A descendência bastarda

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Darwin não perturbou seus contemporâneos ao desautorizar cientificamente a Bíblia. Por João Pereira Coutinho.

Os brasileiros são sábios. Pesquisa Datafolha, publicada na semana passada, revela que a maioria dos inquiridos (59%) aceita Darwin sem jogar Deus pela janela. Contra essa maioria, existem 8% que apostam tudo no macaco. E 25% que apostam tudo contra o macaco. A discussão é absurda. Para os dois extremos. É absurda hoje, nas lutas correntes entre “criacionistas” e “evolucionistas”. Mas seria sobretudo absurda para a sociedade vitoriana, que recebeu a obra de Darwin com outro tipo de preocupações.

Começo pelo óbvio: quando Charles Darwin publicou a sua “Origem das Espécies”, século e meio atrás, a ideia herética de que o mundo não havia sido criado nas vésperas não constituía propriamente uma novidade. A geologia, e em especial os estudos de Charles Lyell (que Darwin leu a bordo do Beagle), apontava já para mudanças lentas, graduais, ao longo de períodos de tempo imensamente longos, que acabariam por gerar alterações profundas no rosto da Terra. Para um fundamentalista, a Terra talvez fosse o resultado de uma criação recente, tal como a Bíblia estabelecia; não para um cavalheiro ilustrado na Londres do século 19.

E se assim era com a Terra, assim seria com as espécies que a habitavam. É um fato que Charles Lyell nunca deu esse passo: as alterações geológicas não autorizavam qualquer tipo de “transmutação” das espécies. Mas a “transmutação” era já corrente entre os círculos letrados. Antes de viajar pelo mundo, recolhendo fósseis com planos anatômicos semelhantes, mas não iguais, aos exemplares mais contemporâneos, Darwin conhecia o essencial da literatura evolucionista. Conhecia Lamarck. E conhecia o seu avô, Erasmus Darwin. A ideia simpática de que Deus criara tudo através de um único sopro; e que, a partir dele, as espécies se mantiveram constantes ao longo de milênios, não era mais que isso: uma ideia simpática.

Dito de outra forma: Darwin não perturbou os seus contemporâneos ao desautorizar cientificamente a Bíblia; a revelação de um mundo mais antigo e mais “instável” do que o Gênesis revelava era, digamos, a parte menor do seu tratado.

A parte maior residia na explicação do mecanismo responsável por essa “instabilidade”. De fato, o que perturbou os vitorianos foi a dimensão moral, ou amoral, da teoria.

O mundo de Darwin não era mais o mundo relativamente “ordenado” de William Paley, para quem tudo o que existia cumpria um sentido que era anterior e superior à mera transitoriedade do tempo. A natureza e as suas criaturas eram peças de um “relógio”; e existiam porque o supremo “relojoeiro” as criara daquela forma, destinadas a cumprir aquele propósito.

Darwin desautoriza essa versão: a natureza não é um “relógio”; é um estado de guerra, dominado pela competição de organismos que lutam pela sua sobrevivência e reprodução. Ao negar o perfeito “mecanicismo” de Paley, Darwin regressava ao pessimismo de Thomas Malthus para quem a condição social dos homens já era esse perpétuo campo de batalha. Em obra inultrapassável sobre as consequências morais do darwinismo, “Darwin and the Darwinian Revolution”, conta a historiadora Gertrude Himmelfarb que não foi difícil aos vitorianos, como não é difícil para os brasileiros, conciliar Darwin com a manutenção das suas crenças religiosas.

Mesmo a publicação posterior de “A Descendência do Homem” (1871) permitiu que as águas continuassem separadas: se o homem descendia do macaco, o macaco continuava a descender de Deus.

Aliás, não apenas o macaco; todas as leis de seleção natural que Darwin se limitara a revelar.

Porém, havia um outro desconforto que não abandonava os vitorianos: o desconforto da orfandade. De que valia um Deus criador se ele já não era a “mão invisível” que orientava a criação?
As lutas posteriores são filhas dessa pergunta. Muitos aceitaram-na, reformulado o preceito bíblico de dar a Deus o que é de Deus e à ciência o que é da ciência.

Muitos outros responderam à inquietação pela negação da teoria, uma espécie de retorno radical ao paraíso perdido.
Mas a verdadeira tragédia não veio com os “criacionistas” empedernidos. Veio com a descendência bastarda de Darwin, para quem a pergunta os autorizava a transformar a ciência em ideologia. Darwin retirara das mãos de Deus o mecanismo seletivo. A descendência bastarda retirava esse poder das mãos da natureza para o entregar ao poder político.

Foi a receita para o desastre. Um desastre evitável se a descendência bastarda tivesse a intuição dos brasileiros para colocar a ciência no seu lugar devido.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0604201017.htm

Sobre Juarez Duarte Bomfim 745 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]