Escolhendo entre o certo e o certo | Por R. C. Amorim Neto

Desde crianças – se tivemos a sorte de crescer em um lar onde pai não joga filho pela janela do sexto andar, filha não é feita escrava sexual, e marido não esquarteja a amante, como parece ter virado moda – aprendemos dos adultos a decidir entre o certo e o errado. Apesar disto, algumas vezes caímos na tentação do mais fácil, mais prazeroso aqui e agora em detrimento do que é justo e correto a longo e médio prazo. Contudo, mais difícil do que escolher entre certo e errado, é escolher entre certo e certo.

Uma pequena história talvez seja útil para melhor entender o tipo de dilema a que me refiro. Roberto conhecia João desde os tempos da faculdade, quando começaram uma grande amizade. Foi Roberto quem indicou o amigo para a vaga de chefia na empresa em que, pouco depois, se tornara presidente. Desde que chegara na empresa, João desenvolveu um laço de amizade bastante forte com Paulo. Pelo fato de os filhos de ambos atenderem a mesma escola, não apenas eles, também as esposas e as crianças se tornaram amigos.

Acontece, porém, que para enfrentar as consequências da crise financeira uma das medidas assumidas por Roberto foi a demissão de alguns funcionários. Em um almoço com João, o presidente da empresa desabafou sobre quão difícil estava sendo ter que lidar com a crise, especialmente pelo fato de ter que demitir alguns bons profissionais, como seria o caso de Paulo, de quem Roberto sabia que João era amigo. O presidente terminou aquela conversa dizendo: “Sei que posso confiar em você. Por favor, não conte isto para ninguém. Eu apenas precisava desabafar.”

A princípio João tentou ignorar o fato, afinal era mais um desabado de seu amigo que tinha tantas responsabilidades e poucas pessoas em quem confiar. Acontece, porém, que duas semanas depois, Paulo ficou sabendo que haveria uma onda de demissão na empresa e perguntou a João se ele tinha alguma informação a respeito, pois ele estava bastante preocupado com sua situação profissional. Inesperadamente João se encontrou diante de um grande dilema: deveria ele contar a verdade para Paulo ou manter-se leal a Roberto?

Verdade ou lealdade? Tarefa difícil para qualquer um! Acredito que não aja receita pronta, pois este tipo de decisão geralmente exige a consideração de muitos fatores. Uma forma de resolver tal dilema seria pesar as consequências e decidir por aquilo que traria mais benefício para o maior número de pessoas. Por exemplo, se João não revelar nada a Paulo, e mais tarde este venha a descobrir, pode ser que ele se sinta traído pelo amigo, e além disto é possível também que a demissão aconteça no exato dia em que Paulo faça um empréstimo para quitar o apartamento em que vive. Por outro lado, se João não se mantém leal a Roberto, a perda de confiança entre os amigos pode chegar, inclusive ao limite da demissão de João. Como também a notícia de demissões poderia se espalhar gerando desespero nos funcionários e provocando a perda de credibilidade da empresa no mercado. O que você escolheria?

Outro modo possível de resolver tal dilema é considerando aquela regra básica: faça aos outros o que gostaria que eles fizessem a você. Estaria João mais disposto a mentir e abrir um precedente para que outros também mentissem para ele ou abriria ele mão da lealdade e se permitiria também o risco de ser traído pelos amigos?

Como você enfrentaria este dilema? Claro que para nós brasileiros a criatividade que temos em abundância nos levaria a pensar em uma terceira ou ainda em quarta forma de resolver o problema… Talvez até contando um pouquinho da verdade e mantendo parcialmente a lealdade… Entretanto, para aqueles que estão comprometidos com alguns valores não é possível vivê-los pela metade. Jogos retóricos não fazem muito sentido em certas situações. Para tornar as coisas mais difíceis, algumas vezes, tais dilemas aparecem inesperadamente e exigem resposta imediata, sem o devido tempo para reflexão.

Quando somos crianças levamos um tempo para aprender a diferença entre o certo e o errado. Se aprendemos esta lição, quando nos tornamos adultos as decisões que fazemos assumem um outro nível de complexidade… Afinal, você escolhe o certo ou o certo?

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