Os primeiros passos do fotojornalismo | Por Gustavo Rozario Santana

Câmeras e lentes fotográficas da marca Canon.

Câmeras e lentes fotográficas da marca Canon.

O caráter comercial da fotografia foi conquistado na década de 40 do século 19 com as ilustrações fotográficas. E logo é notada a possibilidade de sua utilização como material jornalístico, pela sua função testemunhal. As imagens eram reproduções feitas a partir de fotografias e é na Europa que as ilustrações tomam corpo e chamam a atenção do público. Os eventos públicos passam a ser ilustrados, como o tratado de paz entre a França e a China, em 1843, e em 1846 ocorre a primeira cobertura de guerra (com o uso do daguerreótipo), no conflito entre americanos e mexicanos, primeiro grande tema para o fotojornalismo.

Os primeiros anos de experiência do fotojornalismo, no final do século 19, foram fundamentais para a constituição desta profissão e o reconhecimento de sua importância; a concepção de autoria de imagens, permitindo ensaios e documentários fotográficos, desenvolvimento da atuação destes profissionais como freelancer, a perda da privacidade com as “fotos-flagrantes”, a consciência do momento certo para fotografar, por conta das dificuldades que ainda havia no manejo dos equipamentos e a percepção da fotografia como jornalismo.

Apesar do atraso de mais de vinte anos em relação ao aparecimento das imagens técnicas nas revistas, com a ebulição cultural na Alemanha, em 1920, é que as imagens ganhariam força e funcionariam como representação dos acontecimentos. Ou seja, apresentariam relação entre a palavra e a imagem, possibilitando a construção narrativa dos fatos.

Os olhos do mundo

Para falar de comercialização de imagens, invariavelmente é necessário evocar Erich Salomon (1928-1933), um dos primeiros fotógrafos freelancer que, com uma câmera escondida, fotografou um tribunal (1928), vendeu as fotos para a Berliner Illustriertee depois trabalhou para Ullstein (1895). Salomon, em 1930, cria a primeira agência de fotógrafos, garantindo, desta forma, a autoria e os direitos pelas imagens produzidas. Todas essas iniciativas forneceram meios para a valorização do discurso imagético. Embora seja do processo de especialização das funções na imprensa, consequentemente do surgimento do editor fotográfico, que o discurso através da imagem seria valorizado. Esse profissional seria encarregado de dar sentido às notícias. O editor fotográfico teria o papel de guiar o leitor.

No epicentro da II Guerra Mundial (1939-1945), e com a morte de Erich Salomon em Auschswitz, muitos fotógrafos deixaram a Alemanha, dentre eles o húngaro Andrei Friemann, de pseudônimo Robert Capa. As guerras proporcionaram o crescimento do fotojornalismo norte-americano, surgindo, nesse período, os grandes magazines Life(1936) e a Look (1937). O primeiro saiu em sua edição inicial com tiragem de 466 mil exemplares e reuniu jornalistas e fotógrafos renomados. Já a Look, veículo de caráter supostamente humanista, procurou assumir o papel da revista familiar, não editando temas chocantes e identificando-se ideologicamente com a ética cristã.

Muitos dos profissionais de fotografia que se formaram a partir da década de 30, momento em que por excelência a imprensa era um meio para se ter acesso ao mundo, exerceram forte influência. Eles eram os olhos do mundo, divulgando fotografias de forte apelo social e adaptando gêneros denominados de documentação social.

O flash e a Leica

O aumento da busca pela imagem acarretou a multiplicação de agências de imprensa em todos os países. As agências contratavam fotógrafos e estabeleciam contratos com profissionais independentes. Essas agências visavam ao lucro e eram responsáveis pela venda das fotos. Em 1947, Robert Capa, junto com Cartier Bresson, Maria Eismer, David Seymour, George Rodger, William e Rita Vandivert fundam a Agência Magnum, instituição que revolucionou a linguagem estética da fotografia com cerca de 60 fotógrafos de várias nacionalidades. Para este grupo, a fotografia não era apenas um meio para ganhar dinheiro, mas uma forma de expressar suas ideias e sentimentos. Eles desprezavam as montagens e valorizavam os flagrantes. Todo esse trabalho afirmava o processo de construção de identidades sociais, raciais, políticas, étnicas e nacionais.

No Brasil, mesmo com o mercado editorial no início, a atividade já existia desde o século 19. É a partir de 1900, com a publicação do primeiro periódico ilustrado, que as revistas se multiplicariam, resultado dos investimentos.

No início do século 20, a tecnologia avança com a criação de filmes flexíveis, melhores lentes e a possibilidade de se fotografar com menos luminosidade. Estes avanços permitem, também, o surgimento de um fotojornalismo profissional. Começa surgir a figura do editor de fotorreportagem, que une o texto à fotografia. Stefan Lorant foi o pioneiro na construção do conceito de fotorreportagem. Para ele, as fotografias deviam contar uma história e, portanto, ter início, meio e fim. O incremento do flash, em 1925, e o surgimento da Leica (máquina de pequeno formato que possibilita a intercambialidade das lentes) deram maior mobilidade aos profissionais. Pasmem, mas só a partir dos anos 40 que o crédito fotográfico é atribuído com regularidade em jornais e revistas.

Acompanhando a história

O Cruzeiro (1928) representaria um marco no padrão técnico e estético das revistas ilustradas, a partir de 1940. Patrocinado pelos Diários Associados, de Assis Chateubriand, O Cruzeiro ganha um formato maior, melhor definição gráfica e conteúdo internacional, extraídos das agências de imprensa do exterior. Outros periódicos ilustrados tiveram que seguir o mesmo padrão para não perder público. A associação de texto e imagem era vista como o novo padrão de representação do fotojornalismo. A revista partia do modelo internacional, ou seja, o papel do profissional de fotografia como “testemunha ocular” era um dos princípios para associar a ideia fotográfica na elaboração de uma narrativa sobre os fatos.

Dois fotógrafos, em especial, ajudaram, no Brasil, a consolidar a memória fotográfica contemporânea: David Nasser e Jean Manzon. Além de outros profissionais, como José Medeiros, Flávio Damm, Luiz Pinto, Eugenio Silva, Indalécio Wanderley, Erno Schneider, Alberto Jacob, dentre outros. A imprensa ilustrada da época foi marcada pela fotorreportagem, que acompanhava a passos largos a história, provocada pelos conflitos sociais.

Livro: Imprensa e fotojornalismo no século 19

História da fotorreportagem no Brasil – A fotografia na imprensa do Rio de Janeiro de 1839 a 1900, de Joaquim Marçal Ferreira de Andrade, 304 pp., Editora Campus, Rio de Janeiro, 2004; ; tel. 0800-265340; R$ 49,00

Este livro aborda os primórdios da fotografia na imprensa carioca, desde os tempos da primeira patente do daguerreótipo, em 1839, até o ano de 1900, período em que o Rio de Janeiro foi sede do Império e capital da República, sediando portanto os principais órgãos de imprensa do país.

A partir do início dos anos 1880, como decorrência da introdução dos processos de reprodução fotomecânica a meio-tom em diversos países europeus e nos Estados Unidos, a imprensa ilustrada inicia uma nova fase, cujos reflexos não tardam a atingir a imprensa carioca – embora a sua verdadeira implantação entre nós só ocorra na virada para o século 20. Foi no período de transição para o século 20 – os anos 1880 e 1890 – que a fotorreportagem começou a tomar forma nos países mais avançados, onde em poucos anos os principais periódicos ilustrados implantaram o novo sistema de reprodução fotomecânica, enquanto aqui os progressos se deram em ritmo mais lento.

História da fotorreportagem no Brasil possibilita diversas leituras. Aborda sob a perspectiva da História os principais aspectos técnicos relacionados à fotografia, imprensa ilustrada e questões referentes ao design da página e aos processos de criação e de impressão das imagens. O autor não se limitou a abordar apenas a cidade do Rio de Janeiro; ao contrário, procurou dar uma abrangência verdadeiramente nacional e internacional à questão.

Hoje, há consenso quanto ao fato de que o advento da fotografia veio provocar profundas mudanças na visualidade do homem civilizado. Esta obra explica como a fotografia, através de nossa imprensa ilustrada, no século 19, teria contribuído para a formação de nossa visão do mundo e de nossa própria identidade.

Sobre o autor

Joaquim Marçal Ferreira de Andrade é fotógrafo e designer, além de pesquisador da fotografia brasileira do século 19. Chefe da Divisão de Iconografia da Fundação Biblioteca Nacional e professor adjunto de fotografia do Departamento de Artes & Design da PUC-Rio, mestre em Design (PUC-Rio) e doutorando em História Social (IFCS/UFRJ), já publicou textos sobre a tecnologia da fotografia no século XIX, o livro fotográfico brasileiro, a fotografia de guerra e as fotografias da Coleção D. Thereza Christina Maria, formada pelo imperador D. Pedro II. Sobre este assunto, foi curador da exposição itinerante A coleção do imperador, fotografia brasileira e estrangeira no século 19, apresentada entre 1997 e 2000 no Rio de Janeiro, São Paulo, Buenos Aires, Porto e Lisboa. É também co-curador da exposição itinerante De volta à luz, já apresentada na cidade de São Paulo.

*Por Gustavo Rozario Santana.

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