A literatura como filosofia de vida | Por Marcelo Vinicius

O jovem intelectual feirense Marcelo Vinicius.
O jovem intelectual feirense Marcelo Vinicius.

Apesar de que não tenho nada contra, não falarei de livros de puro entretenimento, até porque entretenimento você encontra em qualquer lugar: com amigos, festas, parques, viagens… Mas, o conhecimento não se encontra em cada esquina, digo o conhecimento mais crítico e não o clichê, pois este qualquer um o depara num “boteco” ou em debates de pseudo-intelectuais, os quais estão mais preocupados em inflar seus egos.

Aonde quero chegar? Conheci um livro intitulado “As Virgens Suicidas” de Jeffrey Eugenides. A obra começa e se estende por uma trama muitíssimo interessante, ao contar uma história que no período de um ano, cinco jovens irmãs cometem suicídio. Um grupo de meninos vizinhos, obcecados pelas mortes, chega à meia-idade com um museu de evidências, que vão de diários a roupas das garotas. Mas, mesmo depois de vinte anos, estes homens ainda encontram dificuldades para compreender aquelas almas femininas.

No entanto, não nos prenderemos na história em si, que por sinal procura entender a alma humana de uma maneira distinta, mas sim na trama, no jogo de segredos que o livro oferece, pois ao contrário de um filme de mistério esse livro não tem solução evidente, não há uma razão pela qual as meninas se mataram. Este livro admite que não há razões óbvias para as mortes das meninas, ou pelo menos, não são tão óbvias quanto achávamos que eram. E é isso que faz este trabalho literário, como outros dessa mesma natureza, ser interessante.

Podemos citar mais um trabalho importante, nesse aspecto: Dom Casmurro, que é um romance do escritor brasileiro Machado de Assis, o qual levanta uma dúvida: se Capitu realmente traiu ou não Bentinho. Apesar de muitas teorias sobre o assunto e dentre outros fatores, Dom Casmurro continua sendo polêmico, mesmo depois de um século de existência.

Esses livros demonstram o quanto são atraentes e muito importantes às obras que não se tem explicações lógicas, pelo menos não são tão óbvias, sobre uma determinada questão. Livros não precisam ser óbvios. Eles precisam ser coadjuvantes, mas não a ponto de oferecerem uma solução pronta para o leitor. Livros têm que fazer o leitor pensar e não só fazê-lo “viajar”, mas viver realmente o fato e por ser um fato vivido é o próprio leitor que chegará a uma conclusão sobre o que foi experienciado. Cada caso um caso.

Um dos papéis da literatura é levar o leitor para uma vida que ele jamais viveu (ou se viveu, apresentá-la com outro aspecto) e assim se tornar mais conhecedor, pois só vivendo, experienciando, as coisas é que podemos nos desenvolver.

A pessoa que lê livros desse estilo, além de melhorar o seu cognitivo, pois ela procura desvendar os mistérios e sua inteligência e sua sensibilidade estão sendo desenvolvidas na trama, acaba também tendo várias “vidas” e como são vidas, só quem viveu pode concluir algo mais concreto sobre o acontecimento, é claro. Não há ninguém, nenhum tipo de autor como nos livros de auto-ajuda, resolvendo os seus problemas. A literatura não é um padre, não está lá para ditar sua vida. Até porque a vida é mais complexa que tais auto-ajudas.

A boa literatura tem como filosofia a idéia de que existem algumas coisas que você tem que fazer por si mesmo… Se eu bebo, a sua sede continua; se eu como, a sua fome continua… Ninguém pode matar a sua sede, sua fome, se não você mesmo.

Tudo o que você não desenvolveu, não viveu, será perdido. Você não pode desfrutar, confiar, naquilo que não se desenvolveu em seu ser naturalmente. A verdade não pode ser dada, ela não é transferível. E é nisso que a literatura, dessa natureza, procura trabalhar ao oferecer ao leitor uma vida intrigante para que possa resolvê-la de acordo com a sua capacidade, em vez de dar algo pronto.

Literatura de qualidade faz os leitor viver situações com problemas contidas na manipulação da trama e conseqüentemente ele cresce através da procura de soluções e de alternativas. Favorecendo a concentração, a atenção, o engajamento e a imaginação. Como decorrência o leitor aprende a pensar, estimulando sua inteligência.

Para que o livro seja significativo para o leitor é preciso que tenha pontos de contato com a realidade, por isso obras de autores como Machado de Assis, Franz Kafka, Clarice Lispector, Fiódor Dostoievski, Caio Fernando Abreu, Ferreira Gullar, José Saramago, Jeffrey Eugenides, etc. são ótimas. Já que a vida real não permite ensaios, você pode ensaiá-los nessas obras realísticas, tendo mais “bagagem” para viver melhor, uma vez que elas têm algo a dizer sobre a vida, através de uma filosofia crítica, é evidente.

Então leia livros dessa natureza e permita-se viver livremente e desfrutar de todas as experiências necessárias ao conhecimento! Lembre-se que todos os ensinamentos são para esclarecê-lo como tal fato acontece, para falar a respeito do processo, mas ninguém pode fazer por você. Por isso, as obras literárias fazem o leitor viver, experienciar, e isso é importantíssimo, pois é um método de autoconhecimento. Caso contrário, é necessário desconfiar de uma sabedoria que não é fruto da reflexão e da maturidade obtida pelos próprios esforços.

Complementando, livros assim não subestimam o leitor, pelo contrário, sabe que somos inteligentes e por isso nos dar uma temática astuta ou difícil de ser resolvida, assim como são certas questões na vida.

Lembre-se que existem quatro corpos básicos de conhecimento, criado pelo homem, os quais são: a Arte, a Filosofia, a Psicanálise e a Ciência. E como tal, a literatura, que é uma arte, procura fazer o papel dela como fonte de conhecimento e desenvolvimento do homem, o qual irá aprender a lidar melhor com as adversidades de sua existência, os males do século XXI, e ter uma qualidade de vida adequada.

É bom deixar claro também o seguinte: ser guitarrista não quer dizer que ele seja capaz de tocar heavy metal (pois temos guitarristas de música axé), ser pianista não quer dizer que ele seja capaz de tocar música clássica (pois temos pianistas de música POP), ser saxofonista não quer dizer que ele seja capaz de tocar jazz (pois temos saxofonistas até de música “brega”), então se há um livro não quer dizer que ele seja literatura (pois um livro é, basicamente, um volume transportável, composto por páginas encadernadas, contendo texto manuscrito ou impresso e/ou imagens).

O livro literário diferencia-se de outros livros. Ele lhe conduz a examinar e a superar seus sistemas de crença e preconceitos resultantes de um condicionamento que limita a nossa capacidade de aproveitar a vida da melhor forma possível. Você simplesmente não é só um leitor depois de sua leitura, você é uma outra pessoa.

*Com informações de Marcelo Vinicius

Redação do Jornal Grande Bahia
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