Humanizemos a globalização | Por José Carlos García Fajardo

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É um fato o advento da aldeia global. Os meios de comunicação e as novas tecnologias nos aproximaram, facilitando o intercâmbio de informação e a possibilidade real de compartir os saberes entre toda a humanidade. Mas esta conquista positiva e cheia de possibilidades corre o perigo de desvirtuar-se pela apropriação abusiva que está sendo feita pelos grandes interesses econômicos e financeiros. O mesmo havia acontecido com a revolução industrial e com as conquistas da técnica.

Não há que se assustar, mas é preciso conhecer a sua dinâmica para melhor servir-nos daqueles em benefício de todos os seres e de nosso entorno. Nós, das organizações humanitárias, temos o dever de utilizar todos os meios científicos, econômicos e técnicos para lutar pela justiça, pela paz e por uma aproximação entre os povos que facilite uma verdadeira mestiçagem cultural. Não um sincretismo estéril, mas sim o fecundo processo de múltiplos distintos que produzem um ser novo. É preciso inventar o futuro para humanizar o presente. Os odres velhos não servem além do que de referência, nunca como imposição para conter o vinho novo. Não há que se apegar ao passado senão para aprender seus ensinamentos e assumir o desafio do futuro com toda sua carga de possibilidades inéditas.

Algumas das características da chamada globalização ou mundialização são: a abertura dos fluxos de capital sem restrições, a debilidade do Estado frente aos poderes econômicos e uma maior desigualdade entre países e setores sociais. Não pode ser boa porque padecem os mais fracos e até ameaça o Estado ou as formas de organização supranacionais. E os mais fracos precisam de instituições que os defendam dos poderosos e os ajudem, para que possam ajudar a si mesmos.
Quando vaticinávamos o fim do Estado-nação, feito obsoleto pelas novas tecnologias que não conhecem fronteiras, talvez não dispuséssemos do necessário substituto institucional na forma de federação, de anfictionia ou de ente supranacional para evitar o vazio.

Por outra parte, a proteção dos direitos humanos, a gestão do meio ambiente ou a manutenção da paz afetam à comunidade internacional e esta deve manejá-los de forma coordenada. É possível contar com um governo mundial ou devemos inventar fórmulas mais adequadas para evitar o perigo do “Big Brother” de Orwell? Sempre pairará sobre nossas cabeças a correta formulação de ordem e de justiça, com o perigo de impor o primeiro para que se possa administrar a justiça. As palavras de Goethe “primeiro a ordem, depois a justiça” podem ter outras leituras: “precisamos da ordem como fruto da justiça, pois isto é a paz”.

O triunfo neoliberal dos anos 90 demonstrou estar vazio, porque produziu o enriquecimento de poucos e a miséria de bilhões de seres. Não pode ser esse o caminho, por isso devemos buscar juntos, opções válidas para controlar o entorno social.

A nova era nos apresenta desafios perante os quais devemos buscar propostas alternativas. Que não haja protesto sem proposta viável e sustentável.

Estamos vivendo uma mudança que nos leva da sociedade industrial à sociedade da informação. É preciso substituir a “sociedade de consumo” pela “sociedade do compartir”, a sociedade da “segurança a todo custo” pela da “solidariedade como alternativa a uma desigualdade injusta”. O futuro já chegou, mas seus signos nos escapam porque desconhecemos seus códigos. Viajamos com o pé no acelerador, mas com a mirada no retrovisor. Vivemos uma mutação da qual quase não somos conscientes. Mas, com Nietzsche, podemos afirmar que às vezes “é preciso ter um caos dentro de si mesmo para poder dar à luz uma estrela fugaz”. O caos também possui leis que o regem, mas que ainda desconhecemos.

A globalização está produzindo aumentos de desigualdade em todas as sociedades e entre as distintas comunidades humanas.

A liqüidação do modo comunista acelerou o pensamento único e a confusão entre economia de mercado e sociedade de mercado.

Os esperados dividendos da paz, que contribuiriam para uma nova ordem internacional, abriram caminho a espantosos conflitos regionais por razões de identidade cultural, étnica e religiosa. Surgem novas formas de nacionalismo excludente e respostas mais duras contra o temor ao imperialismo cultural, que se atribui à globalização.

As oportunidades são imensas, pois a confluência entre uma política solidária em cada sociedade nacional e no plano internacional pode ser fundamental para se conseguir uma política econômica mais justa e solidária. Como sustenta um ilustre político: “É provável que o negócio mais rentável que tenhamos adiante seja a guerra contra a pobreza. A proposta deve responder – a partir dos princípios de liberdade, justiça e solidariedade – às novas realidades, com atitudes irresignadas e abertas à mestiçagem necessária, como condição para abrir novos espaços”.

Uma visão progressista e solidária deve encontrar as fórmulas mais sustentáveis para a sociedade emergente. A autêntica matéria-prima é a capacidade de inventar o futuro. Devemos nos preparar para assumir este desafio, superando os condicionamentos de uma sociedade que educa para a passividade, o esbanjamento, o conformismo e o consumismo alienante e despersonalizante.
Mas sempre é possível a esperança, que não é de futuro, mas sim do invisível.

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