Respeito à natureza | Por Emiliano José

Jornal Grande Bahia, compromisso em informar.
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Diante da tragédia que envolveu o Sudeste e o Sul, e de modo especialmente trágico a região serrana do Rio de Janeiro, fala-se na surpresa das catástrofes naturais, como se não tivéssemos já alcançado um conhecimento suficiente da dinâmica da natureza para encontrar os caminhos que evitem tantas mortes e tanta destruição. É verdadeiro dizer, nesses episódios, que todos pagam. Mas é inegável que o preço mais alto, em todos os sentidos, em vidas inclusive, é pago pelos mais pobres.

Sair desse quase círculo vicioso implicará em medidas políticas de profundidade, muito maiores do que as que vêm sendo tomadas até agora, medidas destinadas antes de tudo a encarar o desafio urbano no Brasil de outra forma. As cidades, no Brasil, ao longo dessas décadas de ingresso na industrialização acelerada e na conseqüente urbanização veloz e impiedosa, têm se constituído de acordo muito mais com a lógica da acumulação do capital do que com os interesses das maiorias. O governo Lula, e seguramente agora o governo Dilma seguirá nessa linha, começou a enfrentar o problema da habitação e do saneamento, mas há ainda um longo caminho a percorrer.

Os pobres não podem continuar a ser empurrados para os morros, impiedosamente, ou para a beira dos rios ou riachos, ou para terrenos alagadiços, para encostas deslizantes. Eles não escolhem os riscos, não gostam de morar à beira do precipício. O que ocorre é que normalmente não têm outra alternativa. Os investimentos imobiliários desenvolvem-se numa dinâmica cega, e desenvolvem-se assim porque não há controle das autoridades municipais, não há planos diretores sérios, e essa dinâmica necessariamente constrange os mais pobres a procurar mais e mais as periferias, independentemente de tais periferias terem ou não condições ambientais, sanitárias e de segurança para recebê-los. O Estatuto das Cidades, um instrumento tão importante para uma convivência urbana civilizada, quase que invariavelmente é ignorado, e quem vive em Salvador sabe do que estou falando.

Para além disso, e o sábio Leonardo Boff tem nos alertado quanto a isso, é absolutamente essencial que qualquer projeto de desenvolvimento, e aqui nos referimos à realidade urbana especialmente, leve em conta que a natureza não pode ser tratada como historicamente vem sendo no Brasil. Creio que nos últimos oito anos começamos a elaborar um novo sentido de cuidados com o meio ambiente, começamos a pensar um modelo de desenvolvimento sustentável.

Mas há uma luta contínua entre uma noção de progresso que encara a natureza de modo simplesmente instrumental, a serviço sempre, usemos o jargão antigo, do desenvolvimento das forças produtivas, pague-se o preço que se pagar, e um outro, que pensa a importância de preservá-la em favor não só dela mesma, mas também do ser humano. E não só da preservação do gênero humano a longo prazo, mas para evitar que a natureza, tão agredida e desrespeitada, se movimente, com sua lógica própria, e cause tantas vítimas, como agora no Brasil.

Está muito certo o nosso Leonardo Boff quando nos ensina, face à catástrofe recente, que o que se impõe agora é escutar a natureza, fazer obras preventivas que respeitem o modo de ser de cada encosta, de cada vale e de cada rio. Não podemos continuar a cultivar uma noção de progresso tão violenta que sempre quer retirar tudo da natureza como se à frente não houvesse conseqüências trágicas.

Assim, toda obra, qualquer que seja, deve levar em conta, e muito mais seriamente, as conseqüências para o meio ambiente. O pensamento produtivista, hegemônico em muitos executivos, que pretende a obra realizada a toque de caixa, sem considerações em relação à natureza, é equivocado, e só pode conduzir a tragédias semelhantes à da região serrana do Rio de Janeiro.

A expansão das cidades, a verticalização, os programas habitacionais, o saneamento, os rios, riachos, as lagoas, as encostas, as áreas verdes dos aglomerados urbanos têm que ser olhados como uma coisa só. O ser humano, para bem viver, terá que se harmonizar novamente com a natureza. Ou continuar a devastação e sofrer as conseqüências.

*Por Emiliano José

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