Carolina Matos, doutora em mídia, lança o livro: Jornalismo e Política Democrática no Brasil

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Como a mídia brasileira se comportou nas últimas décadas de democratização do país? Qual o papel desempenhado pelos jornalistas nesse período, marcado pela campanha da Diretas-Já, o impeachment de Collor e a eleição de Lula? O livro “Jornalismo e Política Democrática no Brasil” busca respostas.

A autora é Carolina Matos, doutora em mídia e comunicação pelo Goldsmiths College, da Universidade de Londres. Ela trabalhou em diversos jornais no Brasil, incluindo a Folha, “Globo Online” e “Tribuna de Imprensa”. Foi professora visitante em universidades estrangeiras, ministrando disciplinas de história da mídia, semiótica e teoria da comunicação, além de ser pesquisadora na área de análises comparativas de sistemas políticos e de mídia pública entre países da Europa, América Latina e EUA.

Em “Jornalismo e Política Democrática no Brasil”, Carolina investiga as pressões sofridas pelo noticiário político durante as coberturas de eleições. Ela dá nome aos bois, identificando os veículos e analisando seus posicionamentos em relação a candidatos e discursos.

A obra sintetiza ainda as principais questões que atormentam o jornalismo e as recentes transformações nas redações, como o “aumento no número de sites de internet e blogs de jornalistas de elite ligados aos grandes jornais”. A qualificação do profissional de mídia no Brasil é também um dos alvos da análise crítica de Carolina.

“A adoção, pelos jornais de qualidade, de um modelo jornalístico mais analítico certamente depende de um melhor treinamento intelectual dos jornalistas contemporâneos”, observa a autora na página 291.

Leia um trecho do capítulo “Partidarismo versus Profissionalismo: O Papel do Jornalista no Processo de Democratização”.

Nas últimas duas décadas, o jornalismo no Brasil tem estado envolto nas contradições do processo de consolidação da democracia política representativa e do efeito da entrada do país no mercado livre mundial. Muitos países da América do Sul, que saíram de regimes autoritários nos anos 80, lutaram nos anos 90 para adaptar, ou minimizar, a realidade politizada e ideológica dessas nações à tradição do jornalismo liberal norte-americano, com seus valores da objetividade e do profissionalismo. Waisbord (2002) tem argumentado que a imprensa escrita durante esse período manteve os laços próximos com o Estado em meio à permanência da natureza altamente politizada de muitas dessas instituições brasileiras.

A imprensa contemporânea encontrou-se mergulhada no dilema de ter de responder aos anseios dos leitores-cidadãos ao mesmo tempo que reforçava a concepção da notícia como produto destinado ao consumo. De um lado ela funcionou como uma arena restrita de debate público, em resposta à crescente democratização da sociedade brasileira e ao aumento da participação na política, e de outro, teve de atende às pressões comerciais. Tais tensões foram o resultado do fortalecimento da democracia política civil e da necessidade dos mercados de se expandirem. Isso obrigou a imprensa “mainstream” a representar mais visões, a criticar figuras de autoridade e a se engajar no escrutínio crítico das atividades do Estado. A democracia liberal de mercado deu à mídia a capacidade de modernizar as suas práticas e a investir na profissionalização, com as redações vendo um declínio nas práticas rotineiras de partidarismo acompanhado de um crescimento da objetividade.

A mudança da prática do jornalismo militante para o modelo comercial moldou o jornalismo brasileiro de forma significativa nas últimas décadas. O desenvolvimento e a industrialização do Brasil a partir dos anos 70 ocorreu paralelamente à criação de uma sociedade de consumo maior, mais sofisticada e consumista (Nassif, 2003), que exigia a atenção dos mercados. A consolidação do profissionalismo e da objetividade nas redações faz parte então de todo um processo de profissionalização e modernização das indústrias brasileiras de mídia, como foi o caso das Organizações Globo, do Grupo Abril e do jornal Folha de S.Paulo. Isso foi exemplificado depois principalmente pelas reformas que ocorreram na Folha a partir de 1984 e pela ênfase dada pelo jornal ao entendimento da notícia como um produto, e do papel do jornalista como profissional objetivo. A transformação que o jornalismo experimentou nos últimos anos, no entanto, não resultou numa ruptura total com a militância jornalística do passado. O jornalismo continuou a ser influenciado por diferentes interesses das organizações de mídia, bem como pelo ambiente político e econômico no qual estavam inseridos, permanecendo definido de forma ambígua.

Dado o favorecimento do modelo jornalístico profissional e objetivo em detrimento do opinativo e ideológico nas décadas de 1980 e 1990, pode-se perguntar como os jornalistas conseguiram contribuir para avançar a democracia e promover mudanças sociais e políticas se eles dependiam principalmente de armas instrumentais (profissionalismo) em vez do idealismo (militância)? Era possível fazer alguma contribuição se as redações haviam substituído preocupações idealistas e políticas por posicionamentos mais técnicos em relação à notícia, como manchetes chamativas,, histórias de interesse humano e o uso de determinados elementos jornalísticos, como a objetividade e a exatidão? O exame crítico feito aqui da cobertura realizada pela imprensa e das eleições presidenciais de 1989 e 2002 indicou que o profissionalismo e a objetividade cresceram bastante de uma cobertura para outra e isso contribuiu para retratar a realidade política brasileira de forma mais justa e complexa.

Ao contrário do que se poderia imaginar num primeiro momento, esses valores do jornalismo liberal foram cruciais para permitir a incorporação de debates mais amplos na arena midiática, e para o tratamento de contradiscursos e aspirações da esquerda como democráticas e legítimas. Naturalmente, isso foi resultado do processo contínuo da democratização do Brasil e a conseqüência das pressões exercidas sobre a mídia por diversos setores da população, representantes da sociedade civil e novos líderes políticos – em oposição ao empresariado tradicional e às elites políticas oligárquicas que antes recebiam toda a atenção dos meios de comunicação. Foi através do equilíbrio que a grande mídia conseguiu refletir mais as divisões nos grupos de elite e as disputas políticas que estavam ocorrendo na sociedade brasileira em relação à direção que o país deveria caminhar na fase de pós-ditatura.

Este capítulo argumentará que os jornalistas contribuíram de fato para o processo de democratização através do uso de múltiplas identidades jornalísticas. Na atualidade, essas contribuições tornaram-se possíveis através do compromisso de muitos jornalistas com entendimentos progressistas sobre a noção de profissionalismo e de responsabilidade social, embora nem sempre essas visões tenham tido predominância nas redações. Os limites impostos assim a essas contribuições estavam menos relacionados ao uso ou não de algum elemento do jornalismo liberal, como a objetividade, e eram mais uma conseqüência das pressões políticas e também econômicas, de mercado, exercidas em cima do jornalismo diariamente. Será defendido neste capítulo que o modelo profissional e o regime da objetividade, hoje mais do que nunca, são princípios jornalísticos que não merecem ser descartados, e que de fato contribuíram nas duas décadas para a realização de uma discussão mais madura e avançada da política brasileira e da representação de seus múltiplos interesses. Se durante a ditadura houve uma série de restrições políticas, a atualidade foi mais dominada por limites econômicos, embora, como vimos nos capítulos anteriores, interesses políticos ainda impõem uma série de ameaças ao funcionamento do bom jornalismo independente a serviço do bem comum. O caso do preconceito no jornalismo, sublinhado na análise textual sobre a cobertura jornalística das eleições presidenciais, é um exemplo da transposição para as mensagens midiáticas de práticas partidárias que ainda existem nas redações, bem como a natureza politizada das organizações da mídia, apesar de supostos compromissos com a objetividade. É por causa da fragilidade do funcionamento desses elementos do jornalismo liberal nas redações que alguns críticos radicais (Kucinski, 1998) atacaram fortemente a grande imprensa, acusando o modelo profissional de ser falho e a mídia de favorecer candidatos que representavam o establishment.

A objetividade e o equilíbrio são, portanto, fundamentos cruciais nas tentativas para se explicar um mundo cada vez mais complexo, e que ultrapassa os argumentos de pensamento único, as posições ideológicas rígidas e as máximas acerca dos conflitos de classe (Lichtenberg, 2000). Advogamos aqui o fortalecimento contínuo dos princípios do jornalismo profissional combinados com os compromissos de serviço público em relação à notícia e aos ideais de responsabilidade social. Este capítulo examina ainda uma série de debates internacionais sobre as culturas do jornalismo liberal antes de focar no caso particular do jornalismo contemporâneo brasileiro, defendendo o argumento de que, de fato, as duas culturas jornalísticas coexistem na fase contemporânea.

O jornalismo interpretativo e o comentário analítico também experimentaram uma expansão significativa no país, com as novas tecnologias e a internet facilitando a emergência de blogs políticos nos grandes jornais. A tradição de jornalismo opinativo manteve a sua influência, embora o jornalismo interpretativo tenha funcionado muito em subordinação também ao ideal da objetividade. A evidência reunida aqui sugere que no geral a imprensa brasileira esteve melhor quando conseguiu produzir uma cobertura equilibrada e profissional em detrimento do preconceito ideológico e do sensacionalismo. Exceções à parte, como a campanha das Diretas-Já e o impeachment de Collor, quando jornalistas não se comportaram de forma “objetiva”, mas assumiram uma posição favorável aos ideais da democracia universal. Eles acabaram produzindo uma cobertura sólida que contribuiu para pressionar pela mudança. Assim, diferentes culturas do jornalismo competiram entre si, como a objetividade e a militância jornalística. A relevância que cada uma teve no jornalismo brasileiro é o debate central investigado neste capítulo.

“Jornalismo e Política Democrática no Brasil”

Autor: Carolina Matos
Editora: Publifolha
Páginas: 384
Quanto: R$ 19,90 (preço promocional, por tempo limitado)
Onde comprar: 0800-140090 ou na Livraria da Folha

*Por Livraria da Folha

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