O preconceito nosso de cada dia | Por R. C. Amorim Neto

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Raça, idade e sexo podem ser motivos para atitudes preconceituosas contra quaisquer pessoas. É claro que quem acumula algumas características “indesejadas”, será mais intensamente vítima de preconceito. Afinal, uma coisa é ser nordestino, não ter nem mesmo o Ensino Médio completo e estar desempregado, outra coisa é ser nordestino, ter concluído apenas a 8ª série e ser o Presidente do Brasil, não é mesmo? Não importa qual seja ou quais sejam os nossos preconceitos, o certo é que ainda não conheci alguém que seja completamente isento desta atitude imatura e irracional.

A última vez que surpreendi a mim mesmo em uma atitude preconceituosa foi em uma das ocasiões em que tomei o metrô em São Paulo para ir até a terapia. O metrô estava relativamente vazio, mas não o suficiente para que eu pudesse sentar. Como de costume abri um livro e comecei a ler. De repente, olhei para o lado e vi um homem próximo a mim, imediatamente peguei minha carteira que estava no bolso de trás, coloquei no bolso da frente e dei um passo para o lado. Precisei apenas de alguns segundos para perceber o motivo pelo qual fiz isto, o homem era negro e de aparência simples. Meu rosto ardeu de vergonha e desde aquele momento eu já tinha mais um assunto para conversar com minha terapeuta.

Assim como é irônico o fato de eu ser conscientemente contra o preconceito, também é irônico que parte de minha família seja negra e de origem humilde. Além da irracionalidade irônica, tácita ou não, o preconceito como o próprio nome sugere é fruto de um julgamento anterior à experiência, o qual é embalado pela generalização indevida e vendido em todos os recantos do mundo.

Na maioria das vezes o grande problema do preconceito é que nós assumimos os preconceitos dos outros. Dizendo de uma forma mais polida, nós internalizamos os preconceitos da cultura dominante. A cultura dominante de nosso país é branca, masculina e com poder aquisitivo médio e/ou alto. Apesar disto, a maioria dos brasileiros não é branca, nem pertence ao sexo masculino e tampouco é rica.

O que acontece é que aprendemos atitudes preconceituosas contra nós mesmos, numa tentativa ilusória de nos colocar em um nível a cima dos demais. Ilusão! Não existe coisa mais descabida do que irmão desprezando irmão para poder elogiar e tentar se conectar com o vizinho que tem carro ou veste roupa de marca ou simplesmente é branco e tem acesso a certos grupos sociais. Ou ainda a pessoa violentando a si mesma para tentar se encaixar em um pequeno grupo de privilegiados.

Acredito que um passo significativo rumo à maturidade é atenção necessária a si mesmo para que cada um possa descobrir seus próprios preconceitos e assim, por conectar-se com suas áreas de fragilidade, dimensões não aceitas ou ainda não trabalhadas adequadamente.

O amadurecimento exige a identificação e libertação de nossos preconceitos pois eles nada mais são do que nossas próprias fragilidades projetadas nos outros. É por isto que quando vejo homens afirmando excessivamente sua masculinidade em atos de violência contra homossexuais, ou ainda jovens abastados ateando fogo em mendigos, eu sempre me pergunto: o que é que está faltando ali? Geralmente, quando confrontadas, a partir de um ponto de vista terapêutico, estas pessoas acabam expressando insegurança em relação à sua própria sexualidade e mesmo uma desvalorização de si, que leva a tratar os outros como elas se consideram: sem valor algum.

O preconceito é tão engraçado quanto aquela senhora branca que ao ser apresentada a uma foto da primeira-dama dos Estados Unidos, sem ser informada de quem se tratava, apontou vários defeitos, mas que ao tomar conhecimento de quem era a pessoa, transformou os defeitos em elogios. Assim é a vida, e assim é nossa luta contra os nossos demônios interiores. Afinal, uma coisa é ser mulher, negra e pobre, outra coisa é ser mulher, negra e esposa do presidente dos Estados Unidos.

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