A Dupla Face das Relações futebol versus política na Copa Africana | Por Ubiracy de Souza Braga

Ubiracy de Souza Braga é Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), e professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
Ubiracy de Souza Braga é Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), e professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Eduardo Portella: “A ortodoxia é a militarização da cultura”. Para Jamille, com admiração.

A epígrafe supracitada alude à seguinte questão: as dimensões políticas do discurso econômico sobre a Copa do Mundo na África do Sul (2010) e as dimensões econômicas do discurso político no âmbito do processo eleitoral, com vistas às eleições presidenciais no Brasil, em primeiro lugar, apontam para as seguintes teses: a) não é um truísmo afirmar que a Copa do Mundo e as eleições presidenciais dividem as atenções da “marginalidade de massa”: os consumidores, disciplinando-os, segundo a expressão de Michel de Certeau (1974; 1975; 1980); b) o debate político como repetição na recente história da República brasileira, lembra-nos o brilhantismo do jogador “Dadá maravilha” que para ratificar as ditas “jogadas aéreas” tinha como marketing a expressão: “só três coisas param no ar: beija-flor, helicóptero e Dada”, levam-nos, b) a escolha do seleto grupo de brasileiros sofreu influências que ficaram marcadas na história. Historicamente falando, entre os agentes sociais dessa influência, além da comissão técnica, do grupo de jogadores e da “opinião pública” (cf. Thiollent, 1982), estava o governo-militar golpista, na figura do general-presidente Emílio Garrastazu Médici. Sabemos que o presidente exigiu a escalação de determinados jogadores, fato que causou, meses antes da Copa, a troca do jornalista-treinador comunista João Saldanha por Zagallo no comando da equipe.

Em 1974, os jogadores brasileiros, respaldados pela vitória em 1970 e insatisfeitos com as “críticas nevrálgicas” ou o papel de “cão de guarda” (watchdoge role,como tem sido recorrente) da imprensa, assinaram um Manifesto em que prometiam não falar mais com os jornalistas, episódio que ficou conhecido como o Manifesto de Glascow. Hoje são os técnicos brasileiros que têm verdadeiro horror da imprensa e daqueles que os tornam primus inter pares: os torcedores. Existe também uma simetria simbólica entre Copa do Mundo e eleições que se estende à própria dinâmica de disputa. Ambas funcionam como representação social da finitude de um processo, se já não é um truísmo, encerramento e inicio de um ciclo cujos rumos serão definidos pelo resultado das duas competições, a saber: a disputa presidencial e dos demais cargos num pleito eleitoral replicam os embates emocionais de um jogo com estratégias, dramas e, por fim, o confronto direto nos debates. Impedidos de decretarem vitória, os protagonistas transferem para o público o sentimento da responsabilidade da decisão, o que, paradoxalmente, confere ao ritual no espaço antrópico com idêntico grau de imprevisibilidade de uma partida.

Em nosso entendimento configura-se aí o que o filósofo Ernest Jünger, denominou um “estado de mobilização total” (Jünger, 1990), ou seja, para o trabalhador – amobilização técnica – é total (totale Mobilmachung). Da mesma maneira que a figura é um todo metafísico, “a mobilização é total na medida em que concerne ao planeta inteiro, às ações, ao corpo, ao espírito”. A expressão – mobilização total – é introduzida pela primeira vez por Jünger, originalmente no ensaio Die Totale Mobilmaching(1930), não por acaso, editado originalmente em naquele ano. Nele indica o que de essencial se lhe revelou na Primeira Grande Guerra (1914-18), aquilo que a tornou possível: a ligação da guerra ao trabalho por intermédio de uma mobilização que converte toda a existência em energia: “L’exploitation totale de toute l’énergie potentielle (…) et cette réquisition radicale fait de la guerre mondiale un événement historique qui dépasse en importance la Révolution Française”.

Ao encarar os traços da “paisagem industrial”, da rígida disciplina de vida das massas, antecipando a perspectiva genealógica foucaultiana (1987), das cidades que são uma intricada rede técnica, Jünger tem o “aperçu” de que não há aí nenhum átomo estranho ao trabalho. É uma mobilização que, deste modo, não respeita em exclusivo à guerra e que apagará a fronteira, doravante apenas lingüística, entre a guerra e a paz – pois a mobilização total “implica a generalização de uma ameaça que nenhum armistício cala”. E tão ou mais importante do que a face ativa da mobilização – própria da técnica – é essa face receptiva, a resposta humana, a resposta do trabalhador: “a disponibilidade para se ser mobilizado”. Ela é mais importante do que toda a espécie de armamento, visto que recruta as suas tropas mesmo, “analogamente às regras do jogo de futebol, no campo do adversário”, no sentido de uma religiosidade (cf. Certeau, 1982).

Não basta jogar melhor, é preciso que a vitória não esbarre numa das inúmeras variáveis entre o meio campo e o gol, “entre o goleiro e a hora do gol”, como enfatizava essa angústia o cantor cearense Belchior, ou Jorge Ben (Jor), na caricatura do ex-jogador rubro-negro, “Fio, maravilha”, entre o discurso e a urna, ou, já na fracassada tentativa de um “quadrado mágico” como ocorrera outrora com a seleção brasileira, e ainda no caso da 7ª Arte, analogamente com a “laranja mecânica” holandesa, ou, em última análise, sobre no filme Clockwork Orange, na direção de Stanley Kubrick (ING, 1971, Warner Home Vídeo, 135 min.), “onde o líder do bando é preso e passa por lavagem cerebral para eliminar seus instintos violentos”. Em contrapartida, quando veio o momento da desconstrução das práticas e do discurso que davam sobrevida à ditadura, o futebol se credenciou como uma das principais frentes de interpretação da “ansiedade coletiva”. É neste sentido que a equipe do “Dunga” vem trabalhando em diversos eventos até chegarmos às condições e possibilidades da definição de um “modelo perfeito” (sic) que estará ocorrendo nestes dias de junho de 2010, na “mama África”.

De outra parte, vale lembrar que o resultado de um combate entre leis que devem valer parar todos e as que só podem funcionar para as que têm é o sistema social dividido e equilibrado entre duas unidades sociais básicas: o indivíduo, o sujeito das leis universais que modernizam a sociedade, e a pessoa, sujeito das relações sociais, que conduz o pólo tradicional do sistema. Entre ambos existe a malandragem (Bosi, 1993) o “jeitinho” e o autoritarismo do arquétipo “você sabe com quem está falando”? (DAMATTA, 1979; 1990). Em países imperialistas como os EUA, França e a Inglaterra as regras ou são obedecidas, ou não existem. As leis não são feitas para explorar ou submeter o cidadão, nem são instrumento para corrigir ou reinventar a sociedade, é, portanto um instrumento que “faz a sociedade funcionar bem”. Daí a disciplina dentro do campo, como exemplo daquelas sociedades, onde a aplicação da lei não pode pactuar com o privilégio, o “favoritismo”, antevisto por Max Weber (1982), aquela norma que se aplica diferencialmente se o crime ou a falta cometida por pessoas diferencialmente situadas na escala social. A lei e o poder fazem com que algumas pessoas ajam de acordo com seus próprios interesses, dificultando muitas vezes ou negando de ajudar quem precisa.

Entre nós é nessa acepção de Louis Dumont “como funciona no sistema de honra da Cabília” (“the sentiment of honour in Kabile society”) onde o valor de cadapessoa deriva-se de per-sonare, uma voz que “soa através” de uma máscara pública, é medido como padrão através de um detalhado código que permeia as relaçõesfamiliares, as relações com a comunidade e as relações com o mundo exterior do poder. Ao encontrar um elo em comum com tais pessoas, denomina-se “jeitinho”, podendo ser banal ou especial, mas é a marca da cultura brasileira. De outra parte, a questão da “relação com o outro” de “fora pra dentro”(Augé, 1999), ou a “relação de alteridade” (Augé, 1994a; 1994b; 1997) e, para o que nos interessa como depreendemos no ensaio: “Football: de l`histoire sociale à l`anthropologie religieuse” (Augé, 1982), para usar uma expressão da antropologia, é central nessa discussão. Contudo, no livro de 1978, Edward W. Said, O Oriente como Invenção do Ocidente, demostra-nos que o “Oriente” não é um nome geográfico entre outros, mas uma invenção cultural e política do “Ocidente” que reúne as várias civilizações a leste da Europa “sob o mesmo signo do exotismo e da inferioridade”. Isto é importante.

O fundamentalismo, religioso ou não, para Said (1978; 2007), tende a evitar o que é diferente, especialmente o que parece antagônico. A recusa do outro e a redução das possibilidades de intercâmbio criam a situação in statu nascendi de polarização e a conseqüência disso é a criação de explicações cada vez mais simplificadas. O fundamentalismo é um fenômeno do mundo moderno, em reação à modernidade (cf. Braga, 1997) e à constante necessidade de redefinição que ela impõe. O pensamento fundamentalista oferece uma alternativa composta por regras bem definidas, um movimento orientado não à conquista de um “mundo novo”, mas sim de um “passado idealizado e utópico”. Esse tipo de mecanismo de “fechamento em si mesmo”, no sentido psicanalítico, é uma das bases de muitos conflitos, que envolve não apenas oterrorismo contemporâneo, mas a política externa de muitas potências ocidentais. Faltavam seis minutos para acabar o jogo Real Madrid versus Real Sociedad, no dia 12 de dezembro de 2004, na capital espanhola, quando o juiz interrompeu a partida. Havia uma ameaça de bomba no estádio e os jogadores saíram correndo para o vestiário. Houve tumulto na arquibancada, enquanto a polícia vasculhava o local. Nenhuma bomba foi encontrada. Apesar da ameaça ser falsa, os principais jornais do mundo noticiaram o fato.

Depois dos atentados de 11 de setembro (Braga, 2000), o terrorismo passou a ter presença constante na mídia e esse é exatamente o tema da pesquisa de Luciana Moretti Fernández, que focalizou a relação que entre a mídia e o terrorismo e a forma como os veículos de comunicação cobrem os atentados. A pesquisa de Fernández, intitulada Hiper-terrorismo e Mídia na Comunicação Política, foi defendida como monografia de mestrado na Escola de Comunicação e Artes da USP – Universidade de São Paulo. De acordo com a pesquisadora – que analisou notícias de três revistas brasileiras, a saber: a revista Veja, a revista Isto É, e a revista Carta Capital, entre 1999 e 2004 – os grupos terroristas aprenderam a se projetar na mídia e se tornaram hábeis em criar fatos que se transformam em “capital da notícia” (cf. Marcondes Filho, 1986). Segundo Fernández, isso ocorre mesmo que o atentado não se realize “como no exemplo do estádio de futebol”.

A pesquisadora ressalta que a visibilidade criada através dos meios de comunicação é fundamental para o sucesso do ato terrorista, posto que “a mídia é a infra-estrutura necessária para que as negociações ocorram com a visibilidade pública suficiente e os seus conteúdos passem a fazer parte das agendas públicas e, eventualmente, das agendas políticas”. Em sua opinião, os diversos atores sociais concorrem para conseguir espaço nos veículos de comunicação, e nessa conjuntura, o terrorismo busca seu lugar por meio da violência. Uma das hipóteses defendida na dissertação de mestrado é a de que o objetivo do terrorismo é a propagação do medo e a tentativa de intimidação a partir de um “ato exemplar que garanta a eficácia da transmissão da mensagem, como por exemplo, um grande atentado”. Ato que ipso factosó ganha visibilidade quando noticiado. Desta forma é a cobertura sistemática que dá visibilidade às exigências terroristas e que viabiliza o relacionamento contínuo do terrorista com os diversos públicos e atores. “A idéia central é que não existe terrorismo sem um meio de amplificação da mensagem”. Veillons!

Bibliografia geral consultada

AUGÉ, Marc, “Football: de l`histoire sociale à l`anthropologie religieuse”. In: Le Débat, 19, 1982.

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BOSI, Alfredo, Dialética da Colonização. 2ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

BRAGA, Ubiracy de Souza, Ciência Moderna e Interrogação Filosófica. Modernidade, Identidade e Cultura de Fronteira. João Pessoa: Editora Universitária da UFPb; Feira de Santana:Universidade Estadual de Feira de Santana; Campina Grande: Argos Gomero Editora, 1997.

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BOURDIEU, Pierre, “L’ Identité et la Représentation. Eléments pour une réflexion critique sur l’idée de région”. In: Actes de la Recherche en Sciences Sociales, n˚ 35, 1980.

MARCONDES FILHO, Ciro, O Capital da Notícia (Jornalismo como produção social da segunda natureza). São Paulo: Ática, 1986.

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JÜNGER, Ernest, “La Mobilisation Totale”. In: L` État Universel suivi de Mobilisation Totale. Paris: Éditions Gallimard, 1990.

THIOLLENT, Michel Jean-Marie, Crítica Metodológica, Investigação Social e Enquête Operária. São Paulo: Editora Polis, 1982.

*Ubiracy de Souza Braga nasceu em Maceió em 1955. Obteve formação superior de bacharel em Ciências Sociais (ICHF/UFF), Licenciatura em Ciências Sociais (Fac. de Educação UFF), e pós-graduação no Mestrado em Ciência Política (IFCS/UFRJ), no Mestrado em Ciências, MSc (COPPE/UFRJ) e no Doutorado em Ciências, DSc junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) entre os anos 1985-1995. É autor da Tese de Titular:Varnhagen, a Cultura, a Política e a História: Notas sobre a Influência na Formação de Capistrano de Abreu, Gilberto Freyre e Florestan Fernandes para Compreender o Brasil. Fortaleza: UECE – Universidade Estadual do Ceará, 2009; 890 páginas. Atualmente é professor da Coordenação do curso de Ciências Sociais da UECE onde desenvolve a linha de pesquisa: Poder, Linguagem e Comunicabilidade.

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