Marco Aurélio Garcia: Política externa do Brasil não será política do sim senhor

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O Brasil pretende manter uma política soberana e independente no plano internacional, segundo afirmou, em entrevista exclusiva à Rádio França Internacional, o assessor especial da presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia. “A política externa brasileira não pode ser uma política do sim senhor”, sustenta.

De acordo com Garcia, que também é o principal formulador do programa de governo de Dilma Rousseff, se a candidata do PT for eleita, o governo brasileiro vai manter as relações com parceiros tradicionais e intensificar a integração com países latino-americanos.

Um mecanismo de integração poderia ser estender para outros países da região a experiência iniciada com a Argentina de comercialização em moeda local. “Nós não precisamos necessariamente passar pela ideia de constituir uma moeda única regional”, explicou.

O Brasil também deve continuar a defender a via do diálogo para uma solução sobre o controverso programa nuclear do Irã, além de reforçar a parceria estratégica iniciada com a França, principalmente na área de Defesa. “Nós não queremos mais ir ao shopping comprar brinquedos de guerra”, afirma o assessor. Ao comentar a possível compra dos caças franceses Rafale pelo governo brasileiro, Marco Aurélio Garcia reiterou que a decisão cabe ao presidente Lula e que deve ser anunciada após as eleições.

RFI : O governo de Dilma Rousseff vai manter a contestada relação com o Irã do presidente Mahmoud Ahmadinejad ?

Marco Aurélio Garcia: Nós considerávamos e consideramos ainda que é melhor a solução negociada, ou seja, levar o Irã à mesa de negociação na Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e encontrar uma alternativa às sanções (impostas pela ONU, União Europeia e Estados Unidos). Não há um relacionamento particular do Brasil com o Irã. Há uma iniciativa que o Brasil, junto com a Turquia, adotou para resolver essa questão.

RFI: Em um eventual governo Dilma essa iniciativa continuaria ?

M.A.G.: Depende muito. Nossa disposição de encontrar uma solução negociada continua. O que temos que ver concretamente são os mecanismos pelos quais essa iniciativa poderá se desdobrar. O Conselho de Segurança da ONU fez uma opção, reforçada depois pela União Europeia, ao votar as sanções contra o Irã, em desacordo com a posição do Brasil e da Turquia. O que estávamos procurando era fazer com que os iranianos aceitassem negociar um mecanismo de inspeção chefiado pela AIEA. Parece que há uma disposição positiva nesse sentido. Há poucos dias, na França, tive a oportunidade de saber que o governo francês apoia a presença do Brasil nessas negociações. Agora, temos que ver se outros países apoiam ou se querem continuar numa estratégia de confrontação, que me parece muito negativa.

RFI: Essas tentativas do Brasil colocaram o país distante de parceiros tradicionais, como Estados Unidos, União Europeia. Em um governo Dilma, como seria a relação com esses parceiros ?

M.A.G.: Acho que vai ser a mesma que tivemos até aqui. O que tem que se ter claro é o seguinte: uma política externa não pode ser uma política do sim senhor. No início do governo Lula, o presidente assumiu uma posição clara contra a solução militar no Iraque e isso não significou uma deterioração das relações com os Estados Unidos. Pelo contrário. Com a União Européia, estamos agora empenhados na questão do acordo com o Mercosul que, esperamos, possa avançar, apesar das dificuldades. Temos boas relações com a França, com outros países. Não vejo porque elas seriam afetadas. A menos que as pessoas considerem que as únicas relações possíveis são aquelas em que há um alinhamento absoluto de um país em relação aos demais. E essa não é a posição do Brasil, obviamente.

RFI: A relação do Brasil com os Estados Unidos era melhor quando Bush estava no poder do que agora, com Obama ?

M.A.G.: Não dá para dizer ainda porque o presidente Obama está há menos de dois anos no poder. Tivemos um começo muito favorável com o presidente Obama. Lula e Obama se encontraram muitas vezes em reuniões do G20, foram muitos calorosos nesses encontros. Houve, agora, um desencontro evidente em torno dessa questão do Irã, mas temos consciência da importância que os Estados Unidos têm na região e no mundo. Seria uma tolice deteriorar o relacionamento com os Estados Unidos. Assim como acredito que seria também uma tolice muito grande se os Estados Unidos não procurassem cultivar uma relação positiva com o Brasil.

RFI: A parceria com a França será aprofundada?

M.A.G.: Acho que sim. Vários aspectos nos interessam na parceria estratégica, aspectos ligados a questões de ciência, tecnologia, educação e defesa. A França tem mostrado ser sensível a uma questão essencial para o Brasl, que é a auto-suficiência do país e da região em matéria de defesa. Não queremos mais ir ao shopping comprar brinquedos de guerra. Queremos construir uma indústria de defesa aqui, com a participação de todos os países que estiverem comprometidos com essa ideia de preservação da autonomia. E a França se mostrou favorável nessa direção. Por isso, houve esse acordo tão positivo que, espero, tenha desdobramentos no futuro.

RFI: O senhor se refere a compra dos caças Rafale?

M.A.G.: A compra dos Rafales é uma decisão que está nas mãos do presidente e o próprio ministro da Defesa Nelson Jobim anunciou que a decisão será tomada após as eleições.

RFI: E quanto à Guiana francesa ?

M.A.G.: Tínhamos já avançado em algumas questões, uma delas é concluir essa interminável ponte (sobre o rio Oiapoque), que vai ter um impacto muito favorável. Teremos, também, que ver uma série de questões ligadas a uma política de fronteiras. Temos uma política muito boa com o Uruguai, com a Argentina, com a Colômbia, com o Peru, com a Bolívia, por que não com a França, tendo em vista que temos uma extensão de fronteira tão importante com esse país? Há também uma ideia que acho muito positiva de criar um centro que permita uma exploração conjunta da biodiversidade amazônica.

RFI: A candidata Dilma já anunciou uma maior integração com a América Latina. Como essa integração vai acontecer ?

M.A.G.: Para me concentrar no caso da América do Sul, acho que o fundamental para os próximos anos é que façamos dois grandes movimentos. O primeiro é dar sequência a acordos já assumidos. Por exemplo, no âmbito da Unasul (União das Nações Sul-Americanas) tem projetos de integração produtiva, energética, física, de políticas sociais comuns, de cooperação científica, tecnológica e educacional. Tudo isso tem que sair do papel e efetivamente ganhar consistência.

Com relação ao Mercosul, conseguimos avançar um pouco. O fato de termos aprovado um código aduaneiro comum dará muito mais consistência ao Mercosul e nos permitirá enfrentar, com mais facilidade, um acordo com a União Europeia.

Há outras questões. Por exemplo, queremos desenvolver mais uma experiência que começamos a fazer com a Argentina de comércio em moeda local. Nossa ideia é que essa experiência possa se generalizar para todos os países. Isso significa concretamente que vamos criar um outro padrão monetário. Não precisamos necessariamente passar pela ideia de constituir uma moeda única regional, que é muito complexo. Com a heterogeneidade macroeconômica que nós temos na região, isso não seria fácil. Enfim, tudo isso aponta para uma questão fundamental. Para resolver todos esses problemas pendentes, que são muitos, temos que dar mais consistência institucional tanto ao Mercosul, quanto a Unasul.

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