Quando os desejos ilusórios encontram as verdades não ditas | Por R. C. Amorim Neto

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Anderson conheceu Mariana em uma página de relacionamentos na internet. A disposição dos dois em uma tarde de domingo fez com que a conversa durasse horas, em relação às quais nem Mariana nem Anderson tomaram consciência.

O diálogo que havia começado de modo impessoal, tornou-se gradativamente íntimo quando descobriram semelhanças, ambos trabalhavam no setor comercial, tinham apenas um irmão e estavam solteiros. A conversa fluía imperceptivelmente e aos poucos tanto Anderson quanto Mariana revelavam seus medos e expectativas em relação a um futuro parceiro. Anderson confessou já ter passado por situações difíceis pelo fato de ter se doado muito em algumas relações e ter recebido muito pouco ou nada em troca. Mariana falou sobre seu último relacionamento e o quanto isto foi doloroso quando seu ex-namorado pois um ponto final na relação. Contudo, ambos disseram que ainda acreditavam na possibilidade de encontrarem a pessoa certa.

Quando, ao anoitecer, se despediram trocaram números de telefone e certa satisfação adentrou o coração de Anderson. Apenas o dele, para Mariana aquele tinha um bate-papo interessante, mas sem maiores expectativas. Na manhã do dia seguinte, Anderson enviou uma mensagem de texto. Esta foi apenas a primeira de 586 mensagens trocadas naquele mês com Mariana. Para ele, uma grande possibilidade. Para ela, uma excitante diversão.

Anderson morava em São Paulo e Mariana em Curitiba. Para ela, uma distância impossível. Para ele, um voo rápido e promissor. Anderson que além do trabalho intenso durante a semana fazia pós-graduação nos finais de semana, logo começou a planejar uma viagem a Curitiba. Mariana que não acreditava que isto pudesse acontecer, alimentava as expectativas de Anderson.

Em uma das ocasiões em que Anderson ligou para Mariana alguns minutos antes de dormir, eles combinaram uma data, o final de semana de 19 a 21 de março. Tanto ele quanto ela estariam livres e poderiam passar algum tempo juntos para se conhecerem. Mariana chegou a sugerir alguns passeios pela capital paranaense.No dia seguinte, por volta do meio-dia, Anderson mandou uma mensagem de texto apenas para confirmar se poderia mesmo comprar as passagens e fazer reserva em um hotel. Mariana confirmou e assim Anderson procedeu e alimentou a expectativa de uma viagem com “final” feliz… Já começava até mesmo a pensar na possibilidade de reorganizar sua vida e mudar para Curitiba.

Quando faltavam apenas quatro dias para a visita de Anderson, Mariana começou a pensar na seriedade do que estava por acontecer. Mil coisas passaram por sua cabeça. Anderson poderia ser o homem da sua vida, como também poderia ser um insuportável dependente afetivo, que grudaria nela e de quem seria difícil se desfazer, ou mesmo poderia ser um criminoso. Ela já tinha mesmo ouvido várias histórias parecidas…

Para resolver o mal-estar que sentia, ela resolveu mandar uma mensagem para ele dizendo que havia pego uma gripe muito forte. Em vez de afastar Anderson, esta história apenas o fez desejar estar por perto de Mariana para ajudá-la. Ela chegou a sugerir que ele “adiasse” a viagem para quando ela estivesse melhor. Ele insistiu. Mariana disse que não queria que Anderson a visse doente no primeiro encontro… A resposta que recebeu dizia: “Já estou com tudo organizado, vou a Curitiba assim mesmo”.

No dia seguinte, Anderson tentou contato com Mariana e tudo o que recebeu dela foi: “Espero que faça boa viagem, estou indo hoje para a casa dos meus pais no interior”. Ele preferiu acreditar que isto seria bom para ela, pois no interior teria os cuidados dos pais e se recuperaria prontamente.

Mariana não viajou. Anderson passou boa parte do seu tempo no hotel dormindo. Na tarde de sábado ligou para Mariana, porque de certa forma se sentia culpada, ela atendeu. Depois de ouvir a saudação do rapaz, ela foi direta:

– Acho que você deveria encontrar outra pessoa.

– Do que você está falando? – Perguntou incrédulo.

– Você levou tudo muito a sério…

– Mariana, durante mais de um mês nos falamos por telefone quase todos os dias e trocamos centenas de mensagens. Você parecia gostar de tudo aquilo…

– Eu gostava de me comunicar com você, mas isto não quer dizer que eu goste de você. Nunca nos vimos. Você mora em São Paulo e eu aqui. Isto nunca vai dar certo.

– Tudo bem. Se você diz… – Disse Anderson devastado.

– Desculpe-me por fazê-lo viajar de tão longe. Sinto-me culpada por tudo isto.

– Boa sorte, Mariana.

Na manhã de domingo, decepcionado, Anderson retornou a São Paulo. Ao chegar em casa deletou o nome de Mariana de seu celular. Ela resolveu que ficaria um tempo sem entrar em salas de bate-papo, enquanto ele decidiu dedicar ainda mais tempo à procura de alguém para amar.

 

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