Confira trechos da entrevista do presidente Lula à Rede Bom Dia e ao Diário de São Paulo: disputa é entre propostas, não pessoas

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Luiz Inácio Lula da Silva, Presidente da República 

O presidente Lula concedeu, no último dia 7 de abril, entrevista à Rede Bom Dia e ao jornal Diário de São Paulo, na qual falou sobre sua participação na campanha eleitoral deste ano, a necessidade de uma reforma política e a responsabilidade dos partidos nessa questão, a favelização das cidades e o desenvolvimento desequilibrado que o País sofreu durante muito tempo, a importância dos projetos do PAC para o crescimento sustentado brasileiro, presos políticos em Cuba e também sobre as especulações sobre sua candidatura ao secretariado-geral da ONU, entre outros assuntos. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

Chuvas e mudanças climáticas

Eu penso que tem um fenômeno novo acontecendo nas mudanças de intempéries. Acho que esse negócio de chover onde não chovia antes e chover menos onde chovia muito. Esse excesso de água em alguns Estados da Federação, eu acho que demonstra que tem alguma coisa importante a ser discutida nessa mudança de clima.

Favelização das cidades e desenvolvimento

No Rio de Janeiro, onde você pega ali grandes bairros, que são grandes favelas, nas décadas de 50, eram fazendas que, de repente, uma irresponsabilidade gerencial dos administradores foi permitindo a construção inadequada de casas e as pessoas se apinhando…tem muito a ver com o desenvolvimento econômico das capitais em detrimento do desenvolvimento econômico de outras partes do país, porque o êxodo do pessoal de outras regiões vai ocupando de forma desordenada. Então, quando nós decidimos, em 2003, quando lançamos o PAC…2006.. 2007, quando lançamos o PAC 1, que começamos a colocar dinheiro em urbanização de favela, drenagem e saneamento básico, na verdade nós estávamos trabalhando a ideia de um processo de recuperação dessas áreas degradadas do país. E agora, no PAC 2, nós colocamos muito mais dinheiro para drenagem, muito mais dinheiro para saneamento básico, muito mais dinheiro para habitação e urbanização, que é você transformar esses lugares inadequados em bairros.

(…) Nós estamos quase que fazendo um processo de reparação. É por isso que no Rio de Janeiro nós estamos fazendo muito investimento em Pavão-Pavãozinho, no Complexo do Alemão, em Manguinhos, na Rocinha, que é para você alargar as ruas, para você melhorar a situação de transporte, para você levar a presença do Estado lá para dentro, até para combater a violência. O Estado tem que estar presente com cultura, com educação, com possibilidade de trabalho, com formação. É repensar o papel de um prefeito, de um governador e de um presidente da República e das suas instituições: como é que a gente joga o jogo para permitir que essas pessoas vivam mais dignamente.

Reforma política

Eu acho que os partidos políticos têm muita responsabilidade nessas coisas. Aliás, somente eles têm responsabilidade, porque todos eles sabem que precisa ter uma reforma política no Brasil e todos eles sabem que regular o processo eleitoral, ou seja, fazer uma lei que diga como é o processo eleitoral, o que pode, o que não pode, deve ser do Congresso Nacional. Mas na medida que eles se omitem, a Justiça faz. Estou convencido de que os partidos políticos precisam definir uma lei eleitoral mais clara, mais objetiva, porque senão você fica muito vulnerável.

Campanha eleitoral 2010

Eu vou tentar dividir o meu tempo habilmente. Eu vou ver como é que fizeram os outros presidentes. Eu vou pegar a história de como aconteceu no Brasil ao longo de tempos. Eu tenho o horário de trabalho do Presidente, que é o horário de agenda do Presidente. Mas o Presidente pode, no sábado, fazer campanha, pode à noite, depois das seis, fazer campanha. Nós vamos ver como é que a gente trabalha isso. Porque a coisa mais importante para mim é ser presidente da República. A coisa mais importante para mim é continuar governando o país porque o povo me deu o mandato até o dia 31 de dezembro de 2010. Então, essa é a minha prioridade. Eu não trocarei, não trocarei uma atividade da Presidência por uma atividade de campanha. Mas também é preciso ter em conta que a eleição, sabe, de uma candidata apoiada por mim também é prioridade. E que eu vou trabalhar para elegê-la.

Popularidade e continuidade

Por que a popularidade do governo é boa? E por que a minha popularidade é boa? Porque as pessoas estão percebendo que alguma coisa está acontecendo. Você pega a pesquisa de melhoria da qualidade de vida das pessoas, o que você percebe na vida das pessoas? Você percebe que enquanto você eleva de 34% para 49% as pessoas da classe “C”, você diminui de 51% para 35% as pessoas da classe “D” e “E”. Esse é um dado. Esse é um dado que as pessoas sentem na carne. Se você pegar aqui em 2005… veja que interessante: as classes “A” e “B” significavam 26 milhões de pessoas, hoje, significam 30 milhões de pessoas. A Classe “C” significava 62 milhões, hoje, significa 92 milhões de pessoas. Significa que 30 milhões de pessoas tiveram ascensão para a classe “C”; significa que mais 5 milhões tiveram ascensão para as classes “A” e “B”; e, significa que as classes “D” e “E” que eram de 92 milhões, caíram para 66 milhões. Ora, esse é um dado gratificante para o Brasil, gratificante para quem tem uma fábrica, gratificante para quem tem um jornal, gratificante para quem tem uma loja.

Terceiro mandato

Se eu quisesse o terceiro mandato, amanhã poderia aparecer alguém querendo um quarto; aí apareceria alguém querendo um quinto; aí um sexto; aí alguém queria a monarquia outra vez. Então, eu acho que é importante a gente ficar na democracia, ter comportamento republicano e isso implica em você querer ter o direito de eleger alguém que tem afinidade ideológica com você, que tem afinidade programática com você.

PAC

Eu não quero que quem venha depois de mim encontre as gavetas de projetos vazias. Eu quero que quem vier aqui já encontre, no Orçamento de 2011, dinheiro para determinadas obras, que ele pode querer fazer ou não. Ele pode mudar. Quem ganhar pode mudar. Mas ele vai ter dinheiro, vai ter projeto e ele poderá, no primeiro dia, começar a fazer obras. São 2 milhões de casas no programa Minha Casa, Minha Vida, são R$ 961 bilhões em projetos estratégicos para o país até 2014. As pessoas podem escolher os prioritários e ir fazendo. Então, essas coisas é que me fazem querer ter um candidato, porque muitas vezes você pode ter um candidato que pensa diferente e quer fazer outras coisas. É por isso que [se] disputa as eleições. A disputa não é entre pessoas. A disputa deverá ser entre propostas, e aí as pessoas vão convencer a sociedade do que é bom e do que é ruim para ela.

Recomeço em 2011

Eu tenho uma vida muito atribulada. Ora para fazer as greves do ABC, ora para construir a CUT, ora para construir o PT, ora para participar de eleições. E de repente, depois de tudo isso, obviamente que eu alcancei o objetivo de chegar à Presidência e de fazer as coisas que tinham que ser feitas no Brasil. E de repente, vai ter um dia, dia 2 de janeiro de 2011, que eu irei acordar e não terei absolutamente nada para fazer, nada! Não tem um secretário para eu pedir para ligar para mim, não tem ninguém perto de mim para eu xingar, não tem ninguém perto para eu pedir alguma coisa. Vamos estar eu e a dona Marisa, um olhando um para a cara do outro. E nem os filhos dentro de casa eu tenho mais. Então, vai ser uma coisa esquisita, vai ser uma experiência nova. Então, eu diria que quase vai ser um recomeçar de vida aos 64 anos de idade… Não, quanto terminar o meu mandato eu já estarei com 65. Eu não quero voltar para a CUT, eu não quero voltar para o PT, eu não quero ficar participando das coisas. Então, eu não sei. Eu, primeiro, quero me libertar, para depois dizer… Eu não quero ficar fazendo planejamento enquanto eu estou acorrentado ao exercício do mandato. Eu quero, primeiro, me libertar, para depois, então, com a cabeça livre, quero tirar um dia para descansar, colocar a cabeça no lugar e saber o que eu vou fazer.

Volta em 2014?

É muito difícil que a gente nem teve a experiência de sair daqui, e a gente fique pensando se vai voltar ou não. Obviamente que a história política determina muitas coisas, mas eu penso que é difícil a volta. Vamos supor que… Quem for eleito, no meu lugar, vai querer ser candidato à reeleição. Se fizer um bom governo, tem todo o direito, legitimamente. Eu já vou estar com 70 anos, meu filho. Deve ter muita gente com 45, 50 anos, com mais disposição. Nós temos uma geração de governadores extraordinários. Se a Dilma for eleita governadora [Presidente] e ela fizer um bom governo, é direito legítimo dela querer ser candidata à reeleição, não vejo nenhum problema.

(…) Porque, eu, quando terminar o meu mandato, o legado que eu quero ter é poder encontrar meus companheiros na rua e chamá-los de companheiros, seja o presidente do sindicato de São Bernardo, seja o presidente do sindicato dos jornalistas de São Paulo, seja o presidente do sindicato dos borracheiros, e dizer “ô companheiro…” e poder andar de cabeça erguida na rua, transitando normalmente no meu estado e no meu país. É isso que eu quero como legado de vida. O resto é secundário.

Previdência Social

(…) tudo que eu quero é que as coisas sejam feitas de acordo com as entidades que representam os trabalhadores. Nós fizemos uma proposta de acordo para as entidades sindicais, fizemos um acordo com as centrais sindicais, não apenas do fator previdenciário, mas fizemos uma proposta de acordo também para o reajuste dos aposentados. Isso estava de acordo. Mandamos para o Congresso Nacional. Acontece que nós estamos em um ano eleitoral e cada um acha que tem que fazer a proposta que dá mais dinheiro para os outros, que não é o papel do presidente da República. Eu, quando mandei para o Congresso Nacional, três anos atrás, a proposta de que a gente deveria estabelecer a inflação mais um aumento de 2,5% para os servidores públicos, eu tive muitos líderes partidários que falaram: “Mas só 2,5%?” Eu falei: Companheiros, vocês não conhecem, no mundo, em qualquer parte do planeta Terra, alguém que receba a inflação mais 2,5% de aumento real. É um baita de um aumento!

Presos políticos em Cuba

A minha visão e a visão correta de um chefe de Estado é a de não se intrometer na soberania de cada país. Eu não quero que ninguém dê palpite na minha política e não quero dar palpite na política de ninguém. Eu sou contra a greve de fome porque já fiz greve de fome. Eu sou contra greve de fome porque quando eu entrei em greve de fome, em 1980, eu fui convencido de que ninguém tem o direito de procurar a sua própria morte, fazendo greve de fome. Por isso é que eu sou contra. Eu parei, com seis dias de greve de fome, eu pensei que eu nunca ia aguentar, nem um dia, aguentei seis dias. Mas eu nunca mais faço, nunca mais faço porque eu acho… não concordo. Eu acho, veja, eu acho que se nós aprendermos a respeitar a soberania de cada país… Eu sou um democrata, sou… eu posso medir muito o que eu faço neste país. As pessoas podem gostar de mim ou não gostar de mim, mas ninguém pode dizer, em lugar nenhum do mundo, que neste país aqui não existe a democracia e que o governo não seja republicano. É só perguntar para os meus adversários a quantidade de dinheiro que eles recebem deste governo, e que não receberam do governo deles quando governaram. Então, vamos deixar que Cuba pague o preço que tiver que pagar pelo comportamento deles.

ONU

Não existe possibilidade de ter a candidatura… de ninguém ser secretário-geral da ONU, se o Conselho de Segurança não decidir quem é que vai ser. E eu não acho que o Conselho de Segurança da ONU tenha que ter como secretário… que o secretário-geral das Nações Unidas tenha que ser alguém politicamente tão forte que possa ser mais forte do que os presidentes de alguns países. Ou seja, o secretário-geral da ONU é um funcionário dos países que compõem as Nações Unidas. Portanto, ele tem que ser uma pessoa, na minha opinião, burocrata de lá. Eu não consigo imaginar ele chamar um presidente, que vai se sentar com outro presidente, mesmo sem mandato, com mais força, com mais (incompreensível), ou seja, não é possível. Veja o que aconteceu agora na União Europeia. Na escolha dos membros da direção da União Europeia estava concorrendo o Tony Blair, estava concorrendo o Felipe González, estava concorrendo o D’Alema. Quem que eles indicaram? Três pessoas totalmente desconhecidas. Por quê? Porque nenhum presidente quer concorrente.

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