Festival de Cinema de Berlim confirma predileção por temas incômodos

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“OK” de Verhoeven e “O franco atirador” de Cimino confrontaram, no passado, o Festival de Cinema de Berlim com sua opção pela reflexão, em detrimento do glamour hollywoodiano. Uma vocação que perdura, 61 anos depois.

O Festival Internacional de Cinema de Berlim, conhecido dentro do país como Berlinale, inicia sua versão de 2011 sob o signo do protesto pelos direitos humanos. Apesar de encontrar-se preso em seu país, por suas críticas ao sistema, o diretor iraniano Jafar Panahi foi designado como jurado. Sua cadeira permanecerá vazia, porém sua obra cinematográfica será celebrada numa mostra exclusiva.

Desde quando foi fundado, em 1950, o festival tem sido também uma questão política. Sua função não era apenas trazer brilho e glamour à quase totalmente destruída Berlim Ocidental: seu fundador, o “oficial de cinema” norte-americano Oscar Martay, também concebeu o evento como “vitrine do mundo livre” na Alemanha Oriental, em pleno bloco comunista.

Após as confrontações iniciais, a Berlinale se transformou gradativamente em um ponto de encontro entre Leste e Oeste. Um perfil que se dissolveu, até certo ponto, após a queda do Muro de Berlim e o colapso do comunismo soviético.

Opção pelo político

Ainda assim, a reflexão sociopolítica permaneceu marca registrada do festival, hoje em sua 61ª edição. Já no final da década de 1960, a Berlinale se despedia definitivamente de qualquer pretensão a ser um evento cheio de glamour, e a guinada em direção à crítica política não transcorreu sem atritos.

Como o desencadeado em 1970 por OK, de Michael Verhoeven, incluído na mostra competitiva. Nele, um soldado tentava em vão denunciar a seus superiores o estupro e assassinato de uma cidadã civil.

O presidente do júri e outras personagens exigiam que a produção fosse retirada da competição, alegando antiamericanismo. Em reação, os cinemas onde estreou foram ocupados, numerosos realizadores protestaram, o júri renunciou e a Berlinale teve que ser interrompida.

Esse foi o impulso inicial para uma reforma do festival. No ano seguinte, era introduzido o Fórum Internacional do Cinema Jovem (Forum), que até hoje se dedica ao cinema de autor não convencional.

Com a política de distensão do chanceler federal Willy Brandt, a relação entre o Ocidente e o Leste da Europa melhorou. Em 1974 era exibida pelo festival, pela primeira vez, uma produção soviética; no ano seguinte, mais uma da Alemanha Oriental.

Em 1979, uma nova polêmica: na opinião da delegação soviética, o filme O franco atirador (The deer hunter), de Michael Cimino, ofendia em certas cenas o povo vietnamita. Diversos países do bloco soviético reagiram abandonando o festival.

Apesar de tais incidentes, a Berlinale manteve seu perfil, defendendo até hoje a liberdade religiosa e formas de vida alternativas. A seção Panorama, por exemplo, tem entre seus pontos fortes a abordagem de temáticas homossexuais.

Cinema gay e jovens talentos

Em 2011, o Teddy Award, o mais antigo prêmio do cinema gay do mundo, será entregue pela 25ª vez. O organizador do Panorama, Wieland Speck, considera importante tematizar a situação dos homossexuais em todo o mundo, também nos países islâmicos.

“Tivemos a sorte de, logo no primeiro ano do Teddy, premiar dois cineastas que ninguém conhecia por aqui: Pedro Almodóvar e Gus van Sant, que mais tarde se tornariam astros internacionais.” Hoje, prossegue Speck, essa ênfase constante no filme de temática queer é um dos motivos pelos quais milhares de espectadores de todo o mundo vêm para a capital alemã.

Por sua vez, a academia Talent Campus se ocupa das novas gerações de realizadores. Durante uma semana, cerca de 350 jovens profissionais e estudantes de cinema de todo o mundo têm a possibilidade de aprender com mestres das diferentes áreas cinematográficas, em oficinas, palestras e debates.

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