O esgotamento de uma geração |Por Ivan Postigo

Quem teve oportunidade de ocupar um posto gerencial nas décadas de setenta e oitenta conviveu com altos índices de inflação e uma ciranda financeira que não deixou saudades a qualquer gestor.

Índices e mais índices eram consultados e utilizados no dia-a-dia para cálculo de custos e tabelas de preços. Apesar da dedicação dos profissionais, importavam muitas vezes aos tomadores de decisões, mais os fatores de correção que as técnicas contábeis mais apuradas.

Pelo menos duas décadas foram fortemente afetadas e induziram muito profissionais ao estudo dos malabarismos econômicos.

Findo esse período, muitos desses profissionais estavam encerrando carreiras, por vontade própria ou por exclusão do mercado, sem poder absorver e contribuir com a mudança que o mercado estava experimentando nas técnicas e conceitos de gestão.

Com a queda da inflação a gestão financeira foi substancialmente facilitada, contudo isso não gerou especialistas no controle do caixa das empresas e nem na preparação de projeções e estabelecimento de metas. Ao contrário, vê-se uma desatenção significativa num volume substancial de organizações.

O advento da microinformática e das planilhas eletrônicas proporcionou enorme facilidade para elaboração de cálculos matemáticos e financeiros sem igual, permitindo que o tempo para elaboração de trabalhos mais complexos fosse reduzido em pelo menos cinco vezes.

Ganhou-se na velocidade de elaboração e perdeu-se ainda mais o foco de análise dos problemas.

Muitos setores das empresas foram enxugados, restando cabeças ótimas voltadas ao desenvolvimento matemático da questão, mas com um menor foco na validação dos valores.

A geração que estava saindo pouco aprendeu das novas técnicas fornecidas pela informática e a geração que estava chegando pouco pode aprender sobre validação de valores.

Quem participou da transição e foi capaz de entender, adaptar-se e utilizar as novas facilidades teve ganhos significativos, porém não sem transitar por incontáveis softwares (planilhas eletrônicas).

Do início da década de oitenta até os dias de hoje pode-se contar com não menos do que 10 tipos de planilhas que entraram e saíram de moda.

Quem transitou por esse período vai se lembrar do Visicalc, Calcstar, Omnicalc, Lótus 1 2 3, quatro-pró, entre outros, até chegar ao Excel dos dias atuais.

O avanço da informática é o lado interessante da questão, mas e o custo padrão, que fim levou?

E os estudos de tempos e movimentos, racionalização de tarefas, redução do tempo de trabalho, do desperdício, deixaram de ser importantes?

A globalização não exigiria uma atenção maior com nossos meios de produção? A obsolescência hoje em dia não acontece num ritmo maior do que há vinte anos?

Quando o tempo deixou de ser um fator importante no processo produtivo?

Os encargos sociais hoje não são maiores do que há vinte anos, então por que a variável tempo não merece a mesma atenção e consideração do passado?

As técnicas contábeis ainda são as mesmas, nossos balanços ainda têm ativo e passivo, os resultados ainda são apurados de acordo com as partidas dobradas, assunto tabu para quem não estudou contabilidade, então por que a tão sonhada contabilidade gerencial ainda não é uma realidade como instrumento de gestão?

Empresas utilizam os recursos contábeis mais para atender os preceitos fiscais do que para gerenciamento dos negócios.

O fim ciclo inflacionário é que levou a esse desinteresse nos conceitos fundamentais de gestão ou estamos observando o esgotamento de uma geração?

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