Traindo(-se) | Por Roque do Carmo Amorim Neto

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João era casado com Teresa há exatos 10 anos. Eles tinham dois filhos e também sucesso profissional. Para os familiares e vizinhos os dois eram um exemplo de realização. Era comum ouvirem de pessoas conhecidas: “vocês formam uma família muito bonita!” ou ainda, “João, quando meus filhos crescerem gostaria que eles fossem como você e Teresa”. Tudo era muito bonito! Todos pareciam felizes, menos João.

Tudo começou ainda no primeiro ano de casado. Desde aquele período João passou a manter relações sexuais fora do casamento. Nos primeiros anos, isto acontecia muito esporadicamente. Ele se sentia culpado e temia perder Teresa. No terceiro ano de casamento, quando Teresa engravidou pela primeira vez, João entrou em crise e procurou terapia. Ele estava encantado com o filho que estava por vir, mas se sentia inadequado e queria mudar. João queria ser um bom pai e também um bom esposo.

Quando Arthur nasceu, João estava seguro de que uma vida nova havia começado para ele também. Todavia, aquela empolgação não demorou mais que um semestre. João abandonou a terapia e voltou à sua velha prática. Teresa que, além do trabalho, também se ocupava com Arthur não tinha se quer cabeça para imaginar que alguma coisa estivesse errada com seu esposo. Além disto, o fato de ter sempre alguém elogiando o marido, era algo que lhe dava certa confiança.

À medida que o tempo foi passando, João intensificou seus relacionamentos. Antes ele mantinha relações sexuais sem a menor intenção de rever a pessoa, agora ele já pensava até mesmo na possibilidade de ter uma amante, alguém a quem pudesse ver com frequência. Entretanto, todos os cuidados que tomava para não ser descoberto lhe impediam de encontrar a mesma pessoa mais de três ou quatro vezes. Sua vida tinha momentos frequentes de grande tensão.

De tempos em tempos, quando alguma coisa saia errado, ele prometia para si mesmo que iria parar, que assumiria sua vida de casado, sua família. Ele fazia promessas para si mesmo, para dias depois voltar atrás.

No sétimo ano de seu casamento, Teresa engravidou novamente. A gravidez foi um pouco mais complicada e quando Bruna nasceu, ficou alguns dias na incubadora. João se culpou pelo sofrimento da filha e também da esposa. Uma vez mais procurou terapia e sua terapeuta diagnosticou depressão. João fez promessas para Deus e para si mesmo. Em todo tempo de casamento, Teresa nunca havia sido maltratada pelo marido, mas também nunca havia sido tão bem tratada como foi nos três primeiros meses após o nascimento de Bruna.

Depois de três meses, quando sua filha em nada parecia a criança frágil que era ao nascer, as flores e os mimos para Teresa e as horas de dedicação diária à família começaram a diminuir discretamente. Mais uma vez João se deu alta da terapia, e reiniciou o ciclo de relacionamentos extraconjugais. Ainda naquele ano, como teve uma situação de emergência na empresa às vésperas do natal, ele não acompanhou a família para a celebração com os pais de Teresa, chegaria apenas para o ano novo.

No dia 23 de dezembro daquele ano, pela primeira estava em sua casa sozinho e tão logo deixou o trabalho, tratou de encontrar alguma distração. Daquele momento em diante não se tratava mais de ir a motéis ou a casa de pessoas desconhecidas. Ele estava em sua própria casa, usando a cama que dividia com Teresa. Aquela foi a primeira de muitas ocasiões.

Sinceramente não sei como finalizar esta história sem que eu mesmo seja atingido pelo desfecho. Esta poderia ser a história de um João qualquer, mas na verdade é a história de todos nós que de tempos em tempos assumimos comportamentos auto-destrutivos. É a nossa história quando abrimos mão dos valores mais importantes de nossa vida em busca de conforto emocional ou mesmo pelo simples desejo de excitação e risco.

A principal traição não é aquela feita contra as pessoas que amamos, mas aquela praticada contra nós mesmos e contra os valores que definem nossa identidade. Se para João um final feliz é algo difícil, certamente o sentido de nossas vidas e a felicidade decorrente do mesmo também encontrará seu entardecer antecipadamente quando traímos a nós mesmos.

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