Discurso do Presidente Lula durante cerimônia de entrega de obras de três viadutos do Complexo Rótula do Abacaxi em Salvador

Luiz Inácio Lula da Silva.
Luiz Inácio Lula da Silva.

Via Expressa Bahia de Todos os Santos, Salvador, Bahia, 29 de setembro de 2010.

Meus queridos companheiros e companheiras de Salvador,

Meus queridos companheiros e companheiras da Bahia,

Trabalhadores que fizeram esse túnel chegar ao ponto que chegou,

Companheiros da OAS que trabalharam – parece a Seleção Canarinho ali, todo mundo de verde e amarelo,

Meu companheiro… Minha querida companheira Fátima Mendonça, nossa primeira-dama do estado da Bahia,

Nossos queridos companheiros ministros Paulo Sérgio, do Transporte, e Alexandre Padilha, das Relações Institucionais,

Meu caro companheiro prefeito João Henrique,

Meu caro companheiro Luiz Antonio Pagot, diretor-geral do Dnit,

Companheiros secretários estaduais Cícero Monteiro, do Desenvolvimento Urbano; Fernando Schmidt, chefe de Gabinete; e Eva Chiavon, da Casa Civil.

Nosso querido companheiro Saulo Pontes, superintendente regional do Dnit na Bahia,

Senhor Milton Villas-Bôas, diretor-presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano do estado da Bahia,

Meu caro José Adelmário Pinheiro Filho, presidente da OAS,

E nosso querido Carlos Antônio, esse motorista que falou aqui em nome das pessoas que sofriam aqui, nesta região, antes do viaduto,

Eu, eu não vou… eu não vou falar, eu não vou falar da obra, não vou falar da obra, porque aqui já falaram quatro pessoas, do dinheiro que colocaram na obra, da importância da obra para a cidade de Salvador, do sossego que vai trazer aos motoristas que têm que transitar por aqui. Mas uma coisa me disseram, quando eu cheguei aqui: esta obra só foi possível ser feita por conta da paciência do povo que mora aqui nesta região, que, embora reclamasse da demora da obra, eles estavam vendo que esta obra estava sendo feita.

E hoje nós estamos aqui, entregando mais uma parcela de uma obra e de um investimento que custa R$ 380 milhões, quase meio bilhão de reais, e eu fico feliz quando os companheiros da Bahia dizem que é a maior obra viária urbana sendo feita neste momento no país.

A Bahia merece isso, foi aqui que Cabral chegou, foi aqui a primeira capital; o povo baiano é o povo mais extraordinário que tem neste país. Portanto, eu já disse uma vez, na Praça Castro Alves, que, na outra encarnação, eu nasci na Bahia. Agora, o que é importante é vocês perceberem que as coisas começaram a andar em um ritmo no Brasil que não tem mais jeito de voltar atrás, não tem mais jeito. A primeira coisa é que o povo começou a acreditar em si próprio; cada um de nós hoje tem mais orgulho, cada um de nós hoje tem mais autoestima, cada um de nós hoje acredita que nós somos capazes de fazer muito mais. Vocês sabem perfeitamente bem.

Eu pensei que o ministro Paulo Sérgio ia falar, mas ele (incompreensível) falou, e eu vou dizer: quando nós entramos no governo, a gente gastava R$ 1 bilhão por ano na área do transporte, um bilhão por ano. Hoje, a gente, este mês, nós pagamos R$ 1,6 bilhão. Ou seja, nós estamos pagando o dobro em um mês do que a gente fazia em um ano, quando eu cheguei à Presidência da República, porque este país estava há 25 anos sem fazer investimentos em obra pública, há 25 anos.

Vocês não se lembram da última obra pública de grande porte feita neste país, porque foi no governo Geisel, em 1975, que muitos de vocês não tinham nascido ainda. E o Geisel só pode fazer, porque teve que tomar dinheiro emprestado. Aí tomou dinheiro emprestado a 3% de juros, o dólar, ao ano; os americanos, para resolver o problema da dívida deles, aumentaram os juros para 21%. Aí, surgiu a dívida externa, que a gente ficou 25 anos devendo, só pagando juros e sem poder fazer nada aqui dentro. Para a gente chegar ao nível que nós chegamos nós precisamos primeiro arrumar a casa.

Olha, eu sou casado há 36 anos e eu nunca comprei uma coisa que tivesse uma prestação que me deixasse dúvida de que eu não pudesse pagar. Eu tinha um medo desgraçado de gastar mais do que eu ganhava, porque todo mundo que gasta mais do que ganha, um dia, a casa cai. Um dia vão à casa dele tomar a geladeira, um dia vão tomar a televisão… É verdade, Edvaldo, é verdade, Edvaldo. É verdade, porque, veja: eu morava em um quarto e cozinha… em um quarto e cozinha, que não tinha nem pia dentro da cozinha para lavar louça. Eu pagava R$ 100,00 por mês. Naquele tempo, era cem cruzeiros, uma nota meio avermelhada. Eu cada vez que eu recebia o meu pagamento e eu tinha que pagar o aluguel, eu ia da minha casa até o dono da casa amaldiçoando o aluguel. Então, eu criei na minha cabeça um sistema de defesa contra endividamento. Não me venha vender uma coisa, uma televisão 3G, um rádio de não sei das quantas, porque eu só vou comprar se eu tiver dinheiro sobrando para comprar, se não fizer falta para uma coisa mais importante. Não venha me dizer que precisa de um carro novo, porque eu compro se eu puder, mas se eu tiver que fazer dívida não me peça para fazer.

Pois bem, no governo, eu levei essa experiência para o governo. A gente estava devendo para o FMI. Então, o que eu pensei? Bom, nós precisamos nos livrar do FMI. Um belo dia – eu já estava há dois anos no governo – eu chamei o presidente do FMI e falei para ele: Olha, eu não quero mais o seu dinheiro. Vocês têm US$ 16 bilhões aqui, nós não queremos mais. “Não, mas pode ficar, nós não estamos precisando agora”. Eu falei: eu não quero, pode levar o seu dinheiro embora. Pagamos os US$ 16 bilhões, porque eu não quero ver vocês dando palpite na nossa economia. Este país é nosso e quem dá palpite na nossa economia somos nós. Se a gente acertar, ótimo; se a gente errar, ótimo, mas nós queremos pensar com a nossa cabeça e tomar decisão com a nossa consciência.

Hoje, não só a gente pagou o FMI como a gente emprestou US$ 14 bilhões para eles, agora são eles que nos devem, e hoje nós temos US$ 271 bilhões guardadinhos lá, guardados, para defender o nosso país. E vamos chegar ao final do mandato, querida Fátima, a US$ 300 bilhões. Ninguém imaginava que isso pudesse acontecer no Brasil, ninguém. Ninguém jamais imaginou que este país pudesse ter US$ 300 bilhões de reserva. Ninguém jamais imaginou que este país pudesse ter hoje o menor desemprego da sua história, inclusive na cidade de Salvador. Ninguém imaginou que este país pudesse ter a maior renda salarial dos últimos 15 anos. Ninguém jamais imaginou que a gente fosse sair, que a gente fosse sair de um ministério que tinha 1 bilhão por ano, para um ministério que tem 16 bilhões por ano, hoje. Ninguém imaginou que a gente pudesse criar 15 milhões de empregos, com carteira assinada, em dois mandatos. Ninguém imaginou que a agricultura brasileira ia bater recorde como bateu este ano, de 149 milhões de toneladas de grãos. Ninguém imaginou que a gente pudesse aumentar o salário mínimo em 74%.

Ninguém imaginou que a gente pudesse fazer aposentadoria em meia hora. Hoje, não precisa ir ao INPS [INSS], pegue o telefone e ligue 135, e resolva os seus problemas com um telefonema. Qualquer aposentado, hoje, em meia hora, recebe a sua aposentadoria, e não tem que mostrar documento, é o governo que tem que provar que ele trabalhou. E, agora, estamos cadastrando o pessoal do campo. Quando completar a idade, ele vai ser chamado: “Fulano de tal, você completou a sua idade de se aposentar, o seu salário vai ser tanto, pode vir aqui na agência”, que estamos inaugurando 700 no nosso mandato”.

Então, nós arrumamos o Brasil, arrumamos o Brasil, e daqui a 30 dias, Maria de Fátima, companheiros da Bahia… É uma pena que o nosso governador não possa estar aqui, pela questão eleitoral, mas daqui a 30 dias, o senhor Paulo Sérgio e o Ministério do Meio Ambiente me prometeram que eu vou a Ilhéus para anunciar, definitivamente, a Ferrovia Oeste-Leste, que já estará pronto o problema do Eia-Rima, a licença, porque é uma região que tem, muita caverna, e a gente precisa fazer um projeto, estudando corretamente a caverna.

E tem mais ainda: eu ainda quero estar vivo para atravessar, aqui, até Itaparica, em uma ponte, aqui, (incompreensível) eu quero estar vivo para isso. Agora, veja, eu já estou com 64 anos e vou completar 65 no dia 27, agora, quem quiser me dar presente pode me dar, antecipado, mas… Então, quando a gente chega aos 65 anos, o tempo para frente é pouco. Então, esta ponte vai ter que sair logo, porque se esta ponte demorar muito, o Lulinha – pá – escafedeu-se e não vai ver a ponte.

Mas, olhem, eu, eu vim aqui, eu vim aqui para dizer para vocês da minha alegria, do meu prazer de ver que uma coisa como essa está acontecendo aqui em Salvador e está acontecendo no Brasil inteiro. Eu estou vindo lá de São Francisco do Conde, lá nós fomos visitar a obra de renovação da nossa refinaria. São 4 bilhões e 800 milhões de investimento da Petrobras, gerando 8.500 empregos com carteira assinada, para o povo da Bahia trabalhar e sustentar a sua família honestamente.

Eu vim aqui para dizer para vocês que faltam três meses para eu deixar a Presidência da República. E quando eu deixar a Presidência, eu vou voltar muitas vezes à Bahia, vou voltar como eu vinha antes. Mas eu vou continuar percorrendo o Brasil, para ajudar este país. Este país, este país aprendeu a se valorizar. Antigamente, a gente era tratado como se fosse, como se fosse gente de segunda categoria, ninguém respeitava a gente, ninguém respeitava. Porque, muitas vezes, a gente também não se respeitava, a gente andava de cabeça baixa, os governos não cuidavam dos pobres, o governo não tinha nenhuma atenção, governava para meia dúzia. Agora vocês sabem o tipo de governo que a Bahia tem.

Ou seja, o povo aprendeu, o povo aprendeu que o povo não quer mais coronel na política, o povo quer companheiro, parceiro. O povo quer, no Brasil inteiro. E eu digo todo dia, eu digo todo dia: só tem um jeito de a gente governar e não errar: é se a gente ouvir o povo, é se a gente tiver sensibilidade, é se a gente utilizar o coração da gente, é se a gente conversar com esse povo. Um governante não pode ter medo do povo. Quanto mais a situação estiver difícil, mais a gente tem que ir para a rua conversar com o povo. A gente, se for o caso, tem que ouvir desaforo, tem que ouvir, porque nós temos dois ouvidos, que é para a gente ouvir mais do que falar – e eu já estou falando mais do que ouvindo – mas… É que eu não venho aqui todo dia, então, eu posso falar um pouco.

Então, eu queria, queria, gente, olhem, queria dizer para vocês do meu prazer. Eu, no dia 30, (incompreensível) aí, dia… até o final de outubro eu estarei aqui outra vez. Nós temos que ver a licença do Porto de Ilhéus, o porto privado está pronto, o porto público de Ilhéus é que está com problema. Nós precisamos resolver o problema da licença, dona Eva, o problema da licença ambiental. Aqui, o Ibama estadual com o Ibama federal tem que se colocar de acordo, porque a gente só vai começar a ferrovia quando a gente tiver a licença dela inteira, e quando tiver a licença do porto, porque eu não vou começar a fazer uma ferrovia para os adversários dizerem: “Essa ferrovia vai para onde? Vai ligar o que a o quê?” E eu quero dizer: Essa ferrovia vai pegar todos os produtos que a Bahia produz, vai trazer lá do Tocantins, vai trazer lá de Barreiras, vai trazer para o Porto de Ilhéus, e vai levar coisas do Porto de Ilhéus para outros estados. Nós vamos interligar essa ferrovia com a Norte-Sul, até Estrela D’Oeste, em São Paulo, e até Belém, no Pará. Nós vamos fazer, nós vamos fazer mais de 6 mil quilômetros de ferrovia neste país, que estava desativada.

Portanto, meus queridos companheiros e companheiras de Salvador, do fundo do coração, eu espero que vocês tenham muita sorte, muita sorte no dia 3 de outubro. E, depois, eu voltarei aqui, junto com o meu companheiro governador. As eleições já acabaram [terão acabado] e a gente vai poder percorrer o estado da Bahia inaugurando obras, anunciando novas obras, porque a Bahia de Todos os Santos não pode parar, e o Brasil não pode parar e, por isso, nós temos que trabalhar cada vez mais.

Um abraço, companheiros, e até outro dia, se Deus quiser.

*Por Luiz Inácio Lula da Silva | Presidente da República

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