Extremo Sul da Bahia terá primeiro campo experimental de café Conilon

O Extremo Sul, única região produtora de café conilon no estado e responsável pela posição de destaque da Bahia no ranking nacional de produção, deverá sediar ainda este ano a primeira estação experimental especializada. Para viabilizar a implantação da unidade, foi assinado na tarde de hoje (13/08/2010), durante o primeiro dia da Festa do Café Conilon, um protocolo de intenções. A iniciativa é da Secretaria da Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária (Seagri), em atendimento ao pleito dos cafeicultores da região. Além do órgão estadual, integram o termo de compromisso, a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), o Ministério da Agricultura, através da Ceplac, além do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município de Itabela, e o instituto de pesquisa Incaper, do estado do Espírito Santo. Representações de todos os órgão se fizeram presentes no ato.

Depois da solenidade, que contou com a participação do Secretário da Agricultura, Eduardo Sales, a comitiva seguiu para a propriedade da Ceplac, onde deverá ser implantada a estação, para definir em conjunto as responsabilidades de cada órgão, estratégias para implantação. “Durante essa rodada de trabalho, a expectativa é de que seja formada uma equipe de trabalho, já na próxima semana, para a delimitação dos experimentos, da área a ser trabalhada, planejamento e projeção de custos”, explicou o secretário. Fizeram parte da comitiva o superintendente do Sebrae, Edival Passos, o presidente do instituto Incaper, Evair Melo, o presidente da Associação dos Produtores de Café da Bahia (Assocafé), João Lopes, o superintendente da Ceplac, Antônio Zózimo, além de autoridades local.

A sexta edição da Festa do Café Conilon acontece no município de Itabela e segue até domingo (15), reunindo mais de 10 mil pessoas, entre produtores, empresários, pesquisadores, extensionistas e o público em geral, atraídos por uma programação rica e diversificada, com a realização palestras, painéis temáticos, dinâmicas motivacionais, visitas técnicas e atrações artísticas. “Uma verdadeira mostra tecnológica de tudo que há de mais moderno em tecnologia aplicada de produção”, definiu o coordenador do evento e representante do Sindicato dos Produtores Rurais de Itabela, Idalício Viana. No evento, 40 empresas expositoras participam.

Durante o primeiro dia de festa, foi apresentado um panorama do café conilon no Brasil e no mundo, bem como as principais tecnologias desenvolvidas e aplicadas, desafios e oportunidades, visando uma cafeicultura mais sustentável. A escolha da área, variedades, mudas, espaçamento, vergamento, plantio em linha, poda programada, ciclo: tecnologia de colheita e pós-colheita, são alguns dos assuntos que estão sendo tratados. Outra temática se refere às diversas formas de empreendedorismo e de economia dos recursos que podem ser trabalhadas na adubação racional do café conilon. Os produtores também obtiveram respostas sobre como aumentar a produtividade sem interferir na qualidade da produção e a importância das diversas formas de organização, seja cooperativa, seja associativa, na garantia de comercialização.

Durante as visitas de campo, demonstrações de experiências exitosas de café irrigado, via gotejamento, com vergamento e fertirrigação, que garantiram uma produtividade 60% a mais. A técnica consiste no envergamento de um galho de uma planta de dois meses, do qual é possível produzir até seis ramos produtivos. A pulverização aérea também será demonstrada.

Vale ressaltar que a Festa do Café Conilon é uma iniciativa dos Produtores Rurais de Itabela e conta com o apoio do Governo do Estado, através da Secretaria da Agricultura, além do Sistema Faeb/Senar e do Sebrae.

Potencial

O Extremo Sul baiano, única região produtora do estado, responde por uma produção anual de 600 mil sacas processadas de café conilon, destacando-se as produções dos municípios de Itabela, Itamaraju, Eunápolis, Prado e Porto Seguro, sendo Itabela o maior produtor de tecnologias em produção, com o único viveiro certificado, o São Francisco, a dois quilômetros do centro da cidade. Além da produção de mudas certificadas, o município é referência no trabalho de implantação das mesmas, nas tecnologias de preparo de solo, plantio, tratos culturais, entre outros. Cerca de 40% da produção é irrigada. No ranking nacional de produção do café conilon, a Bahia se destaca em terceiro lugar, atrás somente dos estados do Espírito Santo (com 8 milhões de sacas) e de Rondônia (1,6 milhão de sacas). Utilizado na produção do café solúvel ou na mistura com o café o arábica, para produção do café de qualidade, dando a cor e o aroma tradicional do café, o café conilon é indispensável economicamente.

A região também é referência na pecuária de leite, apicultura e fruticultura, se destacando a produção de mamão, maracujá e banana. Experiências também estão sendo feitas a partir da polinização do café, que deverá garantir até 35% de produtividade com a atividade.

Como garantia de sustentabilidade, o pesquisador do Incaper, instituto de referência do estado do Espírito Santo, Romário Gava Ferrão, reforça a necessidade de utilização de variedades mais produtivas e tolerantes à seca e à praga, que ofereçam maior resistência a doenças e minimizem a utilização de agrotóxicos. “A partir da adubação correta, também garantimos a otimização dos custos e a sustentação econômica. Isso é sustentabilidade, é garantia de boa remuneração ao produtor, a produção de um café mais ‘pesado’, com aroma e sabor”, considera. O também coordenador do programa da cafeicultura do Espírito Santo apresentou as tecnologias que foram desenvolvidas pelo instituto e que estão sendo aplicados na região do Extremo Sul, com potencial grande, sobretudo na melhoria genética. “As mesmas já foram estendidas na região, viemos aqui agora para reforçar a utilização de forma sustentável”, completou.

Ainda segundo ele, através das informações, com base científica e aplicada, o Espírito Santo conseguiu triplicar sua produtividade média, em 15 anos, passando de nove, para 28 sacas por hectare. A produção saiu de 60, para a marca de 120 sacas, por hectare e de 2,4 milhões, para 8 milhões de sacas, registrando um incremento de 211%. “Acredito que a região do Extremo Sul baiano tem um potencial de crescimento muito grande, por ser uma região de empreendedores, com uma topografia plana, que favorece o desenvolvimento da espécie e, sobretudo, pela constante busca por inovações, incentivos e novos modelos de gestão. O principal desafio da cultura, de um modo geral, ainda é produzir tecnologia de baixo custo”, avalia. O preço da saca de café também não é satisfatória devido à última estiagem. O valor pago pelo produto, que antes era de R$200,00, passou para R$ 155,00.

“Temos que aproveitar essa experiência do estado vizinho sim, mas adequá-la à realidade baiana, ao nosso clima, topografia,etc”, ressaltou o presidente da Assocafé, João Lopes, valorizando a iniciativa da Seagri de implantar uma estação experimental na região. Lopes ainda falou sobre o trabalho que está sendo desenvolvido pela Câmara Setorial do Café, recém criada pela Secretaria, mas que é representativa na sua formação. O órgão consultivo é formado por representações de toda a cadeia e já diagnosticou os principais gargalos, no que se refere à dificuldade de custeio, onde a disponibilização dos recursos segue o calendário produtivo do café arábica; a insegurança jurídica, a cerca da ocupação de terras, a legislação ambiental, entre outros.

“Para a maioria desses pontos, já obtemos respostas, é o caso da criação de um aparato legal, regulamentado pelo Governo e que promoveu uma adequação da legislação ambiental no Oeste do estado. Agora, o Governo realiza vistorias, emitindo as licenças e o Ibama, apenas homologa; Em relação à dificuldade para aplicar as leis trabalhistas, na contratação da mão de obra para a colheita do café, já podemos contar com o Simples, ferramenta desenvolvida pelo Sebrae, para os pequenos empresários, e que podem ser adequada às unidades produtivas”, comemora. “Pleiteamos ainda a modificação na legislação do Bolsa Família para que, no período de plantio, os colhedores de café tenham seu benefício apenas suspenso e não, cancelado”, sugeriu o também secretário executivo da Câmara do Café, João Lopes.

Sobre Carlos Augusto 9462 Artigos
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).