrária a questão do pedágio no Brasil por várias questões. Mas, e quanto ao senhor qual sua posição sobre os pedágios?

José Ronaldo – Eu sempre fui contra. Sempre defendi a bandeira contra o pedágio. Aliás, como candidato ao Senado eu lembro que gravei um programa na BR 324 perto do local de pedágio, dando a minha opinião contra. E se eu fosse senador estaria na comissão de defesa do consumidor, lutando contra essa questão dos pedágios, que aliás o governo também está implantando nas rodovias que ligam Salvador ao polo de Camaçari.

José Ronaldo de Carvalho sobre Tarcízio Pimenta: Quem vai julgar a administração dele não sou eu é o povo.
José Ronaldo de Carvalho sobre Tarcízio Pimenta: Quem vai julgar a administração dele não sou eu é o povo.
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Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).