Ferreira Gullar vence o Prêmio Camões 2010 | Por Marcelo Vinicius

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Ferreira Gullar vence o Prêmio Camões 2010.
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Gullar, no Festival da Mantiqueira, no último domingo…

No domingo, o poeta havia sido ovacionado na principal mesa no 3. Festival da Mantiqueira. “Pensei que isso só acontecesse com Roberto Carlos”, disse ao subir ao palco. A referência ao rei foi evocada após Gullar acompanhar a mesa com Paulo César Araújo, autor da biografia censurada Roberto Carlos em detalhes (Planeta).

De São Francisco Xavier, localidade onde aconteceu o festival, Gullar seguiu para a cidade vizinha de Monteiro Lobato, onde começaria ontem, 31 de maio de 2010, a participar do projeto Viagem Literária, parceria entre a Secretaria de Estado da Cultura e as Bibliotecas Públicas. Foi lá, no Sítio do Pica Pau Amarelo, que recebeu a notícia do escritor Antônio Carlos Secchin da conquista do Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa, no valor de 100 mil euros (R$ 222 mil). “Estava justamente comentando sobre a magia dessa região, onde Lobato nasceu, quando recebi um telefonema”, disse ao O Estado de S. Paulo.

Em conversa com a ministra portuguesa de Cultura, Gabriela Canavilhas, que anunciou o prêmio, ele disse, segundo o Estadão: “Jamais esperei ganhar algum prêmio, especialmente esse.”. Ferreira Gullar, que completa 80 anos no dia 10 de setembro, prepara para breve o lançamento de seu primeiro livro de inéditos após 11 anos, Em alguma parte aguma, que sai pela José Olympio.

Na mesa em que conversou com Cadão Volpato e o público, a mais concorrida do Festival da Mantiqueira, Gullar falou sobre o livro, relembrou as circunstâncias em que escreveu o Poema sujo, comentou as experiências com a Poesia Concreta e soltou algumas frases lapidares, sobre a sua trajetória, a poesia e o passado. Entre elas:

“A arte existe porque a vida não basta.”

“O homem inventou Deus para que ele o criasse. Porque, como diz Waldick Soriano, ‘eu não sou cachorro, não’.”

“A poesia em mim é rara, não sou eu que comando. Nasce do espanto.”

“Tenho horror ao passado. Ou porque foi doído e você não quer lembrança ruim, ou porque foi bom e você tem saudade. Bom é o presente.”

Com a premiação, Gullar torna-se o segundo poeta brasileiro a levar o Camões para casa; anteriormente, João Cabral de Mello Neto havia levado em 1990. No ano passado, o prêmio fico com o cabo-verdiano Arménio Vieira. Entre os brasileiros premiado, estão Lygia Fagundes Telles (2005), Rubem Fonseca (2003), Autran Dourado (2000), Antonio Cândido (1998), Jorge Amado (1995), Rachel de Queiroz (1993) e João Cabral de Melo Neto (1990).

O júri deste ano foi composto por Helena Buescu (professora da Universidade de Lisboa), José Carlos Seabra Pereira (professor da Universidade de Coimbra), Inocência Mata (escritora santomense), Luís Carlos Patraquim (escritor moçambicano), Antonio Carlos Secchin (escritor e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Edla van Steen (a escritora brasileira).

“De um lado Ferreira Gullar é honrado com o prêmio e, de outro, ele o honra devido a sua estatura de poeta consensualmente considerado um dos mais importantes, senão o mais importante poeta vivo, pela multiplicidade de aspectos da sua obra e pela sua postura ética e política”, afirmou Secchin a BBC Brasil.

“É um caso raro de um poeta que agrada simultaneamente ao grande público e à crítica mais exigente. É um poeta sempre insatisfeito com os rumos de sua própria poesia, e que a todo momento está se reinventando”, completou. Edla Van Steen, outra brasileira no júri, falou também à BBC sobre a escolha. “Foram colocados na mesa vários nomes e, no momento da escolha final, falamos da imensa obra do Ferreira Gullar, que está com 80 anos e que esse prêmio é o coroamento do trabalho do escritor. E todos os outros candidatos ainda têm mais tempo para aumentar a obra e o Ferreira já fechou. Ele continua produzindo, mas já é o candidato ideal para o prêmio.”

Gullar prossegue, hoje e amanhã, a Viagem Literária pelo interior de São Paulo. Nesta terça, às 19h, conversa com leitores na Biblioteca Pública de São Bento de Sapucaí. E na quarta, 2 de junho, passa pelas Bibliotecas de Pindamaonhangaba, às 9h, e de Guaratinguetá, às 15h.

*Por Marcelo Vinicius

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