Chamem a Globo a falência do poder público | Por Alberto Dines

Jornal Grande Bahia, compromisso em informar.
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Ao longo dos quase 13 anos da versão televisiva do Observatório da Imprensa, este observador tornou-se também testemunha semanal da degradação do nosso transporte aéreo e acompanhou de perto todas as versões do CAB, o Caos Aéreo Brasileiro. Algumas trágicas, outras estressantes, outras kafkianas.

Como a de segunda-feira (24/1), no aeroporto dos Guararapes, Recife. Às 10 horas, o check-in estava suspenso porque “o sistema” estava em pane. Diante do número de passageiros enchendo o saguão, a TAM decidiu emitir os bilhetes manualmente, sem reserva de assentos, indicação de horário ou portão. A manada poderia estourar.

Como nem a Infraero nem a Anac se preocupam em atender as determinações do ministro da Defesa para manter os cidadãos-viajantes devidamente informados a respeito de alterações nos embarques, as centenas de passageiros começaram a se impacientar. A presença de uma equipe de reportagem da TV Globo local obrigou as autoridades a agir com mais celeridade porque o clima tendia a ficar tenso.

Protesto midiático

Procurou-se embarcar os passageiros o mais rapidamente possível porque as câmeras de TV têm o mágico poder de exacerbar os ânimos. Este observador foi embarcado no vôo 4733 com destino a Guarulhos, São Paulo. Todos devidamente sentados, começa um vai-e-vem de funcionários esbaforidos correndo pela pista e levando uma papelada para a cabine de comando. O comandante finalmente explica aos passageiros que espera o cumprimento de uma formalidade, os documentos de vôo. A equipe de cabine começa a oferecer copos de água, gentileza inusitada e inútil porque já passaram 30, 60, 90, 120 minutos e nada de fechar as portas e ligar as turbinas.

O comandante, então, dá o ar de sua graça para explicar que a tripulação não pode ficar mais tempo no avião – o vôo será suspenso porque os tais documentos de vôo não haviam chegado por causa da pane “do sistema”.

Depois de duas horas dentro do avião parado na pista, os 200 passageiros são reconduzidos à sala de embarque. Crianças berram, idosos gemem, os ânimos agora estão visivelmente exaltados. O funcionário da TAM, desarvorado, só piora a situação porque não sabe o que dizer nem que providência será tomada.

Então, uma voz furiosa grita – “chamem a Globo!” – e todos começam a repetir: “Chamem a Globo!”, “chamem a Globo!”. O Ibope deveria estar ali para conferir. Chamar a Globo naquelas circunstâncias significava protestar, ser ouvido. Aquela gente maltratada pela inépcia queria botar a boca no trombone, protestar, defender os seus direitos.

Aplausos entusiásticos

Ninguém gritou pelo Procon, Ministério Público, Infraero ou Anac. O poder público evaporara-se. Estavam todos nas mãos do duopólio TAM-Gol que tornou um inferno os sonhos de Santos Dumont.

Este observador não chamaria a Globo. Prefere lembrar à presidente da República que em 2007, quando ainda era ministra-chefe da Casa Civil, decidiu entregar o que restara da gloriosa Varig “às forças do mercado”. O governo, explicou então Dilma Rousseff, não era um hospital de empresas falidas. A Globo, como de resto a mídia, aplaudiu entusiasmada a decisão do governo de não intervir no processo econômico.

O vôo 4733 transformado em 9355 chegou a Guarulhos na madrugada do dia seguinte, mais de 10 horas depois do previsto. Algumas inocentes perguntinhas no balcão esclareceram o abuso: o avião era da TAM, mas não o vôo – alocado a uma subsidiária, a Pantanal, empresa regional com menos competência do que a matriz. A situação era irregular e não pôde ser corrigida porque “o sistema” estivera em pane. Os direitos da tripulação foram respeitados, não os dos que pagaram suas passagens.

*Por Alberto Dines.

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