2010 algumas (re)lembranças… | Por Diego Almeida

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Estamos nos primeiros dias de 2011, porém ainda é comum trocarmos o 2011 por 2010 nas marcações da data, as referências ao ano anterior até o momento soam no presente como se o ano de 2010 não tivesse findado. Aproveito, então, essa deixa ou ocasião para (re)lembrar e questionar junto aos caros leitores alguns fatos marcantes do ano passado.

O primeiro fato refere-se ao tremor de terra que ocorreu no dia 12 de janeiro de 2010 no Haiti, país mais pobre das Américas em que aproximadamente 250 mil pessoas morreram e mais de 1 milhão de pessoas ficaram desabrigadas. Como de praxe foi recorrente durante os quinze primeiros dias após essa tragédia a intensa cobertura midiática. Porém, hoje, como estão às milhares de crianças órfãs daquele país? Ou qual a atual situação do Haiti?

De acordo com o relatório produzido pela Oxfam, organização de caridade internacional com sede no Reino Unido, após 01 ano da tragédia, menos de 5% dos destroços foram removidos, apenas 15% das casas necessárias foram construídos e ainda há poucas instalações permanentes de saneamento básico e fornecimento de água. Talvez, o Haiti seja relembrado, pelas autoridades e pela grande mídia no dia no próximo dia 12 de janeiro quando faz um ano que essa tragédia aconteceu.

Ainda tendo como referência as tragédias alguém sabe onde mora e como estão as vítimas do Morro do Bumba, em Niterói, construído sobre o lixo, que no dia 07 de abril de 2010 desmoronou deixando soterradas mais de 200 pessoas. Será que alguma autoridade foi responsabilizada e devidamente punida por tal fato? E quanto ao pior vazamento de petróleo da história ocorrido 22 de abril, no Golfo do México quem lembra? Neste caso qual a empresa responsável pelo desastre? Quais foram as medidas de reparo ao meio ambiente?

Onze mortes foram provocadas pelo acidente e quase 5 milhões de barris de petróleo derramados ao oceano. Segundo, Thomas Azwell, professor da Universidade de Berkeley que dirige um grupo de estudos independente sobre o desastre, o impacto do vazamento de óleo sobre o ecossistema vai durar pelo menos 50 anos, e o óleo vai permanecer aderido ao fundo do mar por cerca de uma década. Quanto a empresa britânica, BP, o Governo dos Estados Unidos prometeu impor à multinacional uma multa após o relatório final da comissão que investiga as causas do acidente.

Caro leitor, como é comum em todos os anos, foi recorrente o clamor por justiça e paz no ano de 2010. Começo pelo caso Nardoni. Alguém lembra? Ah! Esse é antigo começou no dia 29 de março de 2008 quando a menina Isabela Nardoni morreu e foi um dos best-sellers do noticiário midiático. Porém, o brado por justiça para este caso somente findou-se em 2010 quando o casal Nardoni foi condenado. O pai da menina, Alexandre Nardoni, recebeu pena de 31 anos, um mês e dez dias de prisão. A madrasta da criança, Anna Jatobá, foi condenada a 26 anos e oito meses. A pergunta aqui é? Quantos assassinatos não foram noticiados? Quantos clamores por justiça foram sufocados?

Continuo a perguntar: quem foi Alcides do Nascimento Lins? Esse é o primo pobre do caso Nardoni. Trata-se do estudante de medicina da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), filho de uma catadora de lixo, que foi assassinado em frente a casa onde morava com os seus familiares. Três meses após o crime um dos criminosos, menor de idade, já foi capturado. Mas, o outro acusado, João Guilherme Nunes da Costa, continua foragido.

O clamor por paz, em 2010, reverberou e os telespectadores puderam acompanhar cada ação da polícia por meio dos seus aparelhos de TV. Foram estas ações uma espécie de bônus para os admiradores do filme Tropa de Elite 2, que bateu recordes de audiência no cinema nacional. A operação policial feita no Complexo do Alemão foi positiva dada ao seu teor social. No entanto, a indagação a ser feita é: por que essa investida governamental, que integrou diferentes esferas policiais, somente ocorreu no ano de 2010 após tantas mortes de civis? A resposta, quiçá, esteja num futuro não tão distante, a Copa do Mundo, em 2014 e os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016.

E por falar em Copa do Mundo, 2010 foi um ano ilustre por sediar a primeira copa em um país do continente africano. Estabeleceu-se, então, uma relação metonímica. A África do Sul tornou-se a África e todos os olhos e lentes voltaram-se para ela. Foi visto, então, um país-continente da prosperidade, dos suntuosos estádios, da vuvuzela, da alegria e festividade. De modo tranquilo e cômodo esquecemos da África continental que tem fome, da África que possui o maior número de portadores do vírus HIV do mundo, das ditaduras que exploram, mutilam e matam várias pessoas no continente africano.

Extrapolando as fronteiras da África se percebe que o comodismo, mal que acomete grande parte da sociedade, vedou os nossos olhos, mentes e, até mesmo, as lentes midiáticas não nos permitindo lembrar os ataques de homens e mulheres bomba, os conflitos entre Israel e Palestina, as denúncias de pedofilia da Igreja Católica, a perseguição política dos Estados Unidos ao jornalista Julian Assange e ao site Wikileakes, a selvageria como no caso da iraniana Sakineh Astiani que por ter cometido adultério recebeu 99 chibatadas e foi condenada a morte por apedrejamento.

A sociedade cômoda citada acima deleita-se com os mega shows (a exemplo Beyoncé, Paul McCartney, Roberto Carlos); com o crescimento dos países emergentes, bem como o crescimento econômico do Brasil de 7,6% em 2010, com o avanço da ciência capaz de reproduzir o Big Bang, criar telescópios, descobrir a bactéria que se alimenta de veneno.

O ano de 2010 marcou pela esperança de que a espécie humana ainda é capaz de ser solidária e ajudar ao próprio homem. Faço referência, neste caso, ao reality-show do bem que ocorreu no Deserto do Atacama, Chile, em que 33 homens ficaram presos a 700 metros abaixo da terra e uniram-se em prol de um grande prêmio: a vida.

E mesmo diante dos acontecimentos já elencados, as praias e avenidas brasileiras e, até mesmo, mundiais estavam cheia de pessoas no último dia do ano de 2010, que conforme aduz Carlos Drummond, em Receita de Ano Novo, “parvamente acreditavam que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver”.

2011 chegou e com ele veio os discursos de posse dos governos e da presidência; os exorbitantes aumento de salário dos políticos; a cobrança do IPTU e IPVA; a esperança de um ano melhor. Porém, talvez, não exista receita de ano novo, não existam imagens que marquem, os discursos não sejam importantes, a mídia não informe à sociedade. Quiçá, isso tudo não exista [apóio-me, mais uma vez, em Drummond no poema já citado – adaptado] porque não percebemos que o Ano Novo não existe, ele é uma ação contínua e é, “dentro de cada um de nós que o Ano Novo cochila e espera desde sempre”.

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