Realeza do Açúcar | Por Aloisio Vilela de Vasconcelos

Não é de hoje que leigos e especialistas falam sobre os males causados pela doce, mas econômica e socialmente amarga cana-de-açúcar.

Amarga porque é muito difícil olhar para um canavial sem visualizar o engenho, a brutal figura de seu senhor, a infame senzala, o dantesco tratamento oferecido aos escravos, a constatação da absoluta predominância da matéria-prima de onde se extrai o ouro-branco, o controle da economia do nosso Estado por mais ou menos vinte e três famílias e a criação da intocável realeza do açúcar.

Muito tempo nos separa dos idos coloniais. De lá para cá, paradoxalmente, os canaviais se tornaram mais numerosos e os engenhos desapareceram, pois foram substituídos pelas usinas.

Ontem era o Senhor de Engenho em seu cavalo, o feitor com seu chicote e o negro na palha da cana. Hoje é o usineiro em seu jatinho olhando seus canaviais, os administradores e, na palha da cana, não há distinção de cor. Ontem, os Senhores de Engenho marcavam seus escravos com atrozes castigos. Hoje, os usineiros deixam profundas cicatrizes nos trabalhadores pagando por sua estafante atividade um ridículo salário.

O que, então, ganharam os moradores das regiões onde as usinas se instalaram?

Enquanto a realeza do açúcar farra com wisk selo viking e degusta vinho safra “Rei Sol” em hotéis mil e uma estrelas, eles ganharam um trabalho parecido com a escravidão, o direito de viver numa pobreza que beira a miséria e de não ter um palmo sequer de terra para sepultar seus anônimos, mas sagrados ossos.

Além do mais, quem passar pelas regiões canavieiras verá um oceano de seres humanos destituídos de toda e qualquer esperança, com uma foice na mão, não para lutar contra aqueles que os mantêm em tão lastimável situação (que seria o certo), mas para, cansados e esfomeados, enfrentar a palha da cana ou como animal que espera a hora de ser levado para o matadouro na beira do asfalto, aguardar o transporte que o levará para seu casebre situado no mutirão (melhor seria chamá-lo de senzala) onde, em vez de descanso, encontrará mais dor, sofrimento e desespero por saber que não passa de um lúgrebe fantasma que vaga sem rumo na escuridão da noite, pois para ele não há luz no fim do túnel.

Foi Octávio Brandão em “Ao Trabalhador de Enxada”, quem denunciou o abandono e pregou a liberdade (revolta armada) para os que possuem tão triste sina, lamentável fadário e doloroso estigma.

Octávio Brandão! Ó, Filho Exilado! Ó, Ancestral de meus Ancestrais! Ó, Ermitão da Saudade! Se “neste País existe uma Pátria”, onde está a Pátria?

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