Discurso do presidente Lula durante solenidade de outorga da Grã-Cruz da Ordem Dois de Julho Libertadores da Bahia

Jornal Grande Bahia compromisso em informar.
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Meu querido companheiro Jaques Wagner, governador da Bahia,

Nossa querida primeira-dama Fátima Mendonça,

Companheiro Waldir Pires, ex-governador da Bahia,

Ministros Guilherme Cassel, do Desenvolvimento Agrário; Marcio Fortes, das Cidades; e Luiz Dulci, da Secretaria-Geral da Presidência da República,

Nosso querido ex-governador e senador João Durval,

Deputado Marcelo Nilo, presidente da Assembleia Legislativa da Bahia,

Meu caro companheiro João Henrique, prefeito de Salvador,

Senhoras e senhores parlamentares federais e estaduais,

Nosso querido companheiro Jorge Hereda, vice-presidente da Caixa Econômica, que vai amanhã comigo entregar casas, lá em Feira de Santana,

Companheiros da Bahia,

Companheiros que vieram comigo,

Dona Ieda,

Meu querido Lázaro,

Eu, Wagner, diferentemente de você, eu penso que depois de dizer duas palavras eu vou ler o meu discurso, porque ultimamente eu tenho… Não sei se é porque está chegando perto do fim do mandato, mas eu tenho, eu tenho chorado em demasia.

E o Wagner esqueceu apenas um dado histórico importante: no dia 15 de julho de 1978, quando nos encontramos no Hotel Bahia, em um Congresso dos Petroleiros, dia em que nasceu o meu filho Sandro – eu recebi a notícia que ele nasceu às nove horas da manhã, no hotel da Bahia. Era um seminário feito pelos petroleiros, e um seminário que tinha dois personagens. Um deve ter sido muito amigo do Waldir Pires, que era o nosso querido Almino Afonso, e o outro, também amigo de muita gente aqui, era o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que tinha vindo participar de um seminário que os petroleiros fizeram, e foi exatamente no dia 15 de julho de 1978 que, pela primeira vez, saiu da minha boca a ideia de que nós tínhamos que criar um partido dos trabalhadores. Certamente, naquele tempo, nós nem sabíamos como criar partido. Tinha muito partido que já se achava dos trabalhadores, porque tinha muito partido naquele tempo, partido de esquerda, que vivia na clandestinidade e cada um deles se achava mais representante dos trabalhadores do que outros. Então, nós ousamos criar um partido dos trabalhadores e legalizar esse partido. E eu, sinceramente, jamais imaginava que em tão pouco tempo a gente conseguiria chegar onde nós chegamos. Ou seja, Getúlio tentou criar o PTB, criou o PTB, e não teve a mesma performance em 20 anos que nós tivemos em 20 anos.

E isso nós devemos ao espírito revolucionário do povo brasileiro, que parece ser muito cordato, muito gente fala que nós somos um povo muito ordeiro, mas a gente sabe o que quer. E o povo está aprendendo muito rapidamente os seus direitos, os seus deveres. O povo está gostando de ser respeitado, o povo está gostando de ser admirado, o povo não quer ser mais tratado como gente de segunda categoria. Nós não queremos que ninguém se sinta melhor do que nós, nem nós queremos nos sentir melhores do que ninguém. Nós apenas queremos ser iguais, iguais, com respeito.

Eu acho, Wagner, que nessa minha experiência de Brasil, eu vi o Lázaro cantando o hino, que agora é hino oficial da Bahia, e eu só conheço dois estados brasileiros, só conheço dois estados brasileiros em que em praça pública o povo sabe de cor o hino de seu estado e canta, com muito orgulho, que é o estado do Acre, se tiver cem mil pessoas na praça, todos sabem cantar o Hino do Acre, e o Rio Grande do Sul, onde também todos sabem cantar o Hino do Rio Grande do Sul. Não sei se Minas tem hino, se São Paulo tem hino. A verdade é que a maioria dos estados esqueceu-se de cantar o hino do estado, esqueceu-se de cantar o hino da cidade, esqueceu-se… As pessoas vão nascendo, crescendo, virando adulto, e as pessoas vão esquecendo os valores que nós mesmos construímos.

Então, eu acho, Wagner, que você é muito jovem ainda, os cabelos brancos certamente não são pintados, mas você é muito jovem, eu acho que você vai ver que a Bahia será muito mais Bahia, e o povo baiano será muito mais orgulhoso de ser baiano no dia, no dia em que o povo baiano começar a aprender na escola a cantar o seu hino. Porque, aí, as pessoas pegam amor, as pessoas passam a acreditar, e as pessoas passam a viver um pouco a história daqueles que morreram e que, muitas vezes, a gente nem foi educado para saber que eles existiram.

O Brasil é um país que conta pouco a história deles, ou seja, até Tiradentes, que é o único herói reconhecido nacionalmente, ele foi reconhecido como herói pelos que o mataram. E nós fomos esquecendo, aí muitos dos nossos heróis viraram bandidos. Por exemplo, o Zumbi dos Palmares é tratado como se fosse um bandido quando, na verdade, ele deveria ser tratado como herói, porque tudo o que ele fez foi para acabar com a escravidão do país.

Eu, Wagner, eu, de vez em quando, tenho feito algumas críticas a vários companheiros, em atos que nós participamos, porque, muitas vezes, nós – e eu estou vendo aqui alguns companheiros que participam ativamente da luta política do país, companheiros com tradição de esquerda – que muitas vezes nós tratamos aqueles que nós deveríamos tratar como heróis, apenas como vítimas, ou seja, nós ficamos, às vezes, martelando muito mais o castigo a quem os matou do que a gente enaltecer a imagem das pessoas que morreram acreditando em uma coisa.

Vamos pegar, por exemplo, o Gregório Bezerra, que foi arrastado pelas ruas de Recife. Ou seja, em vez de nós ficarmos querendo saber quem arrastou Gregório Bezerra, nós precisamos valorizar o significado do sacrifício a que ele foi submetido. Poderíamos pegar Marighella, que é aqui, desta terra. Em vez de a gente ficar querendo condenar eternamente o Fleury, vamos valorizar as razões pelas quais Marighella fez o que fez. E, assim, a gente iria construindo mais heróis neste país. Iríamos construindo mais gente que pudesse servir de exemplo. E eu acho que isso é um equívoco histórico que foi incutido na nossa cabeça pela doutrina da elite dominante, e que nós aceitamos.

Eu, ontem, participei de um ato que foi a sanção do Estatuto da Igualdade Racial. E, como eu sou muito amigo de muita gente do Movimento há tantos anos – a vantagem de a gente ser velho é essa, é que a gente vai ficando amigo de muita gente –, eu sei que tem gente que não gostou do Estatuto tal como foi aprovado. Sei. Mas as pessoas não se dão conta da correlação de força existente na sociedade e de que ou a gente constrói aquilo que é possível mediar e encontra um caminho do meio, ou a gente passa mais 130 anos tentando construir alguma coisa e não consegue. Ou seja, em uma escada de 20 degraus, a aprovação do Estatuto foi 14, foi 15, foi 16. Vamos construir os que faltam, em vez de apenas de ficar lamentando aquilo que a gente não conquistou, vamos brigar.

E eu, companheiro governador Jaques Wagner, queria te dizer, no meu discurso escrito, o seguinte:

Receber a Ordem Dois de Julho é uma honra inestimável para qualquer brasileiro e, sobretudo, para um brasileiro de Pernambuco, porque, em algum tempo, os dois estados tiveram muitas pendengas. Significa que nem você e nem eu temos mágoa. Aliás, ontem eu disse que não há nenhuma razão para o ser humano ter mágoa. Ter mágoa, ter ódio, não existe espaço… A passagem nossa pela Terra é tão curta que a gente tem que viver cada minuto da forma mais alegre possível, mais feliz possível. Porque ficar com raiva de alguém, João Durval, só dá azia na gente e gastrite. O que é bom é a gente não ficar com raiva de quem fez raiva para a gente porque é ele quem vai ter gastrite, ele que vai ter azia. Então, significa que eu e você, Wagner, estamos aqui em uma reconciliação histórica entre Bahia e Pernambuco.

Bem, a Ordem, ela representa os mais altos valores da democracia e da soberania nacional e é concedida pelo povo de uma terra querida a todos os habitantes deste país. Essa é uma característica da Bahia. Eu duvido que tenha um brasileiro, do Oiapoque ao Chuí, de Natal a Rio Branco a Assis Brasil, no Acre, que não tenha um gostinho da Bahia, que não admira a Bahia.

Eu fui agora para a África, visitei vários países, comecei em Cabo Verde, me reunindo com o pessoal do Cedeao, que tem 15 países, depois eu fui ao Quênia, depois eu fui à Guiné Equatorial, depois eu fui à Tanzânia, depois eu fui à Zâmbia, depois eu fui à África do Sul, onde o Brasil já não estava mais. Ou seja, e todo mundo na África se sente um pouco parecido com os baianos. Por isso é que ontem, companheiro Wagner, quando nós aprovamos o Estatuto da Igualdade Racial, sancionamos, nós também sancionamos a criação de uma universidade, na cidade de Redenção, no Ceará, onde começou a luta pela [contra a] escravidão, uma universidade para africanos e brasileiros. Dez mil alunos dos dois países, dos dois continentes, do Brasil e da África, e vamos fazer uma extensão dessa universidade aqui, na Bahia.

A Bahia é o berço do Brasil. Aqui teve início o Brasil Colônia, nascido pelas mãos dos portugueses que aportaram na Baía Cabrália. Havia uma coisa interessante que a gente só aprendeu agora, no século XX, dita pelo Amyr Klink, ou seja, é que qualquer que fosse a embarcação que pegasse a corrente marítima que Cabral pegou, chegaria aqui, na Bahia. Então, não havia hipótese, não havia hipótese de alguém descobrir o Brasil por outro lugar. O meu querido Pernambuco que me desculpe, mas segundo o Amyr Klink disse é que chegaria aqui, na Bahia. Se soltar uma garrafa, ela vai chegar aqui na Bahia.

Bem, e também o Brasil soberano, criado pelas mãos dos brasileiros que consolidaram a sua independência no movimento que teve episódios decisivos nesta terra. Todos sabemos que se não fosse a coragem do povo baiano, o sonho de um Brasil livre ainda demoraria mais a ser concretizado. Possivelmente, os portugueses de Portugal não iriam respeitar o “Independência ou Morte” de Dom Pedro, lá no Riacho do Ipiranga, tão poluidinho lá em São Paulo, hoje. Por isso, devemos sempre nos lembrar de valorosas heroínas: Maria Quitéria, a guerreira invencível; e Joana Angélica, a abadessa que sacrificou a própria vida para proteger soldados brasileiros, impedindo a invasão do Convento da Lapa pelas tropas portuguesas.

Temos que manter sempre, em nossas recordações, também, os exércitos de caboclos e caboclas, negros e negras, brasileiros e brasileiras, de todas as origens, que fizeram o Grito do Ipiranga ecoar em todos os recantos do país, nos tornando uma nação dona do seu próprio destino. Já se passaram quase dois séculos desde aquele 2 de julho em que até o sol se tornou brasileiro, como diz o Hino. E o povo determinou que com tiranos não combinavam os nossos corações, como canta o nosso querido Lázaro no Hino da Bahia.

E hoje, felizmente, não precisamos mais lançar mão das espadas e dos mosquetes para combater a tirania. A luta pela afirmação de nossa independência e pela consolidação de nossa soberania, contudo, permanece. Nossas armas, agora, são a democracia e o desenvolvimento, e a participação cada vez maior de todos os segmentos da população, nos momentos decisivos que fazem parte da conquista da autodeterminação nacional.

Quero, portanto, agradecer, Wagner, do fundo do coração a você, como governador da Bahia, e a toda população baiana por esta Comenda que recebo no dia de hoje. Considero que mais do que reconhecer os méritos de um presidente da República, ela simboliza, isto sim, os avanços coletivos de toda uma nação que consolida a cada dia a independência de imensos segmentos do seu povo.

Na verdade, meu querido governador, Jaques Wagner, é que embora dom Pedro tenha gritado, em 22 de setembro de 1822, sete de setembro, embora a Bahia tenha feito um dois de julho, um ano depois, a luta… A verdade é que uma parte da elite brasileira ainda queria continuar colonizada. Ainda queria um pouco aos portugueses, depois um pouco aos ingleses, depois um pouco aos Estados Unidos, ou seja, houve, durante uma parte desses quase 200 anos, momentos em que uma parte das pessoas que governava este país achava que não podia ser uma nação livre, que nós dependíamos sempre de alguém.

Eu conto sempre uma história de uma reunião que eu fiz antes de ser presidente da República, como o grande empresário brasileiro e estávamos eu e o meu vice, o Zé Alencar, que também é um grande empresário. E, a cada pergunta que o outro empresário fazia, o que eu ia fazer no governo, eu respondia. E cada vez que eu respondia, o cidadão falava: “O império não deixa”. Aí fazia outra pergunta, eu respondia e o cidadão falava: “O império não vai deixar”. E foi, e na quarta pergunta que o cidadão repetiu “O império não deixa”, que eu e o Zé Alencar falamos para ele: “Espera aí, companheiro, já houve a independência do Brasil. Se tiver alguém no mundo que não queira que o Brasil seja independente, nós temos que lutar outra vez, para conquistar a nossa independência”.

E o povo brasileiro, o povo brasileiro, Wagner, está fazendo isso, está fazendo isso. O que nós precisamos, na verdade, é aprender a compreender o que está acontecendo neste país. Outro dia eu vim aqui, tinha um monte de companheiros da Bahia com faixas, protestando contra as barracas da praia que estão mudando. Hoje, certamente, tinha uns companheiros com apito aqui, acho que era gente do Poder Judiciário. E em cada lugar que a gente vai tem alguém sempre, com uma faixa, reivindicando ou gritando. Eu acho que essa é a coisa extraordinária deste país. E, muitas vezes, a gente fica zangado, muitas vezes a gente fica zangado.

De vez em quando, na porta da minha casa, lá no Palácio do Alvorada, minha casa temporária, o pessoal fica com aquelas, aquelas vuvuzelas, parece que está na África do Sul vendo a Copa do Mundo, reivindicando… Não é nem comigo, até coisa que é o Congresso Nacional que tem que votar, eles vão lá para a minha casa, como se eu pudesse mandar o Congresso votar.

Eu, às vezes, Wagner, acho que essa é uma coisa maravilhosa, porque é o resultado do que aconteceu em dois de julho, aqui. Porque a independência conquistada na Bahia não foi uma concessão, foi uma disposição. E veja o avanço que houve, entre 1817 a 1823.

Quando houve a Confederação do Equador porque não sei se Vossa Excelência sabe, Pernambuco, em 1817, cinco anos antes do Brasil, já tinha conquistado a sua independência, ou seja, por isso perdeu muita coisa e, por isso, muita gente foi sacrificada. Mas, naquele tempo, a elite daquela época era tão perversa que não deixavam os negros e os índios participarem da Revolução. Por quê? Porque eles tinham medo que depois que os índios e os negros ajudassem eles a derrotar os portugueses, os índios e os negros iriam se revoltar contra eles e que iriam fazer uma segunda revolução. Aqui na Bahia, não. Aqui, na Bahia, já participaram os negros, já participaram os índios.

Então, essas pessoas, Wagner, que às vezes ficam buzinando, gritando, às vezes apitando, no nosso tempo era mais fácil fazer sindicalismo, que quando a gente queria ser ouvido pelo governo, a gente colocava 20 mil pessoas na rua, 30 mil, 40 mil, 50 mil, aí as pessoas ouviam a gente. Hoje, eles não conseguem mais fazer isso, então eles colocam um cara para buzinar, outro… Sabe, é assim.

Mas a gente, Wagner, tem que entender o seguinte: esses companheiros são exatamente o resultado e o ensinamento que foi dado para eles pelo Dois de Julho, aqui. A gente tem que ter em conta, Prefeito, Governador e companheiros, que esses companheiros, que por mais que eles reivindiquem, por mais que eles peçam, por mais que eles gritem, por mais que, às vezes, estejam chateados conosco, eles não são nenhum inimigo nosso, eles são o nosso povo, o povo brasileiro que, possivelmente, num determinado momento, esteja pensando diferentemente do governo, como os revolucionários da Bahia pensaram um dia diferente da Coroa portuguesa.

Por isso, meus queridos companheiros, esse dia será, para mim, inesquecível. Eu sei que no dia 1º de janeiro eu tenho que passar a minha faixa para outra pessoa, mas eu tenho uma faixa agora, de reserva, que se eu… quando eu estiver com saudade, eu coloco a faixa. E se o Hotel da Bahia vai construir uma suíte presidencial, você pode bem orientar para o cara fazer uma menorzinha para um ex-presidente ter direito a uma suitezinha.

Um abraço. Que Deus nos abençoe. E obrigado a você, companheiro Wagner.

Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República.

Salvador-BA, 22 de julho de 2010

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