Alemanha celebra 200 anos de morte do poeta e dramaturgo Heinrich von Kleist

Museu Kleist em Frankfurt do Oder se prepara para o bicentenário.
Museu Kleist em Frankfurt do Oder se prepara para o bicentenário.
Museu Kleist em Frankfurt do Oder se prepara para o bicentenário

Ser humano torturado, ignorado como autor durante a vida, Kleist é hoje aclamado como um dos mais importantes clássicos da literatura de língua germânica. E é pioneiro do Modernismo, no radicalismo de sua obra. 

O Ano Kleist começou nesta sexta-feira (04/03/2011) em Frankfurt do Oder, cidade natal do autor. Juntamente com o governador do estado de Brandemburgo, Matthias Platzeck, o ministro alemão da Cultura, Bernd Neumann, fez um discurso solene na sala de concertos local.

Antes, Neumann prestigiou o início oficial das obras de ampliação do Museu Kleist na cidade. Com custo de 5,4 milhões de euros, a partir de 2013 as novas dependências oferecerão mais espaço para exposições e para o acervo.
Dignidade recuperada
O local onde Heinrich von Kleist (1777-1811) foi enterrado, 200 anos atrás, nas proximidades do lago Kleiner Wannsee, em Berlim, se encontra negligenciado há décadas. Assim, a Fundação Cultural Cornelsen disponibilizará 500 mil euros não só para restaurar a sepultura, como também para contextualizar as modificações introduzidas durante o regime nazista.
Além de documentar a trajetória do autor que cometeu suicídio em 21 de novembro de 1811, placas informativas explicarão, por exemplo, o porquê da atual lápide. Em 1941, o governo nacional-socialista substitui o epitáfio original – “Ele viveu, cantou e sofreu / em tempos tristes e pesados, / procurou aqui a morte / e encontrou a imortalidade” – por uma citação da peça de Kleist O príncipe de Homburg: “Agora, ó imortalidade, és toda minha”.
“É uma forma condizente de lidar com esse legado da política cultural nazista e suas tentativas de instrumentalizar Heinrich von Kleist ideologicamente”, justifica o secretário de Cultura da capital alemã, André Schmitz. A seu ver, “o presente estado do túmulo de forma alguma faz jus ao significado de Kleist”.
Companheira de morte
Somente desde 2003 consta do sítio fúnebre também uma lápide para Henriette Vogel, última companheira de Kleist. Apesar de casada com outro homem e de deixar uma filha pequena, aos 31 anos a paciente terminal de câncer se deixou convencer pelo poeta, fortemente depressivo, e optou por acompanhá-lo na morte.
Como relatariam mais tarde empregados da hospedaria Stimmings Krug, no Kleiner Wannsee, naquele frio dia de outono, o casal se mostrava eufórico, e pediu que lhes fossem servidos café e rum à beira do lago. Uma das testemunhas ainda os viu brincando de “pega-pega” ao longo da margem, como duas crianças.
A certo ponto, ouviram-se dois tiros. Ajoelhados um diante do outro, Kleist disparara sua pistola contra o peito de Henriette, antes de atirar na própria boca. O casal foi enterrado no local mesmo do ato último, já que os costumes da época vedavam terminantemente aos suicidas o sepultamento em campo santo.
Não se pode classificar o duplo suicídio como um ato romântico. Ambos haviam se conhecido pouco antes: Vogel queria libertar-se do sofrimento da doença; Kleist buscava, acima de tudo, companhia feminina para uma morte longamente anunciada. Ele já chegara a abordar outras mulheres suas conhecidas para esse fim, as quais declinaram do “privilégio”.
A rigor, desde um noivado frustrado com Wilhelmine von Zenge, o conturbado literato desprezava as mulheres. E estava longe de ser um bom partido. Na véspera de seu suicídio, era desconhecido do público leitor, estava financeiramente arruinado e amargava uma decepção com a Prússia natal – da qual exigia uma revolta patriótica contra o invasor Napoleão Bonaparte.
Embora sempre o tendo apoiado psicológica e materialmente, até mesmo a família de seis irmãos e meios-irmãos via em Heinrich “um membro inútil da sociedade humana”.
Carreiras frustradas
Ignorado como artista durante a vida – em contraste com o superstar Johann Wolfgang von Goethe, o qual, no entanto, não deixou de tentar apoiá-lo –, Kleist é hoje aclamado tanto como um dos mais importantes clássicos da literatura de língua alemã, quanto como pioneiro do Modernismo, devido ao radicalismo de sua obra.
Filho de um oficial prussiano, ele nasceu na cidade de Frankfurt do Oder, presumivelmente em 10 de outubro de 1777. Já aos 14 anos de idade, entrou para o Exército, e tudo indicava que lá trilharia uma carreira brilhante, seguindo a tradição familiar.
Porém, o serviço militar e a experiência de guerra na região do Rio Reno o precipitam numa crise existencial. Ele pede dispensa e inicia a busca desesperada de um plano de vida, de sua “intimidade mais profunda”, como ele a definia. A obra que deixa a partir de 1802 é marcada por essa ânsia e insatisfação existencial. Entre seus pontos altos contam A bilha quebrada, A marquesa de O…, Michael Kohlhaas e o ensaio Sobre o teatro de marionetes.
Torturado por decepções profissionais e pessoais e pelas próprias inadequações, no ano de sua morte Kleist escreveria à prima Marie: “Minha alma está tão ferida que, eu quase diria, quando ponho o nariz para fora da janela, dói-me a luz que brilha sobre ele”.
Modernidade radical
Em contraste com o amargor egocêntrico que caracterizou a biografia do poeta e dramaturgo, a Sociedade Heinrich von Kleist, sediada há 50 anos em Berlim, afirma ver seus protagonistas “livres da introversão e ruminação alemãs. Eles agem e fracassam diante da realidade, e isso torna suas obras tão atraentes para os leitores de todo o mundo, até hoje”.
Em 2011, o berlinense Maxim Gorki Theater encenará todos os oito dramas de Kleist. Seu diretor geral, Armin Petras, define o dramaturgo como uma figura moderna, fragmentada. “Esse tipo de biografia despedaçada – sempre começar algo de novo, fracassar e tentar a próxima coisa – é, de fato, algo que de súbito ganha uma nova virulência em nossa época.”
“Ele vivia num estado de constante radicalismo”, sentencia Peter Michalzik, cuja biografia de Kleist tem lançamento previsto para meados deste mês. O jornalista Ulrich Greiner escreve para o jornal Die Zeit: “O que há de especial no gênio de Kleist é a violência tornada linguagem”.
*Por Deutsche Welle
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