6 de Julho. Passagem para a vida espiritual do Mestre Raimundo Irineu Serra

Mestre Raimundo Irineu Serra (15/12/1892 — 06/07/1971). Fundador da Doutrina do Santo Daime

Testemunhas afirmam que foi às nove horas da manhã de 6 de julho de 1971 que o Mestre Raimundo Irineu Serra fez a sua passagem para o mundo espiritual. Assim, o seu hino de número 14 – recebido ainda nos anos 1930 – pode ser visto como um prenúncio sobre o dia e hora do abandono consciente do seu corpo aqui no mundo Terra, para em espírito ir governar o seu Império lá do Astral.

Nos últimos dias do mês de junho de 1971 ele já dava sinais do seu passamento.

Depoimento de dona Percília Matos da Silva, criada como filha adotiva do Mestre Irineu:
“Ele, com certeza estava sabendo de sua passagem e sabia que a maior parte não estava preparada. E não era por falta de ensino. Todos sabiam que, quando precisassem de algo, era só correr e perguntar ao Mestre. Todos achavam que nunca haveriam de ficar sem ele”.
Alquebrado pelo peso da idade e da morte física que se aproximava, Mestre Raimundo Irineu Serra dizia a todos que o procuravam:
“— Eu não sinto dor. Eu não sinto fome. Eu não sinto nada. O que eu sinto é não ter para quem entregar o meu trabalho. E saudades de vocês. Eu sinto uma saudade tão grande de vocês que é isto que está me abatendo”.
Fala Dona Percília:
“Ele foi se abatendo, se abatendo… Já não mais comia carne. Disse que o organismo dele não mais aceitava essas coisas. E a gente vendo ele se abater.

No final de junho de 1971 ele chamou a um de seus seguidores mais próximos, Leôncio Gomes da Silva e lhe entregou a direção dos trabalhos, dizendo:

 “ — Leôncio, tu vai assumir a direção dos trabalhos. Tu não vai ser o chefe. O chefe sou eu. Mas fique aí para receber as pessoas, para ensinar a doutrina. Escuta o que estou te dizendo, não faça mais do que estou te entregando. Porque se alteras alguma coisa, tu não vai resistir.

Ainda Percília:

“Perto do dia 30 de junho de 1971 perguntei para ele:

— O senhor não gostaria de uma Concentração para melhorar sua saúde?

— É bom! Então vamos fazer. Chame o pessoal mais próximo”.

Neste dia, o Ritual de Concentração teve caráter de “trabalho de cura”: rogos silenciosos de cura para o irmão necessitado.

No final desta Concentração de 30 de junho de 1971, Mestre Irineu perguntou:

“— Quem foi que viu o meu enterro?

Os presentes disseram que não tinham visto nada, e ele disse que havia recebido um remédio e que ficaria bem.

— E que remédio é este, Mestre?

— É um remédio que tem em todo lugar… Eu cheguei a um salão onde havia uma mesa arrumada, toda composta com as cadeiras em seu lugar, só havia uma cadeira vazia, a da cabeceira.

Foi então quando a Virgem Mãe Soberana chegou ao seu lado e disse:

— De hoje em diante você é o chefe geral dessa Missão. O General. Tu és o chefe no céu, na terra e no mar. Para todos os efeitos. Todo aquele que de ti se recorde e te chame de coração, e confie, receberá a luz”.

Foi assim que, depois de 50 anos de trabalho, ele recebeu o seu comando espiritual.

(Esclarece Percília: “e a história do remédio é a terra onde se pisa. Ele não foi pra debaixo da terra? Ele não disse que tem em todo lugar? È a própria terra…”)

6 de julho de 1971. Depõe Percília:

“Todo dia quando eu saia daqui, ia lá. E, se não fosse, ele reclamava. Nesse dia eu fui. Ele estava alegre, alegre. Parecia não estar sentindo coisa nenhuma. Conversava e contava história. Fiquei um tempo por lá e disse que ia voltar pra casa pra fazer o almoço. Ele disse:

— Você não vai não. Você ‘tá com fome? – e chamou a menina para botar o almoço na mesa. – Você não vai agora não. Quero conversar com você. Ele estava na maior alegria, contando tudo!

Eu pensei: ‘Graças a Deus! Ele está bom!’ E disse para ele:

— Amanhã eu vou à rua, pois vou receber.

— Vá. Pode ir.

Aí eu tomei benção e ele fez uma recomendação como nunca tinha feito antes. Não entendi nada. Eu o vi tão alegre que não suspeitei de coisa alguma. Ele me recomendou que eu fosse muito feliz. Saí tranqüila… e satisfeita”.

A um grande mestre é dado o poder de saber a hora da sua passagem desta vida para o mundo espiritual. Jesus Cristo tinha todo o conhecimento da sua trajetória aqui na Terra, e isso, mais que facilitar a sua missão, aumentava o desafio rumo à vitória. Prevendo o sofrimento que o esperava com a vil crucificação, suou “grossas gotas de sangue” no Horto das Oliveiras.

“’ — Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice, não se faça, contudo, a minha vontade, mas a tua’. Então vindo do Céu, apareceu-Lhe um anjo que O confortava”.

Outras passagens evangélicas testificam isso: “Procuraram prendê-lo, mas ninguém lhe deitou as mãos, porque ainda não era chegada a sua hora”; “Sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai”; “Pai, é chegada a hora. Glorifica teu Filho, para que teu Filho glorifique a ti”.

“Quando chegamos (Percília e Pedro, seu marido) em frente ao Palácio (Palácio Rio Branco, no centro da capital do Acre) encontramos a esposa do Seu Doca. Ela vinha amarela, com os cabelos assanhados. Foi logo dizendo:

— O Mestre, meu Deus! O Mestre morreu!

Só acreditei quando cheguei. Ele ainda estava na cama. O suor derramando como se estivesse trabalhando muito”.

“A divina estrela vem
Para ir te alumiar
Eu rogo a Deus do céu
Que te bote em bom lugar.

A Virgem Senhora vem
Para ir te acompanhar
Eu rogo à Virgem Mãe
Que te bote em bom lugar”.

O apóstolo Paulo afirma que “a morte é o último inimigo a ser vencido” e o rogativo deste hino é para que os nossos nomes e dos nossos irmãos sejam achados no Livro da Vida. Nosso mestre, Raimundo Irineu Serra, adotou o lema do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento — Hei de Vencer — que hoje adorna as portas de entrada de muitas casas e centros daimistas. O que temos de vencer é a morte, para alcançarmos as promessas do nosso Senhor Jesus Cristo: “Ao que vencer, farei dele uma coluna do templo do meu Deus; e nunca mais de lá sairá”, isto é, estará livre da “roda de sansara”, do ciclo de nascimento e morte, encarnação e desencarne… livre das agruras de ter que — “se Deus lhe der licença” — voltar a este plano de expiação e resgate que é o Planeta Terra.

E na manhã de verão do 6 de Julho de 1971, na cidade de Rio Branco, capital do Acre, Raimundo Irineu Serra fez a sua passagem para o mundo espiritual, enquanto esperava um chá de folha de laranjeira que a filha Marta preparava. Nesse mesmo dia o seu corpo baixou à sepultura.

“Havia ali um vaso cheio de vinagre. Imediatamente correu um deles (soldado) a tomar uma esponja, embebeu-a em vinagre e, fixando-a numa cana e levando-a à sua boca dava-lhe de beber”… “Então Jesus, depois de ter tomado o vinagre, disse: Está consumado! Depois, tornando a dar um grande grito, Jesus entregou o Espírito, dizendo:

— Pai, em tuas mãos entrego o meu Espírito.

Dizendo isso, inclinou a cabeça, entregou o Espírito e expirou”.

No último hino do Mestre Raimundo Irineu Serra, “Pisei na Terra Fria” encontramos similitude com o enunciado do Nosso Senhor Jesus Cristo:

“A matéria eu entrego a ela
E meu espírito ao Divino”.

Ela, a (mãe) Terra.

Certa vez, lá em Rio Branco, no Acre, me foi narrada uma poética e bela versão para o episódio da esponja que ensopada foi dada de beber a Jesus, embebida não de vinagre, mas de… Daime.

 “Meu espírito, eu entrego a Deus

E o meu corpo, à sepultura”.

E na luz do Daime, Jesus desceu a mansão dos mortos, para de lá ressuscitar ao terceiro dia.

Desde então, sempre que leio, vejo ou escuto esta passagem da paixão de Cristo, lembro desta surpreendente versão. É consolador pensar no Nosso Senhor fazendo a sua última viagem, o voo espiritual antes da ressurreição, na força e na luz do Santo Daime.

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Sobre Juarez Duarte Bomfim 742 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]