Altura que te esconde | Por Roque do Carmo Amorim Neto

Cada um de nós tem suas fragilidades, reais ou apenas imaginadas. Alguns se consideram gordos demais. Outros, baixos demais. Para aqueles, academia, roupas pretas e todas as formas possíveis para parecer com quilinhos a menos. Para estes, saltos altos, posições estratégicas na hora de fotografar com pessoas mais altas. Para o careca, um chapéu. Para o estrábico, óculos escuros… Até aqui, nada muito complicado.

Limites físicos podem ser disfarçados temporariamente. Basta um segundo olhar e aquilo que você se esmerava para esconder, simplesmente resplandece aos olhos dos demais. Acontece, porém, que para além do físico nossas fragilidades podem assumir uma proporção bem maior, às vezes, maior do que nossas forças para superá-las. Quer saber o que as faz crescer tão rapidamente? A resposta é simples e curta: negação!

Para entender melhor, aí vai uma historinha real e bem ilustrativa. Desde o primeiro dia de aula no doutorado percebi uma energia especial em uma de minhas colegas. Lizette é sempre a primeira a erguer o braço quando os professores fazem alguma pergunta. Ela já expressou várias vezes que qualquer nota abaixo de 9.5 é simplesmente inaceitável. Até aí não há muita novidade, afinal ela repetidamente nos lembra que fez o mestrado em Harvard, uma das universidades mais conceituadas do mundo.

Algumas vezes Lizette perde aula porque está de viagem, dando palestras em escolas renomadas dos Estados Unidos. É como se ela fosse uma educadora pop em uma permanente turnê. Uma espécie de Lady Gaga da pedagogia. Para ser honesto, é bastante encantador ouvir todas as histórias que ela partilha conosco. Duas semanas atrás, entretanto, em poucos segundos Lizette abriu e fechou uma porta escondida de sua vida. Inesperadamente, meus olhos viram mais além do que minha colega queria mostrar.

Filha de imigrantes mexicanos, Lizette nasceu aqui nos Estados Unidos. Ela cresceu rodeada por compatriotas de seus pais. Entretanto, ao contrário de muitas outras filhas de imigrantes, Lizette teve a sorte de nascer em uma família que apesar da pobreza valorizava a educação. Ela frequentou boas escolas e aprendeu a enfrentar o preconceito das jovens, loiras e ricas adolescentes americanas com quem estudava. Mais do que isto, minha colega aprendeu várias estratégias para se fazer aceitar por estas pessoas.

Apesar de suas feições latino-americanas, uma de suas primeiras estratégias de “guerra” foi modificar a pronúncia de seu nome, adotando um leve sotaque francês. Para completar, dizia que era neta de franceses. Ciente da fragilidade de sua falsa ascendência europeia, Lizette resolveu mostrar que ela valia por si mesma, e desde então simplesmente decidiu ser a melhor. A melhor em notas. A melhor nas aulas de dança. A melhor no jogo de sedução com os rapazes mais populares do colégio.

O tempo passou… Lizette casou. Teve dois filhos. Aprendeu tanta coisa. Comprou uma casa em um bairro de elite. Visitou tantos lugares. Foi aplaudida inúmeras vezes… Todavia, ela continua usando a mesma estratégia. Ela ainda precisa se apresentar como uma heroína para se sentir aceita pelos demais.

Diante de pessoas que pretendem a perfeição, a pergunta que sempre me faço é “O que está faltando aqui?” Na verdade, na personagem criada por Lizette, parece não faltar coisa alguma, pelo contrário, temos a impressão de que sobra segurança, convicção e força… Contudo, alguma coisa lá no fundo, nos diz que há algo que destoa e, normalmente, quase sem perceber acabamos nos afastando de pessoas assim. Há algo que nos incomoda no comportamento delas.

Há pessoas que tem um poder de sedução absoluto, mas que não conseguem oferecer nada mais do que isto. É mais ou menos como aquele CD que você comprou por causa de uma música que tocava incessantemente em todas as rádios. O CD tem doze faixas, mas apenas uma lhe parece agradável e apesar de seu esforço para se familiarizar com as demais, você não se sente atraído por elas… E em breve, você se cansa de ouvir a mesma música repetidas vezes.

Assim, o ciclo se forma. Quanto mais os outros se afastam, mais sedutoras estas pessoas precisam ser. Quanto maior o esforço da sedução mais desapontadas os outros ficarão ao perceber a “propaganda enganosa”. O ciclo segue, e nele há um grande espaço reservado para a solidão da qual se tenta fugir negando a sua existência.

Haveria uma cura? Sim, há. Contudo, o remédio é amargo. No caso de minha colega, a brilhante profissional, a notável doutoranda, precisa se encontrar com aquela menina pobre, filha de imigrantes, que cresceu na periferia de San Francisco. Elas simplesmente precisam se abraçar e fazerem as pazes. Uma não pode mais negar a existência da outra.

Inegavelmente Lizette é uma vencedora, pelo menos aos olhos daqueles que a veem à distância. Ela já enfrentou tanta coisa na vida, mas ainda falta a maior de suas batalhas, aquela na qual ela será sua própria adversária. Durante todos estes anos, minha colega cresceu e quanto maior ela ficava, mais intensamente ela tentava afastar de si o seu passado, a sua origem. Quanto maior ela ficou e quanto mais pessoas puderam vê-la, menos ela pôde ver a si mesma. Sinceramente, espero que quando o dia do confronto chegar Lizette esteja preparada para a mais sábia de todas as suas ações: abraçar a própria história.

*Por Roque do Carmo Amorim Neto

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