Os bichos estão chegando | Por Emiliano José

Emiliano José recebe apoio da Fenaj e do Sinjorba.
Emiliano José recebe apoio da Fenaj e do Sinjorba.

O jacaré nadava sossegado. De vez em quando chegava à margem, olhava, e voltava, soberano, às águas. Ouvia o barulho dos humanos ao longe, longe. O tamanduá caminhava por entre a mata, sem medo, só atento a predadores. Não os humanos, que ele conhecia pouco, e só ouvia o rebuliço deles também de longe. As cobras se arrastavam, deslizavam pelo território que era delas, sem se importar com os homens.

De repente, o barulho foi se achegando, aumentando de volume, e o medo, e o susto, e sem saber o que ocorrera com o mundo. Será que o mundo se acabava com aquele barulho todo, com a mata caindo? O mundo dos bichos desabava, sem explicação. E os bichos foram para as casas dos humanos – e as casas se viram invadidas por tamanduás, por jacarés, por cobras, todos eles assustados, apavorados, porque aquele não era o mundo deles. O mundo deles se acabara.

Parece uma fábula. Revisitação de Esopo. Mas, lamentavelmente, não é. Estamos falando de Salvador. Uma Salvador assolada pelo desatino. Pelo descontrole. Ou pelo aparente descontrole de uma expansão que só obedece a leis privadas. Os bichos estão chegando, foi o título que pensei, em referência a um filme que assisti na juventude – Os russos estão chegando, filme sutil sobre a Guerra Fria. E os bichos não são apenas metáfora. São a revelação de uma crueldade, com os bichos e com os três milhões de habitantes de Salvador. Insiste-se, de há muito, em quebrar o equilíbrio dessa cidade. Agora, as coisas estão chegando ao ponto de saturação. Não há a procura de um destino comum a todos. Não há a preocupação com os pobres dessa cidade, cada vez mais empurrados para as periferias, que já estão entupidas. E, por tudo isso, também os bichos estão chegando, perplexos, quase que perguntando: cadê a nossa mata? O que houve com nosso mundo?

Junto com eles, também perplexo, o nosso povo pobre, excluído. Cheio de preocupação com o destino de sua cidade. Como também as camadas médias. E também todos. Tenho dito que há a necessidade de uma concertação, que nasça da mobilização da cidade contra essa depredação a que está sujeita a Cidade da Bahia. Ninguém ganha com essa política, ao menos se pensarmos no médio e longo prazo. Nem mesmo os empresários, nem mesmo os da construção civil. Uma cidade que se inviabiliza não é boa para ninguém. E Salvador, a nossa Cidade da Bahia, está se inviabilizando, tornando-se intransitável e daqui a pouco inabitável para a sua maioria. É verdadeiro dizer que os pobres são as principais vítimas dessa política. Mas é também verdadeiro afirmar que todos perdem com ela.

A professora Ermínia Maricato, da USP, secretária-executiva do Ministério das Cidades entre 2003-2005, em entrevista à revista Caros Amigos de maio deste ano, pergunta se o capitalismo brasileiro, pelo andar da carruagem, não vai tornar as cidades um negócio inviável. Em Salvador isso vai se tornando mais do que uma ameaça. As muitas entidades representativas da sociedade civil que se articulam no Fórum A Cidade Também é Nossa e no Movimento Vozes de Salvador têm procurado demonstrar o quanto é grave o nosso quadro, o quanto Salvador está sendo desrespeitada, o quanto principalmente o povo está sendo agredido por essa política discriminatória, executada para esmagar os mais pobres, sem preocupação com a existência deles. E se isso vem de longe, com a atual administração isso só tem se agravado. Tenho dito que não acredito em acaso, nem em descontrole. Tudo é resultado de uma política.

Não se diga que esse debate seja resultado do clima de um ano eleitoral. Não é. Eleição em Salvador só em 2012. O que estou discutindo é a situação da cidade hoje. O que estou dizendo é que há uma situação de emergência. Que do jeito que está, as coisas não podem continuar. Outro dia, os moradores do Bairro da Paz fizeram barricada na Paralela, com medo de terem o mesmo destino do jacaré, da cobra, do tamanduá, pelo risco de o prefeito desapropriar as terras onde residem. Quantas milhares de pessoas não estão com o mesmo medo? É hora de a sociedade descruzar os braços antes que a cidade se inviabilize por completo.

*Por Emiliano José

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