Editais disponibilizam R$ 9 milhões e incentivam a produção cultural baiana

A política estadual de distribuição de recursos através de editais se firma como uma das ferramentas de fomento. Nos Editais 2010, as 18 seleções públicas realizadas com recursos do Fundo de Cultura da Bahia tiveram 477 inscritos. O resultado final com selecionados foi divulgado em setembro e o pagamento da primeira parcela acontece ainda este ano.

A Secretaria Estadual de Cultura (Secult) contabilizou os inscritos nas últimas seleções públicas do Fundo de Cultura da Bahia, que, por meio de 18 editais, vai selecionar cerca de 180 projetos para receber apoio financeiro de R$ 9 milhões. Ao todo, foram lançados editais nas áreas de apoio às linguagens artísticas, circo, museus e patrimônio, audiovisual, residência artística, intercâmbio, livro, LGBT e cultura negra, entre outros.

As inscrições, que ficaram abertas por 50 dias, foram encerradas no final de junho. Os editais de circulação de shows musicais, montagem de teatro, montagem de dança, cultura negra e curta-metragem foram os que tiveram mais inscritos. Em relação à amostragem de inscritos por território de identidade, destaque para a participação dos territórios Litoral Sul, Recôncavo e Vitória da Conquista, com 26, 17 e 14 projetos inscritos, respectivamente.

“Atualmente oferecemos, em parceria com a Desenbahia, apoio ao investidor cultural, ao empresário-produtor, que busca com sua atividade também retorno financeiro e busca linhas de crédito com juros abaixo do mercado e muita facilidade no pagamento. Também alteramos o Faz Cultura, dobrando a capacidade de patrocínio por parte das empresas, visando que negócios de médio porte também possam ser patrocinadores”, disse o secretário de Cultura, Márcio Meirelles.

Segundo ele, a seleção pública através de editais, uma política de apoio não-reembolsável, é o mecanismo com maior procura do público, “mas nossa intenção, ao longo dessa gestão, tem sido mostrar que é possível buscar outros tipos de apoio”.

“A quantidade de inscritos para participar da seleção mostra que o Fundo de Cultura está cumprindo muito bem o seu objetivo de assegurar apoio às manifestações artístico-culturais da Bahia. Por isso é sempre bom reforçar o quanto é importante a contribuição dos empresários. Não temos dúvida de que ao se investir em cultura as empresas também estão contribuindo para o desenvolvimento do estado”, explicou o secretário da Fazenda, Carlos Martins.

A Região Metropolitana de Salvador (RMS) foi a que apresentou o maior número de inscritos (72%), o equivalente a 342 propostas de projetos.

Importância da iniciativa

Este ano, a 17ª edição do Prêmio Braskem de Teatro entregou os troféus de reconhecimento aos espetáculos e artistas que mais se destacaram nos palcos de Salvador em 2009. Os espetáculos que receberam apoio dos editais da Secult estiveram em sete das oito categorias do prêmio e arremataram cinco troféus.

Uma Vez Nada Mais, uma romântica história de amor contada do ponto de vista feminino, concorria ainda nas categorias Direção (Hebe Alves) e Especial (Brian Knave, pela trilha sonora), além de mais uma indicação à Melhor Atriz (Maria Menezes). A peça disputou o troféu de Melhor Espetáculo Adulto com outros quatro trabalhos – Shirê Obá, Joana D’Arc (estes dois também apoiados pelo Manoel Lopes Pontes), A Última Sessão de Teatro (que contou com benefícios do projeto Mestres da Cena) e Caso Sério.

Para a diretora do espetáculo Shirê Obá, Fernanda Júlia, é um excelente exemplo da importância de se investir em novos talentos. A jovem diretora vem da cidade de Alagoinhas, do interior da Bahia, onde foi formado seu grupo de teatro, a Cia. de Teatro Nata, que, com mais de dez anos de existência, tem como eixo as questões históricas, culturais e religiosas afro-brasileiras. Com a companhia, Fernanda montou peças como Origem, Encanto e Beleza (2000) e Axé! (2003).

Contemplada pelo Edital Manoel Lopes Pontes – Apoio à Montagem de Espetáculos de Teatro 2008, da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), Fernanda e seu grupo realizaram o espetáculo Shirê Obá, inspirado na exaltação aos orixás e nos rituais do candomblé.

A montagem rendeu a Fernanda a indicação de Revelação, pela direção, no Prêmio Braskem de Teatro deste ano. No mesmo prêmio, Shirê Obá concorreu na categoria principal, Melhor Espetáculo Adulto, e levou o troféu Categoria Especial (Jarbas Bittencourt, pela direção musical).

Além disso, a peça ganhou o primeiro Prêmio Nacional de Expressões Afro-Brasileiras, da Fundação Palmares. “O fato de o espetáculo Shirê Obá ter sido contemplado em uma seleção pública como o Edital Manoel Lopes Pontes mostra o ineditismo de um grupo de Alagoinhas ganhar o apoio do Estado”, comemorou a diretora.

Manutenção de grupos

O Grupo Dimenti realiza uma pesquisa artística e estética que articula diversas linguagens, principalmente dança e teatro. Formado em 1998, acumula um vasto currículo de espetáculos e prêmios, sendo um dos mais expressivos grupos artísticos da Bahia.

Em 2007/2008, quando o Fundo de Cultura da Bahia, vinculado à Secult, convocou os artistas, através de chamada pública, a apresentarem projetos de manutenção de grupos artísticos, o Dimenti foi um dos selecionados, com a proposta Dimenti 10 Anos, que se direcionava a ações continuadas de pesquisa artística, documentação videográfica e textual, produção de novo espetáculo, reapresentações, circulação, seminários e capacitação.

“Acredito que o apoio à manutenção de grupo é muito importante, porque possibilita que os artistas sejam remunerados por tempo de pesquisa, estudos e ensaios, o que é bastante difícil quando falamos num edital de montagem, por exemplo, já que os custos para levantar um espetáculo já são muito elevados. Esse apoio é para garantir uma boa condição de trabalho para os integrantes do grupo e possibilitar o investimento em profissionalização”, explicou Ellen Melo, responsável pelo grupo.

Quem também reconhece a importância da política de editais é o dançarino Robson Correia. Formado em 2008 pela Escola de Dança da Funceb, o diretor, coreógrafo e dançarino tem no currículo, como intérprete e/ou diretor, 15 espetáculos de dança, 13 de teatro e quatro de ambas as linguagens. Integrou algumas companhias de dança da Bahia e atualmente dirige seu próprio grupo: Cia. de Dança Robson Correia.

Durante sua permanência na Escola de Dança, buscou entender os mecanismos de apoio do Estado e se pôs a investir em realizações. Comprometido e engajado, Robson está conquistando espaço e está envolvido em sete projetos vencedores de editais da Funceb.

Bandas de rock são beneficiadas

Formada em 1992, a banda de rock Cascadura tem uma sólida carreira construída no cenário independente nacional, sendo um dos mais importantes representantes da música contemporânea da Bahia. Seu quarto e mais recente álbum, Bogary, lançado em 2006, é um dos mais celebrados discos do rock brasileiro desta década.

A partir do Bogary, a Cascadura produziu, com apoio do Edital de Produção de Conteúdo Digital em Música 2007, da Funceb, o documentário Efeito Bogary, cujo formato mistura músicas executadas ao vivo em estúdio com entrevistas e depoimentos, reunindo a banda e outras 20 personalidades da música e do jornalismo cultural, como Lobão, Nando Reis, Pitty, Felipe Machado (editor de cultura do jornal O Estado de S. Paulo) e Ricardo Cruz (editor-chefe da revista Rolling Stone Brasil).

Com esse conteúdo criado, já extrapolando e multiplicando o resultado obtido através do edital, o grupo editou e lançou, em 2009, o primeiro DVD comercial do rock independente da Bahia, também intitulado Efeito Bogary. “Ainda que não tenha sido a única fonte para finalizar a produção, esse edital nos trouxe a possibilidade de dar o ‘start’ de uma iniciativa inédita do rock independente local”, explicou Fábio Cascadura.

Agora em 2010, a Cascadura recebeu a feliz notícia da seleção do projeto de realização de seu quinto disco, já batizado de Aleluia, no Edital Apoio à Produção de Conteúdo em Música 2009, da Funceb. As gravações já foram iniciadas.

De Ilhéus, a banda OQuadro, formada em 1996, também é testemunha da efervescência cultural do estado. Representante do estilo hip hop, o grupo nasceu em uma escola pública ilheense e apresenta hoje shows com três MCs (mestres de cerimônia), que executam suas rimas precisas e consistentes em conjunto com as batidas programadas, citações de vinis e interferências de um DJ.

O Quadro carrega o mérito histórico de ter sido a primeira banda de hip hop a se apresentar no Teatro Castro Alves, na Sala do Coro, em agosto de 2008, através do projeto Segundas Musicais, realizado com artistas selecionados em edital da Funceb. Também levaram o ritmo para o Carnaval de Salvador, em 2009, no trio elétrico independente Bahia Sound System, oportunizado pela Secult.

O projeto OQuadro em 3 foi contemplado pelo Edital Vivaldo Ladislau – Apoio à Circulação de Música 2008, também da Funceb.

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