O dever da resistência indígena |Por José Carlos García Fajardo

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Devolva-nos o futuro e firmaremos o armistício”, dizem os indígenas através do escritor guineano Zamora Loboch. Dizem-no aos herdeiros daqueles que invadiram e conquistaram suas terras.

Em pleno século XIX, os europeus tratavam de disfarçar suas conquistas em nome dos “três C’s”: Civilizar, Cristianizar e Comercializar”. A História demonstra que o motor de toda conquista é econômico – o que denominavam “abrir rotas de comércio”. Como hoje os interesses que animam a OMC, que buscam abrir mercados para seus produtos, acabando com os autóctones e saqueando as matérias-primas de que necessitam. A isso chamam “Ajudar ao Terceiro Mundo”. Celebramos festas folclóricas com indígenas para que não percam seu “colorido”. “Cuidem do indígena, para que ele não perca seu folclore, nem corte árvores, e nem contamine o meio-ambiente”.

Os povos do norte – que já arrasamos florestas, contaminamos rios e transformamos os litorais em esgotos – impomos a outros como conservar seu habitat transformando-o em parques naturais, para nós mesmos. Por que não soltam algumas centenas de elefantes e crocodilos no Bois de Boulogne, no Central Park, ou na Casa de Campo? Na África são obrigados a permitir que os elefantes devorem suas colheitas porque o equilíbrio natural foi arruinado.

Os índios do Brasil celebram com grandes protestos os aniversários de “seu descobrimento” pelos portugueses. Assim como outros povos do continente, dizimado pelos espanhóis e exterminados pelos ingleses, quando desceram do May Flower. Como Moisés, depois de atravessar o Mar Vermelho – no lugar de amoreus, filisteus e cananeus havia sioux, comanches e arapajoes. Não importava, havia que exterminálos.

Esses genocídios ainda esperam por um julgamento, já que esses crimes não prescrevem. As agências de notícias muitas vezes informam sobre seqüestros de supostos turistas por grupos indígenas em países do Terceiro Mundo. O cacique Raoni, da etnia Caiapó, manteve a quinze turistas como reféns até que o governo brasileiro lhes garantisse sua zona de terra, reconhecida em 1991. O que teria acontecido se não tivessem exercido o dever da resistência pelos meios que possuíam? Faz dois anos que foram seqüestrados 165 trabalhadores da Shell, na Nigéria, pelo povo Ijuw, cujas terras foram devastadas por esta empresa petrolífera. Às vezes se qualifica como grupos criminosos aqueles que, se triunfam, a História reconhecerá como heróis.

Os povos indígenas subjugados pelos invasores têm o dever de se rebelar usando os meios que estiverem a seu alcance para conservar seus sinais de identidade. Parece que só assim conseguirão o diálogo para recuperar seu futuro.

*Por José Carlos García Fajardo Diretor do CCS. Profesor Emerito da Universidade Complutense de Madrid [email protected]

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