João de Deus. O homem de Abadiânia

Juarez Duarte Bomfim.
Juarez Duarte Bomfim.

A atitude de João de Deus (Casa de Dom Inácio, Abadiânia-Goiás) quanto ao tema religião é complexa. “Sou católico”, responde ele, quando pergunto diretamente. No dia seguinte, define-se como “um espiritualista, que acredita em Deus, na fé, no amor”. No mesmo dia, revela que vai “à Assembléia de Deus. Vou aonde eu me sentir bem, para ouvir a palavra de Deus”. E argumenta: “Todas as religiões são boas. Maus são alguns dirigentes”. Sua atitude ecumênica ficou clara quando me levou até Céu de Abadia, uma igreja do Santo Daime que funciona perto de Abadiânia. “O seu João nos apoiou desde que chegamos aqui”, diz Wilson Francisco, padrinho do local. “Nos anos 1970 eu já dizia que o chá não era droga e fui preso e perseguido pelas autoridades por causa disso”, lembra João. Reportagem completa em: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDG85321-7943-209-8,00-O+HOMEM+DE+ABADIANIA.html

É um belo fim de tarde de sexta-feira e estou fazendo hora em um jardim. Ao meu redor, espalham-se cerca de 70 pessoas de todas as idades, e estamos aguardando que o homem que dirige esse lugar apareça para nos dizer adeus. Sem ter muito o que fazer, começo a escutar a conversa de quem está por perto. Identifico vários franco-canadenses, um casal alemão com duas filhinhas, uma menina com aspecto de indiana falando francês com sotaque (de onde será?), duas senhoras norte-americanas, outras duas da Austrália e um grande grupo proferindo algo totalmente incompreensível, que depois descubro ser húngaro. Quase todos vestem branco, e o papo segue animado. O clima é aquela mistura de alegria com nostalgia antecipada, característico do fim de qualquer viagem bem-sucedida. Amanhã todos estarão voando de volta a seus países, após uma estadia de pelo menos duas semanas na pequena Abadiânia, no interior de Goiás.

Uma porta se abre. Dela sai um homem corpulento, na faixa dos 60 anos e igualmente vestido de branco, que caminha devagar. Está visivelmente cansado e tem motivos para isso, pois conversou com mais de 2.400 pessoas nos últimos três dias. Ele é cercado pela legião de estrangeiros, ávidos por tirar uma foto ao seu lado. Não há empurra-empurra, mas há competição, e o ritmo é de linha de montagem. Durante 20 minutos, ele posa para os flashes e faz questão de mostrar-se sorridente. Quem consegue sua foto fica satisfeito, pois cruzou continentes para encontrar o homem pessoalmente, ainda que por poucos instantes.

Esse personagem é João Teixeira de Faria, 66 anos, mais conhecido como João de Deus. Ele é aquilo que os espíritas chamam de “médium de cura”, alguém que, supostamente sob a influência de seres espirituais, identifica males, prescreve tratamentos e realiza cirurgias. A cena se desenrolou nos jardins da Casa de Dom Inácio, instituição criada por ele para oferecer tratamentos com claro viés espírita.

A mediunidade de João é o coração da Casa de Dom Inácio. Ele tem 1,80 m, voz grave e personalidade forte. Fala com sotaque do interior de Goiás, com o jeito simples de quem teve de interromper os estudos na segunda série para trabalhar. Suas palavras são assertivas. “Minha missão é servir de instrumento às entidades de luz. Quem cura é Deus e as entidades, eu nunca curei ninguém”, diz. O tom mistura didatismo e paciência. Afinal, a explicação é repetida desde os anos 1950, quando João passou a ser procurado por doentes em busca de alívio e cura. “Não sou um pregador. Estou procurando mostrar às pessoas o que é a verdade, o que é o amor. Mas é difícil alguém chegar a Deus pelo amor. A maioria chega pela dor. Se você ficar cego um dia, vai buscar a Deus”, diz.

Reportagem completa em:
http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDG85321-7943-209-8,00-O+HOMEM+DE+ABADIANIA.html

Sobre Juarez Duarte Bomfim 745 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: juarezbomfim@uol.com.br.