Então Hillary, quem são os terroristas? Quais serão as sanções que pedirá à ONU? | Por Anna Malm

Jornal Grande Bahia compromisso em informar.
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O governo e o Congresso nacionais têm dado pouca atenção a um fato que poderá, no futuro, ser extremamente embaraçoso para a execução da política econômica mais conveniente para o desenvolvimento nacional. O Brasil, corretamente na minha opinião, é um país aberto aos investidores estrangeiros. Eles são bem-vindos e têm os mesmos direitos e deveres dos nacionais. Uma empresa privada estrangeira pode comprar uma mina de minério de ferro no Brasil e fornecer para a indústria siderúrgica nacional ou exportar para estrangeiras competindo livremente no mercado com todos os outros potenciais vendedores.

Será a mesma coisa quando a empresa estrangeira é estatal? Agora trata-se de ativo de um Estado soberano cujo objetivo maior é garantir o suprimento fora do mercado do minério às suas próprias siderúrgicas também estatais e integrar nestas, verticalmente, o lucro na produção do aço. E quando o lucro é verticalmente transferido para sua indústria de bens de capital que também é estatal? Claramente não. O preço final do produto torna-se passível de manipulação política. Com toda a certeza não será determinado pelo “mercado”, mas para atender aos interesses do Estado soberano que comprou o ativo.

O problema é mais grave quando o assédio de empresas estatais chinesas, apoiadas em gigantescos recursos de financiamento proporcionados pela própria expansão das exportações chinesas (as reservas chinesas são da ordem de US$ 2,5 trilhões), se faz sobre minérios mais escassos como cobre, níquel, vanádio, lítio etc. Uma manifestação do desejo de “procurar” minério que se apropriou do Brasil em resposta à “demanda chinesa” é o fantástico aumento de requerimentos de pesquisa mineral desde 2007.

A exportação “subordinada” aos interesses de um cliente exclusivo retira, ao mesmo tempo, um volume igual de oferta e de procura e dá a garantia de suprimento. Em condições normais de pressão e temperatura não altera o preço internacional. Mas as oportunidades de manipulação são infinitas num mundo que é cada vez mais volátil. É preciso levar em conta que não existe o “minério de ferro”. Existem tantos quantos fazem as variações da natureza de sua estrutura física.

A possibilidade de manipulação exigirá do governo brasileiro um enorme custo de fiscalização para controlar o preço das exportações (com efeitos sobre as relações de troca) e sobre os compromissos fiscais. Como todos sabemos, o resultado final de tais controle e fiscalização será uma enorme corrupção dos agentes públicos. E, o que é imperdoável, piorará as condições de competição de nossa própria indústria de bens de capital.

São evidentes os potenciais malefícios da venda de ativos nacionais a Estados soberanos disfarçados em empresas. O mesmo ocorre, aliás, quando a Petrobras recebe financiamento aparentemente barato de um fundo soberano comprometendo-se (não importa por que regra de fixação de preço) a um fornecimento fixo de tantos mil barris por dia, durante certo número de anos. Em situação de estresse isso limitará a ação da política econômica e pode ser a fonte de contenciosos diplomáticos com possibilidade de retaliação.

O mundo caminha para uma rápida escassez de recursos: solo, água, energia e recursos minerais. Precisamos prestar atenção à ambição desenfreada de crescimento de algumas nações que só podem ser satisfeitos com a apropriação (por enquanto pacífica) dos recursos físicos de outras. É tempo do governo e do Congresso brasileiros acordarem para nossa cômoda e alegre aceitação do neo-colonialismo chinês.

Não se trata da menor manifestação de xenofobia. O investimento estrangeiro, no setor mineral ou em qualquer outro, deve continuar bem vindo desde que através de empresas autenticamente privadas não sujeitas às manipulações integradoras do poder soberano o que, obviamente, não é o caso chinês. Não há, de fato nesse campo uma empresa chinesa autenticamente privada. O Brasil e a própria China são os únicos países do mundo que fingem acreditar que ela é uma “economia de mercado”. Para os incautos nunca é demais lembrar: negócio da China só existe para chinês!

Sobre o autor do artigo

Mentor da política econômica brasileira durante os governos militares Costa e Silva, Médici e Figueiredo, Delfim Netto ficou famoso por comparar o crescimento econômico a um bolo. Ele foi o principal artífice do chamado “milagre brasileiro” (1968-1973), quando o Produto Nacional Bruto (PNB) crescia, em média, 10% ao ano.

Criticado pela forte concentração de renda durante esse período, ele disse que seria preciso esperar o bolo crescer para, depois, reparti-lo. Mas o bolo cresceu e nunca foi dividido. Além de conceder incentivos às exportações e ao investimento estrangeiro no país, a política de Delfim era caracterizada pelo congelamento dos salários e a elevação das tarifas públicas.

Delfim é um liberal, membro da corrente monetarista, que prega o controle severo da emissão de dinheiro como forma de evitar inflação. É herdeiro da ortodoxia econômica, mas defende um método histórico-quantitativo, com a observação das realidades institucionais, para análise dos problemas econômicos.

O economista é tido como um dos principais responsáveis pelo endividamento externo do País. Indicado por Roberto Campos, em 1966, entrou na vida pública como secretário da Fazenda de São Paulo. No ano seguinte, foi convidado por Costa e Silva para ocupar o Ministério da Fazenda. No governo Geisel, foi nomeado embaixador brasileiro na França (1974-1979).

Em 1978, foi acusado de falsificar os índices de inflação de 1973 – de 24,8% para 14 % – pela Comissão Parlamentar de Inquérito que investigava a política salarial. Voltou no governo Figueiredo como ministro da Agricultura (1979) e, pouco depois, assumiu o Ministério do Planejamento. Foi o responsável pelas negociações da dívida externa com os credores estrangeiros e com o Fundo Monetário Internacional (FMI) em 1985.

Filho de José e Maria Delfim, ele perdeu o pai ainda criança. Começou trabalhar aos 14 anos como contínuo (office-boy). Entrou na Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade de São Paulo (USP) em 1948, onde se formou. Inicia a carreira acadêmica como professor assistente de Estatística Geral e Econômica logo depois de formado. Obteve o título de doutor com uma tese sobre o café. Em 1958, tornou-se catedrático da USP, onde permanece como professor aposentado.

Delfim iniciou a carreira parlamentar na Assembléia Constituinte de 1986 e elegeu-se deputado federal outras quatro vezes, sempre pelo mesmo grupo político, embora o partido tenha mudado de sigla várias vezes (PDS, 1980-1993; PPR, 1993-1995; PPB, 1995-2003; PP, de 2003 em diante).

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