Troquemos de chip | Por José Carlos García Fajardo

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Durante a Idade Média, a humanidade vivia alienada pelo pensamento mágico-religioso que, segundo algumas interpretações, negava a liberdade e a responsabilidade das pessoas submetidas à ditadura das castas e dos privilégios feudais. O Renascimento e o Iluminismo vieram em resgate dos seres humanos em nome da Razão, mas seus sonhos produziram monstros cristalizados em concepções de vida desumanas por serem totalitárias. O pensamento único expressa a lógica calvinista que confunde progresso com desenvolvimento.

Enquanto o progresso tem como protagonista o ser humano, o desenvolvimento é mecânico e seu objetivo são os benefícios. “Quanto mais, melhor”. O progresso é sempre à medida da pessoa que caminha, dá passos, pro-gressus. “Quanto melhor, mais”. Sem a consciência da liberdade e a dimensão social, não há progresso algum.

Nem o crescimento econômico, nem o desenvolvimento material, nem a riqueza, nem a industrialização ou inovações tecnológicas fazem sentido à margem da comunidade.

Não entendem como a rentabilidade possa protagonizar uma atividade se não é em benefício da sociedade, não só de alguns privilegiados.

O fundamentalismo calvinista que deu origem ao capitalismo, fez do ser humano um objeto produtor cuja atividade era a obtenção de benefícios. Chegou-se à monstruosidade de assumir que “vivemos para trabalhar”. Como nossa salvação eterna dependia da Providência, era preciso que esta nos encontrasse trabalhando, economizando, produzindo – sem deixar espaço para o sossego, a recreação ou a arte, à qual puseram preço. Nas “Ordonnances sur le régime du peuple de Génève”, Calvino afirma que os sinais de predestinação são a engenhosidade, o trabalho e o ascetismo mundano; que serão o meio para alcançar a salvação. Rir era delito. O pai de Rousseau tinha sido condenado por ensinar dança. Condenaram o ócio e idolatraram o “nec-otium”.

O lucro econômico, condenado por Tomás de Aquino e por Aristóteles, tornou-se a chave do sentido de uma vida organizada para alcançar a perfeição. Sanciona-se religiosamente a necessidade do capital e da banca, a bondade do empréstimo e do crédito, assim como o benefício que excedesse toda estrita necessidade. Governa a máxima “orar é trabalhar”.

Pensando que somos livres, vivemos acorrentados pelo pensamento mítico da produtividade, do triunfo e da vitória sobre os demais. A competitividade tirou o lugar da competência.

O individualismo mais atroz nos desarraigou de nossos sinais de identidade como pessoas. Fazem-nos esquecer de que vivemos para sermos felizes; único sentido da existência.

Sermos nós mesmos em relação aos outros parece obsceno, porque as pautas do mercado estabelecem que – pensar, atrever-se, discernir, sair do ciclo de consumidores aprisionados – é pecado.

O fim justifica os meios e a guerra é o instrumento lógico dessa idolatria. É preciso trocar de chip. Organizar a resistência e nos rebelarmos. Denunciar a injustiça social e tirar do poder aqueles que o detém. Não é viável um modelo baseado em armas, na explotação de recursos e na desumanização. Uma sociedade global, que nos reconhecemos como vizinhos responsáveis, só pode estar fundamentada na solidariedade.

*Por José Carlos García Fajardo

 

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