Notas Introdutórias aos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844 | Por Clodoaldo Almeida da Paixão

Os manuscritos econômico-filosóficos foram escritos quando Marx tinha apenas 26 anos de idade, embora já Doutor em Filosofia. Nele se encontra, por assim dizer, um esboço teórico da critica à Economia Política que só posteriormente, no Capital, considerada a sua obra de maior profundidade teórico-metodológica, se verificará “completamente” desenvolvida.

Um aspecto fundamental e que deve ser bastante acentuado nessa obra inconclusa de 1844 é a importância epistemológica operada pelo autor, qual seja, a de já nesse momento fundir no processo de análise dos problemas teóricos, Filosofia e Economia ou, como se queira, Economia Política e Filosofia. E, nesse sentido, embora bastante evidenciado a influência que recebera dos grandes expoentes de cada esfera do conhecimento, de um lado, da Economia Política, por Smith e Ricardo, e, do outro, pela Filosofia de Feuerbach e Hegel, diferencia-se desses de forma crítica e transcende-os teoricamente.

Assim é com relação à noção de alienação descoberta por Feuerbach, para quem coloca – no lugar do Espírito/Ideia hegeliano – o homem sensível, real. Embora contribua criticamente assinalando o caráter concreto da dimensão humana, percebe-o, no entanto, como coisa natural. Aqui reside, já, a crítica operada por Marx, ao destacar o caráter histórico da natureza-essência humana, observando que também o sensível é obra humana. Trata-se, portanto, para Marx, já nesse momento de sua trajetória intelectual, de perceber e explicar a sociedade historicamente e a partir das relações sociais estabelecidas concretamente.

Ao contrário de Hegel, para quem a alienação estaria no plano da consciência, ou seja, na Ideia que os homens fazem da realidade. Sendo assim, trata-se, na perspectiva de Hegel, de defini-lo no plano das ideias ou da consciência como se queira. A alienação, assim, seria um estado meramente da consciência. Para Marx, no entanto, essa é apenas uma das formas da alienação. Ou melhor, embora metodologicamente Hegel avance em relação a Feuerbach, no sentido que não considera-a como um processo natural, mas histórico, o mesmo (Hegel) só consegue alcançar um aspecto do problema.

Nesse sentido, a perspectiva teórico-metodológica operada por Marx consegue dar conta do problema na sua totalidade, uma vez que pensa-compreende a alienação como sendo ao mesmo tempo subjetiva e objetiva, ou, dito de outra forma, como sendo um produto simultaneamente da consciência e de uma situação objetiva, concreta. Para Marx, o que há de concreto não é, como pensa alguns ditos marxistas, uma inversão da realidade que apareceria – enquanto reflexo – de forma invertida na consciência do sujeito. O que ocorre de fato é uma correspondência no plano da consciência do indivíduo do que ocorre efetivamente na realidade objetiva, para distinguir da noção de realidade subjetiva ou abstrata.

A chave do problema para Marx, no entanto, está em demonstrar o que determina a alienação humana. Essa seria, portanto, a tarefa sine qua non, da Teoria. E é esse esforço teórico que foi empreendido pelo autor nos manuscritos econômico-filosóficos. Nesse sentido, o que faz com que no processo de produção-criação-transformação o produto do trabalho humano apareça como sendo produto não de si mesmo, mas do outro, é, para Marx, a propriedade. Sendo essa a descoberta fundamental para a compreensão e explicação desse fenômeno social, ou seja, a forma pela qual o homem se realiza ou afirma a sua superioridade ou liberdade – o trabalho – é a mesma pela qual se torna inferior ou escravo.

Isso é o que faz com que o criador não reconheça a criatura que ele mesmo criou como sendo a sua criação ou, o que dar no mesmo, isso é o que faz com que a criatura (produto do criador) se torne acima do criador e voltando-se contra esse.

A noção de trabalho, descoberta pela Economia Política foi fundamental, embora submetida a uma profunda crítica, pois embora entendida enquanto a essência da atividade humana, a mesma representava-a como natural. Desnaturalizar a compreensão e explicação da realidade, essa parece ser, a tarefa teórica imediata de Marx.

Como se chegou até a noção de valor e não se deu maiores passos? Embora trabalhando ainda nesse momento com a noção de “propriedade do trabalho ou trabalho como mercadoria”, percebe-o, desde cedo, que a alienação é determinada pela força de trabalho tornada propriedade de outro.

Aqui residiria, no entanto, a possibilidade de uma crítica teórica – no sentido marxista (superação do problema) – a explicação de Marx, sobretudo a partir do seguinte problema: é possível o trabalho humano (no capitalismo) sem que haja a alienação? A alienação estaria na apropriação da quantidade do trabalho ou produto do trabalho ou na objetivação do trabalho humano? Essa seria, ao nosso modo de ver, a grande contribuição que poderia ser dada, hoje, a Teoria da Alienação.

Há apenas 32 anos mais tarde (1876, mas publicado em 1896 – sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem) o maior parceiro acadêmico de Marx – Friedrich Engels, diria sem temor a erro que “o trabalho é a fonte de toda riqueza (…), com efeito, ao lado da natureza, encarregada de fornecer os materiais que ele converte em riqueza. O trabalho, porém, é muitíssimo mais do que Isso. É a condição básica e fundamental de toda a vida humana. E em tal grau que, até certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem (..)”. Análise, aliás, bastante oportuna frente ao debate teórico-ideológico contemporâneo que propugna pelo fim da sociedade do trabalho.

*Clodoaldo Almeida da Paixão é professor-Assistente do DCHF/Uefs, Mestre em Sociologia (Ufpb) e Doutorando em Família na Sociedade Contemporânea (Ucsal).

Fonte: Clodoaldo Almeida da Paixão | [email protected]

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