Entrevista de Dilma Rousseff ao jornal Washington Post

A presidenta eleita do Brasil Dilma Roussef concedeu, neste domingo (05/12/2010), uma entrevista exclusiva ao jornal americano The Washington Post, um dos mais prestigiados do mundo. Foi a primeira entrevista concedida por Dilma a um veículo impresso desde a eleição.

Ela foi entrevista por Lally Weymouth, editor sênior da publicação, e falou do seu posicionamento sobre o Irã e das relações bilaterais com os Estados Unidos (Leia aqui a íntegra da entrevista em inglês).

Dilma também respondeu a perguntas sobre a guerra cambial internacional, com a desvalorização artificial de moedas como o dólar e o yuan chinês; política econômica brasileira e administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Por fim, Dilma falou sobre seus planos e prioridades para o Brasil dos próximos quatro anos e explicou o que significa para ela ser a primeira mulher presidenta do País.

A seguir alguns trechos da entrevista:

– Washington Post: Ter sido uma prisioneira política deu à senhora mais simpatia por outro prisioneiro político?

Dilma Rousseff – Não há dúvidas disso. Devido ao fato de que experimentei pessoalmente a situação de [ser] uma prisioneira política, tenho um compromisso histórico com todos aqueles que foram ou são prisioneiros unicamente porque expressaram seus pontos de vista, suas opiniões públicas, suas próprias opiniões.

WP – Então, isso irá afetar sua política em relação ao Irã, por exemplo? Por que o Brasil está apoiando um país que permite o apedrejamento de pessoas e aprisiona jornalistas?

DR – Creio que é necessário que façamos uma diferenciação sobre o que entendemos quando nos referimos ao Irã. Eu considero importante a estratégia de construção da paz no Oriente Médio. O que estamos vendo no Oriente Médio é a bancarrota da política – da política de guerra. Estamos falando sobre o Afeganistão e o desastre da invasão do Iraque. Nós não conseguimos construir a paz, nem conseguimos resolver os problemas do Iraque. O Iraque está hoje em guerra civil. Todos os dias soldados dos dois lados morrem. Tentar construir a paz sem tem quer ir à guerra é o melhor caminho. Eu não endosso o apedrejamento. Eu não concordo com as práticas que têm características medievais para as mulheres.

WP – Brasil se absteve de votar em uma recente resolução de Direitos Humanos?

DR – Eu [ainda] não sou presidente do Brasil, mas me sentiria desconfortável com uma mulher presidenta eleita se não dissesse nada contra o apedrejamento. Minha posição não vai mudar quando estiver atuando. Eu não concordo com o voto do Brasil. Essa não é minha posição.

Relação Brasil-Irã e Brasil-EUA

DR – Considero o relacionamento com os Estados Unidos muito importante para o Brasil. Eu vou tentar estreitar os laços com os Estados Unidos. Eu tive grande admiração pela eleição do presidente Obama. Acredito que os Estados Unidos tem uma grande contribuição para dar ao mundo. E, acima de tudo, acredito que Brasil e Estados Unidos têm um trabalho a ser realizado em conjunto no mundo. Por exemplo, temos um grande potencial para trabalhar juntos na África, porque na África nós podemos construir um relação que torne possível a disponibilização de tecnologias para a agricultura, produção de biocombustíveis e ajuda humanitária em diversos campos.

Guerra mundial do câmbio

DR – A política de desvalorização do dólar tem efeitos em nosso comércio exterior e também na desvalorização de nossas reservas cambiais, que são em dólar. Para nós, uma política de enfraquecimento do dólar não é compatível com o papel dos Estados Unidos, devido ao fato de a moeda americana servir como uma reserva internacional. E uma política de desvalorização sistemática do dólar pode provocar reações de protecionismo, que nunca é uma boa política a ser seguida.

Política econômica

DR – Não há jeito de cortar as taxas de juros sem reduzir déficit fiscal. Estamos alerta. Nós temos um objetivo na cabeça: que nossas taxas de juros sejam convergentes com as internacionais. Para conseguir chegar lá, uma das questões de maior importância é reduzir a dívida pública. Outra questão importante é melhorar a competitividade dos setores industriais e agrícolas. Também é muito importante que o Brasil racionalize seu sistema de impostos.

WP – Para puxar os juros para baixo é necessário cortar as despesas ou aumentar a poupança doméstica.

DR – Não se pode esquecer do crescimento econômico. Temos que combinar diversos fatores.

WP – Qual o seu plano?

DR – Meu plano é continuar a trajetória que nós seguimos até hoje. Nós conseguimos reduzir nossa dívida de 60% para abaixo de 42%. Nosso objetivo é alcançar 30% de nosso PIB. Eu preciso racionalizar meus gastos e, ao mesmo tempo, ter um aumento de nosso Produto Interno Bruto (PIB), que vai levar o País para frente.

Sobre a Administração Lula

WP – A senhora é próxima do presidente Lula. A senhora vai apenas continuar a administração dele?

DR – Eu acredito que minha administração vai ser diferente da do presidente Lula. A administração do presidente Lula, [da qual] eu fiz parte, construiu a base para que eu possa avançar. Não irei repetir sua administração porque a situação no País hoje é muito melhor do que em 2002. Existem programas em curso no governo que eu ajudei a desenvolver, como o Minha Casa, Minha Vida…  Meus desafios são outros. Terei que resolver questões como a qualidade da saúde pública no Brasil. Eu terei que criar soluções que a questão da segurança pública.

Infraestrutura

DR – O Brasil ficou mais de 30 anos sem investir em infraestrutura. A administração de Lula começou a mudar isso. Eu tenho que resolver a questão das estradas, da malha ferroviária, das rodovias, dos portos e dos aeroportos. Mas existe uma boa notícia: nós descobrimos petróleo em águas profundas.

WP – A senhora está sugerindo que a descoberta irá financiar a infraestrutura?

DR – Nós criamos um fundo social em que uma parte dos recursos provenientes do óleo encontrado vai ser investido em Educação, Saúde, ciência e tecnologia.

Copa do Mundo

WP – A senhora tem que preparar o País para o Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos.

DR – Sim, mas eu também um outro compromisso, que é o de acabar com a pobreza extrema no Brasil. Nós temos ainda 14 milhões na pobreza. Este é o meu maior desafio.

WP – Todos os homens de negócios que encontrei em São Paulo disseram que precisam estar muito bem preparados para encontrar com a senhora, porque a senhora está familiarizada com a maioria dos projetos.

DR – Sim, isso é verdade. Eu acho que isso é uma característica feminina. Nós gostamos dos detalhes. Eles não.

WP – O que significa para a senhora ser a primeira mulher presidente do Brasil?

DR – Ainda penso que é surpreendente.

WP – Quando a senhora decidiu que queria ser presidente?

DR – Isso foi um processo. Não há data. Eu comecei trabalhando com o presidente Lula e ele começou a me dar algumas sugestões para eu chegar a presidente, mas ele não era claro no começo. Isso foi uma grande honra para mim, mas eu não esperava por isso.

WP – A senhora recentemente lutou contra o câncer.

DR – Sim, mas eu acredito ter conseguido lidar bem com ele. As pessoas têm que saber que o câncer pode ser curado. Quanto mais cedo ele é descoberto, maiores são as possibilidade de uma cura. É por isso que a prevenção é importante. Eu acredito que o Brasil está preparado para eleger uma mulher. Por quê? Porque a mulheres brasileiras atingiram esse estado. Eu não chegaria aqui por mim mesma, pelo meus próprios méritos. Nós somos a maioria aqui nesse País.

Compartilhe e Comente

Redes sociais do JGB

Publicidade

Faça uma doação ao JGB

Perfil do Autor

Redação
O Jornal Grande Bahia (JGB) é um portal de notícias com sede em Feira de Santana e abrange as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: [email protected]